Por que os gamers ainda são considerados nerds?

Nerd-O-Matic quinta-feira, 15 de novembro de 2007 – 19 comentários

Ah, cara. Não sei. Mas é uma boa pergunta.

Talvez porque os nerds sempre se destaquem da multidão em quase tudo que fazem, seja jogar vídeo-games, jogar RPG, ser gênio na computação, apanhar na escola ou ser enterrado de cabeça pra baixo em uma lata de lixo. É difícil não notar aquela figura que não sabe se vestir direito, usa óculos de aro grosso, é magro demais/gordo demais e não possui habilidades com as mulheres, a não ser babar por elas. Mas isso não é uma habilidade, porque eu também babo por algumas mulheres. E eu nem sou muito nerd. E mesmo que eu seja isso não vem ao caso, porra! Presta atenção no assunto principal, cacete.

É lógico que eu já vi uma vagina, ela tem mais ou menos esse formato.

Enfim, os nerds se destacam nas atividades que desempenham, e acabam virando ícones daquelas atividades. Eles chamam atenção demais, por representarem o fracasso humano que nós não queremos ser. Mesmo que seja o Bill Gates, um nerd sempre representa o fracasso. Ok, o Bill Gates é um nerd rico, e poderia comprar você e toda sua família, e fazer lingüiça com vocês. Mas mesmo com a capacidade de transformar qualquer pessoa em churrasco, eu não queria ser o Bill Gates. Pô, o cara é um nerd. Ele é O nerd. Ele pode ser rico, mas aposto que todo mundo continua tirando onda com o cara. Prefiro ser pobre a passar a vida sendo tirado.

Mentira; prefiro ser rico. Mas eu sou pobre, e todo mundo tira onda com a minha cara do mesmo jeito. É por isso que eu jogo vídeo-games, pra fugir dessa vida insatisfatória e dessas pessoas mesquinhas que me zoam.

Eu podia estar matando, eu podia estar passando fogo em geral, eu podia plantar uma bomba no banheiro depois da merenda com suco de uva. Mas eu preferi jogar vídeo-games. Basicamente é esse pensamento que define o nerd: um psicopata sem culhão para realizar massacres em escolas. Massacres em escolas são feitos por ex-nerds, que dão o passo adiante e entram para a história como MALUCOS, uma categoria diferente do nerd inofensivo.

Meudeusdoceu, como eu me distraio facilmente quando escrevo bêbado.

Mas voltando ao ponto: o nerd é um cara que sofre no mundo real, e procura mundos alternativos para ser mais feliz. Nós chamamos isso de escapismo. Fontes comuns de escapismo são os livros, os filmes e o tóchico. Pessoas comuns praticam escapismo o tempo todo com livros e filmes. Pessoas cool praticam o escapismo com o tóchico e as dogras. Como os nerds não são pessoas normais e muito menos cool, eles optam por um meio termo como weapon of choice do escapismo: vídeo-games.

Esse gordinho é ridículo DEMAIS, mano. Deve ser a oitava ou nona vez que eu uso ele como exemplo de inexistência de vida social.

Os vídeo-games são ótimos para o nerd escapista, porque normalmente duram muito mais do que as duas horas de um filme, e qualquer Final Fantasy hoje em dia leva mais tempo pra ser terminado do que um livro. Aliás, qualquer Final Fantasy hoje em dia leva mais tempo pra ser terminado do que um prédio de 200 andares. Maravilha. Me botem nesse mundo irreal onde eu posso lançar magias e tacar fogo no rabo das pessoas apenas com o meu pensamento. Isso é MUITO melhor do que o mundo que passa no Jornal Nacional, vocês hão de concordar comigo.

Outra grande vantagem dos vídeo-games sobre a vida real é a sensação de controle. Com o joystick na mão, você faz o que quiser no ritmo em que quiser (heh), algo um pouco diferente da vida real. Considere ainda que o nerd médio possua poucas habilidades sociais, o que redunda em pouquíssimo controle sobre o ambiente e sobre as pessoas á sua volta. Você sabe, pra controlar o comportamento das pessoas, você precisa se comunicar com elas, para entender o que elas querem e se você tem algo a oferecer a elas. Os nerds minimizam o contato com os demais seres humanos, portanto, controlam pouco o ambiente. Se voltar para os vídeo-games é realmente algo muito natural se você pensar dentro dessa concepção.

Todos nós evitamos situações que não controlamos, pois nos sentimos inseguros nelas. Se o que você evita é a realidade como um todo, isso te deixa muito tempo livre na mão pra gastar com coisas que não sejam relacionamentos humanos. O mais engraçado é que os nerds evitam os relacionamento reais, mas vão buscá-los nos ambientes virtuais de Second Life e World of Warcraft, por exemplo. O ser humano é um ser social, de fato.

Tempo livre pra jogar gera um jogador inveterado. Como os nerds não são burros, apenas feios e bitolados, eles conseguem normalmente um desempenho razoável nos mais diversos jogos, colocando-se acima dos noobs, atingindo um certo status e granjeando o respeito que suas calças mijadas nunca lhes dariam no mundo real. Está lançada a semente para o nascimento de um hardcore gamer: dedicado demais á causa dos vídeo-games, defensor do seu amor eletrônico e emblema definitivo do que é um jogador.

Amor aos games tem limite, colega. Você deveria ser incinerado vivo.

Embora os casual gamers venham crescendo muito desde o advento do Wii, ainda não aparecem em estatísticas, já que não levam essa parada de jogo muito á sério. Quem aparece e faz demandas ao mercado é o hardcore gamer que, como já vimos, tem grandes chances de ser um nerd.

Assim, o destaque involuntário dado a esses indivíduo losers, acaba recaindo sobre toda a classe dos gamers. O que é ruim sempre se destaca, e no caso dos gamers, o que se destaca é o nerd. A equação se fecha e temos o resultado final de porque os gamers ainda são considerados nerds. Obrigado senhoras e senhores. Prometo que na semana que vem bebo menos. Vocês são ótimos. Joguem mais vídeo-game. Caso não sejam nerds, obviamente.

Manhunt 2: Descanse em Paz.

Nerd-O-Matic quinta-feira, 08 de novembro de 2007 – 8 comentários

Ok. Depois de MESES de veadagem, finalmente estamos nos deparando com o lançamento de Manhunt 2. Se você não sabe que jogo é esse, e qual foi a treta com ele, dá uma olhada nesse post e nesse.

Como eu falei muito sobre esse jogo desde o lançamento do Ato ou Efeito, me sinto obrigado a fechar o processo todo agora, com minha opinião sobre o assunto. Minhas idéias sobre o assunto são tão inválidas quanto as de vocês, mas não tem jeito: a gente curte discutir.

A síndrome do jogo natimorto.

Bom, o primeiro passo foi jogar a parada. Joguei no PS2 e joguei no PSP. Ainda estou esperando para dar uma sacada na versão do Wii, mas não espero muita coisa diferente do que já vi. O que nós temos com Manhunt 2 é basicamente a mesma jogabilidade e feeling do primeiro. Aliás essa foi minha maior decepção: eu esperava que ele fosse realmente uma experiência nova e claustrofóbica, do tipo “Arkham Asylum”, com o protagonista retalhando e passando um monte de internos doidões pra tentar sair do hospital psiquiátrico. Mas rapidamente você sai do hospital para ambientes mais abertos, e fica parecido demais com o primeiro jogo.

Isso não é uma resenha, mas indico a frustração com a falta de novidade porque ela tem uma conseqüência importante: o jogo perdeu a força do primeiro título. O que eu gostava mesmo no primeiro jogo era o fato dele ser extremamente atmosférico, criando medo a cada esquina, e trazendo uma sensação de paranóia, onde você nunca sabia que porra ia acontecer, com o jogo apresentando personagens uns mais doentes que os outros a cada momento. Você se sentia frágil no jogo. Você não era um super-herói. Se tu marcasse ou mandasse mal ao andar pelo ambiente, tu ia pra fita. Simples assim.

Manhunt 2 acabou virando uma paródia do primeiro, porque perdeu toda a magia e charme perversos que a gente conhecia. Você já sabe o que esperar agora, e nada te surpreende. A Rockstar fez muito pouco para mudar o jogo. Tudo bem, em time que está ganhando não se mexe. Mas nesse caso, o impacto da novidade é extremamente importante: manter o jogador surpreso o tempo todo. E a surpresa não está mais presente em Manhunt 2.

Opa, festa surpresa?

Essa é a parcela de culpa da Rockstar. Agora vamos analisar a culpa da CENSURA.

Até hoje Manhunt é uma experiência única; um jogo que me fez sentir coisas que não senti com outros jogos, sejam essas coisas boas ou ruins. Tudo era complementado de forma genial pela violência excessiva e muito realista. Eu GOSTO desse tipo de coisa. Mexe comigo e me faz pensar porque as pessoas se incomodam tanto com violência de mentirinha.

Em Manhunt 2 a maldita CENSURA (porque é isso que aconteceu) obrigou a Rockstar a “esconder” as cenas mais violentas; as coisas ficam borradas na hora das execuções, os ângulos de câmera mudam, e você tem que ficar imaginando o que está acontecendo.

Isso é uma merda, porque você não recebe o impacto da violência que deveria receber. Eu não sou criança, eu quero ver cenas que me choquem, para descobrir o quanto eu agüento em um jogo. Eu quero saber que tipo de gamer eu sou, e que tipo de violência me agrada, qual me incomoda, e qual simplesmente me faz rir. Censurar as cenas foi a pior solução possível, era melhor nem ter liberado o jogo. Não é necessário proteger os jogadores da brutalidade já que Manhunt nunca foi um jogo pra criança. Isso foi tão imbecil quanto, por exemplo, colocar tarja preta nos órgãos sexuais que aparecem em um filme pornô. Se eu vou assistir sexo, eu quero ver o sexo. Se eu vou jogar um jogo violento, eu quero ver a violência em todos os seus tons de vermelho e cor de miolo esmagado. Não me ofereçam a experiência pela metade!

“Ok, as flores são um bom substituto para a pistola. Mas AINDA tá violento” (Liga das Senhoras Católicas).

A coisa toda se torna ainda mais imbecil quando a gente lembra que ninguém é obrigado a jogar a porra do Manhunt, assim como não é obrigado a jogar NENHUM jogo. Se o cara joga e se sente “ofendido” pela violência, porque diabos resolveu jogar, em primeiro lugar?

Isso me deixa puto: em nome de um bando de boiolas, tangas e frutinhas, órgãos normativos decidem me proteger da violência excessiva. Quem disse que é excessiva? EU que vou decidir se é excessiva ou não, e não vocês, Liga das Senhoras Católicas.

Enfim, bato demais nessa tecla da censura, porque acho que isso efetivamente FERROU com Manhunt 2. Se havia alguma visão artística no jogo, essa era baseada na crueza das execuções com requintes de crueldade, e isso tudo simplesmente foi deletado da versão que está disponível. Um jogo emasculado, manco, caolho, inválido.

Apesar de tudo, joguem Manhunt 2. Joguem em homenagem ao primeiro. Joguem para compreender como a CENSURA pode estragar algo que era uma obra-prima. Joguem para entender a sua ligação com a violência e aprender mais sobre vocês mesmos. Lembram daquela coluna onde eu falei que “você é o que você joga”? Manhunt é um espelho: você olha pra ele e ele olha pra você. Nem sempre você vai gostar do que vê.

Harry Potter e a magia dos jogos ruins.

Nerd-O-Matic quinta-feira, 01 de novembro de 2007 – 27 comentários

Ah, as franquias. O que seria do mundo dos games sem elas?

-O que é uma franquia?

Orra, Tanguinha, mas você é mesmo um belo pedaço de asno, hein? “Franquia” é quando um desenvolvedor lança um jogo, e você sabe que vão sair mais trocentos iguais depois. “Fifa” é uma franquia, assim como “The Sims”, “Resident Evil” e “Street Fighter”. A franquia chega pra ficar, e nunca mais desaparece da sua vida.

Claro, os jogos que eu falei aí em cima chegam e ficam porque são bons, porque atendem á demanda de um certo público qualificado. A gente sempre quer dar uma sacada no novo Grand Theft Auto ou no Guitar Hero, por mais que critique o seu lançamento ou pense que não vai estar á altura do jogo anterior. A curiosidade é maior, e é prazeroso acompanhar o desenvolvimento e amadurecimento de uma franquia, quando ela é recheada de jogos interessantes e inovadores.

Mas alguém me explica qualé a das franquias RUINS? Por que demonhos do satanás elas continuam assombrando a nós, pobres jogadores, que precisamos ficar driblando esses jogos desgraçados como se fossem prostitutas sifilíticas?

Nossa, é tão parecido com o filme que eu não tenho nem porque jogar.

E é lógico que eu estou falando da franquia Harry Potter. Os jogos do bruxo que gosta de balançar a varinha são algumas das coisas mais nefastas que já passaram pelos meus consoles. A Eletronic Arts é realmente uma empresa de culhão e pendor mercenário impressionantes, já que não pára de lançar essas crias do belzebu, em todos os formatos e plataformas disponíveis, espalhando a semente do mal de forma indiscriminada a cada novo filme do bruxo que chega aos cinemas.

Quero deixar bem claro que eu não joguei todos os jogos de Harry Potter, e que mesmo assim vou falar deles.

-Ai, mas você devia conhecer os jogos TODOS antes de querer falar alguma coisa sobre eles.

Não, Tanguinha. Você está muito errado. Jogos são uma forma de entretenimento, e você deve SE AFASTAR dos jogos ruins, sem precisar perder tempo jogando cada um deles. Você não precisa gastar tempo com um jogo ruim. O que você precisa é saber reconhecer um deles de longe, para poder evitá-los mais facilmente. Aí você gasta seu tempo jogando alguma coisa BOA.

Confesso que os livros de Harry Potter não me agradam. Mas as razões para eu desgostar deles não interessam, pois são tão válidas ou razoáveis quanto as razões de quem gosta. Reconheço que os livros têm qualidade para um certo nicho de leitores. Isso também acontece com os filmes de Harry Potter que, embora sejam formulaicos, pelo menos são bem filmados e roteirizados. Eles são produtos de qualidade, servidos para aqueles que gostam de Harry Potter.

Corra Réri, Corra.

Porém, mesmo que você seja um fã dos livros e filmes, é preciso entender que os JOGOS Harry Potter são um caso á parte. Eles não são feitos com qualidade e não respeitam os fãs da série; são apenas caça-níqueis, que se aproveitam do hype pra vender mais um produto com a estampa do bruxo-mirim. É como se você quisesse ser macho, por exemplo, e alguém estampasse a figura do Capitão Nascimento em uma caixa de absorventes: não adianta usar o absorvente do Capitão Nascimento, porque isso não vai te fazer mais homem, entende?

Ok, não entende.

Tudo bem, não acredite em mim. Acredite no www.metacritic.com, que faz a média das notas que um jogo recebe nas críticas dos sites especializados. Vamos ver as notas médias dos jogos da série:

Harry Potter and the Chamber of Secrets (2002) Nota média: 71
Harry Potter and the Sorcerer’s Stone (2003) Nota média: 56
Harry Potter: Quidditch World Cup (2003) Nota media: 68
Harry Potter and the Prisoner of Azkaban (2004) Nota média: 70
Harry Potter and the Goblet of Fire (2005) Nota média: 68
Harry Potter and the Order of the Phoenix (2007) Nota média: 61

E notem que essas são só as notas dos jogos do Playstation 2. Os mesmos jogos existem para outras plataformas, com resultados ainda piores.

Mas que maravilha, hein? Quer dizer que o melhor jogo foi o primeiro, com uma nota média apenas passável de 71, e que depois as coisas nunca melhoraram, apesar dos anos que a EA teve para tornar o jogo uma experiência mais gratificante e alinhada com a qualidade dos outros produtos Harry Potter.

Como pode?

Isso acontece porque a EA sabe que a parada vai vender. Vai vender por causa da força e qualidade dos livros e filmes. Essa qualidade se empresta automaticamente aos jogos, e assim eles continuam a desovar suas criações malditas em formas de jogos franqueados.

-Mas eu gosto dos jogos do Réri Póte, lol xD.

Não Tanguinha, você não gosta. Você gosta do universo de Harry Potter, e se esforça para gostar também do jogo. Os personagens que você adora estão lá, sacudindo as varinhas e jogando Quidditch, e você tenta acreditar que é tão legal como nos filmes, mas não é. É só uma cópia mal-feita, um filme com menos definição, cuja história você já conhece, e que você controla com um joystick.

Se você é um fã da série, faça um favor a todos nós: ignore os jogos de Harry Potter. Releia o livro, reveja o filme, apóie outros produtos bons, mas ignore os jogos. Enquanto alguém comprar, eles vão continuar fazendo.

Você é o que você joga.

Nerd-O-Matic quinta-feira, 25 de outubro de 2007 – 18 comentários

E aí, vocês cansaram de falar de pirataria? Nós ficamos quase UM MÊS discutindo sobre pirataria. Em dois sites diferentes ao mesmo tempo.

Eu não cansei; na verdade eu podia ficar mais UM ANO argumentando e escutando o que vocês têm pra falar. Não é que eu goste de ouvir vocês, mas eu gosto sim de argumentar, discutir e foder com a mente dos outros. É uma espécie de esporte pra mim. Mas achei melhor dar uma parada no assunto, já que vocês não agüentam o tranco.

Então, na coluna de hoje vamos falar sobre games e personalidade. Já notaram como diferentes tipos de pessoas gostam de diferentes tipos de jogos? Já notaram como existem certas pessoas que simplesmente não vêem graça nenhuma em vídeo-games? Por que será que isso acontece, essas diferenças de perfil gamer?

Vamos analisar. Pense em cinco jogos que você gosta. Os meus, no momento, são:

Shadow of the Colossus (PS2 – Ação).

Final Fantasy Tactics (PSP – Estratégia em Turnos)

Trauma Center (Wii – Puzzle/Adventure)

Zelda Twilight Princess (Wii – RPG/Adventure)

Syphon Filter: Logan’s Shadow (PSP – Ação)

á primeira vista parecem jogos muito diferentes, mas analisando com paciência você percebe que eles têm alguns elementos em comum. Vamos tentar identificar cada um desses elementos e sua relação com a personalidade de quem joga.

1) Todos são jogos que exigem um mínimo de reflexão antes de realizar as ações. Nenhum dos cinco jogos é baseado em reflexos rápidos ou ação incessante. Mesmo no caso de Syphon Filter, o rirmo é lento, e o avanço é feito através da procura de pontos no cenário onde você possa se esconder e derrubar os inimigos impunemente. São jogos muito diferentes de um Doom III Multiplayer, por exemplo, que é ação pura e simples.

2) Os cinco jogos possuem uma história a ser acompanhada. Em todos eles o enredo ocupa um lugar importantíssimo, sendo que em alguns chega a definir o que deve ser feito nas partes de ação. Zelda é o expoente máximo desse elemento: se você não prestar atenção no que os personagens falam, não vai saber o que fazer em seguida. Diferente de jogos como Street Fighter ou Tekken, onde a história simplesmente inexiste ou não importa para o jogo.

3) Os jogos escolhidos permitem uma liberdade de estilo de jogo, onde o jogador define que estratégias vai utilizar para vencer os desafios colocados. Até mesmo em um jogo aparentemente linear e restritivo como Trauma Center, o jogador tem a opção de ser um cirurgião rápido ou um cirurgião habilidoso, usar o healing touch, pular algumas etapas do procedimento, etc. Jogos que são altamente restritivos seriam adventures como Myst, que não permitem que você saia uma linha dos scripts do jogo. Você deve jogar e fazer estritamente o que foi programado pelos desenvolvedores, a fim de fazer o jogo continuar.

Existem outros elementos comuns naqueles jogos, mas já temos material suficiente para uma análise prévia de personalidade com esses três pontos levantados.

Muito bem; quem é esse cara que gosta de jogos com essas características? De pronto já podemos concluir que é alguém que gosta de estar no controle das coisas, e não de ser levado pelo jogo. Como estou falando de mim, posso dizer que isso não é apenas uma preferência de estilo de jogo, mas algo que faz parte da minha personalidade. Não gosto de não saber o que está acontecendo, de ser jogado de pára-quedas em uma situação na qual eu não saiba o que fazer. Quando acontece algum problema no trabalho, por exemplo, eu preciso ser informado com todos os detalhes do que está rolando; eu quero saber quem são os envolvidos e que recursos eu tenho á disposição para resolver a situação. Eu sempre trabalhei dessa forma na minha vida profissional, da mesma forma como acontece o briefing da missão em Syphon Filter. E estou supondo que esse traço da minha personalidade me faz preferir esse jogo pelos mesmos motivos que eu atuo como atuo no meu trabalho.

Por outro lado, conheço pessoas que são especialistas em resolver situações bizarras sem nenhum recurso, fazendo gambiarras aqui e ali, e no fim tudo dá certo. Esses McGyvers são muito diferentes de mim. Lembrei agora de um amigo meu, que não sabe ler inglês, mas mesmo assim joga Metal Gear “por instinto”, jogando através de tentativa e erro. Ele morre pra caralho no jogo, mas uma hora chega na resposta certa e consegue avançar. Eu nunca conseguiria fazer isso, porque detesto morrer em jogo. Quando eu morro, considero que foi um erro meu, e não do jogo.

Tenho baixa tolerância a erros, e eles me irritam muito. Por isso evito jogos que envolvem muita tentativa e erro, como Touch Detective e Full Throttle. São jogos que nem sempre podem ser resolvidos pensando, e você precisa tentar várias coisas até descobrir o que precisa ser feito no cenário. Isso me irrita. Faz eu me sentir burro, e daí eu largo rapidamente do jogo. Não gosto de errar. Gosto de pensar antes e fazer certo já de cara.

Histórias e enredos. Sempre preferi jogos que você precisa ler, até mais do que jogar, como é o caso dos jogos da série Final Fantasy. Provavelmente isso se deve á minha ligação com os livros e com a escrita, que sempre foram fontes de gratificação para mim, e até já me renderam dinheiro. É evidente que eu também jogo coisas que não têm porra nenhuma de história, como Doom. Mas digamos que se for pra dar tiros em alguma coisa, prefiro que exista uma história interessante. Então sempre vou dar preferência a Silent Hill em detrimento de Quake. Se puder, escolho Silent Hill.

Flexibilidade no estilo de jogo. Um ponto MUITO importante para mim. Eu quero jogar como eu achar melhor, trocando de estratégia conforme a situação. Quero ter a opção de uma faca para um combate corpo-a-corpo, quero um rifle para matar um inimigo próximo, e quero um arco e flecha, para matar o cara que ainda não me viu. Me incomodam os jogos muito rígidos, onde você faz a mesma coisa do começo ao fim. Aqui fico pensando em alguns amigos que conseguiam passar MESES jogando Street Fighter, sempre com o Ken, e sempre dando a mesma seqüência de golpes, repetindo eternamente a mesma coisa e, aparentemente, se divertindo muito com isso. Ou minha mãe, que passa horas jogando Freecell no windows, tentando bater o score anterior. Alguma pessoas preferem regras rígidas e simples, que permitam a elas se concentrar no jogo. Eu não sou assim.

Como vocês podem ver, tudo depende da personalidade de cada um. E não se engane: sua personalidade, quem você é, como você vê o mundo, são coisas que se expressam nos jogos que você escolhe e no modo como você joga.

Diga-me quem és e te direi que merda tu jogas.

Eu falei muito de mim, porque sou a única pessoa sobre quem posso falar com certeza. Mas vamos alçar vôos mais altos e tentar expandir esse modelo de análise. Vamos pensar em outra pessoa agora, pra ver se você pegou corretamente a idéia de tudo que eu disse.

Pense no Théo. Considerando o que você já conhece dele pelo site, que tipo de jogo você acha que ele jogaria?

Acertou!

Pirataria nos games – Final.

Nerd-O-Matic sexta-feira, 19 de outubro de 2007 – 22 comentários

Sem mais delongas, vamos continuar a discussão do post anterior, fechando essa série de posts sobre pirataria.

Outro lado positivo da pirataria foi trazido pelo Hyperneogeo64:

Hyperneogeo64 disse:

Além disso existe outro ponto da pirataria : ACHAR COISAS RARAS

Aqui no brasil alguem vende Yaken Yuke Special ? Ou outros jogos negros e desconhecidos?

Essas coisas não são joguinhos da moda e tem muita coisa que vende pouco até no Japão. Se não fosse a pirataria, já teriam sumido do mapa. Outro exemplo são os discos de música; como exemplo vou citar a minha banda preferida: Malice Mizer. Aonde diabos vou comprar um CD original deles no Brasil? Moro numa cidade de 80mil habitantes e como na maioria do país nas lojas só tem “coisas” como sertanojos e rap porque tá na moda, mais uma vez a solução é a pirataria.

Se não fosse a “distribuição solidária”, feita em torrents, por exemplo, certas coisas nunca veriam a luz do dia. Lembro de um jogo do Playstation que nunca foi lançado, por ter sido considerado muito violento e perturbador pelos órgãos reguladores: Thrill Kill. Se não fosse a internet, nunca teríamos acesso ao jogo. E pensem em Manhunt 2, um jogo muito mais pop e mainstream, que quase não viu a luz do dia também. É um fato que a pirataria pode democratizar a informação. Como a Sandrine disse:

Sandrine disse:

A questão é que com a internet é possível conhecer bandas novas todo santo dia, baixar o cd completo, ter as letras, fotos, enfim, tudo. Daí a pessoa não vai mesmo ter interesse em comprar o cd original, na loja, bonitinho, com direito a reclamar se tiver arranhado, etc. E conteúdo exclusivo também já não faz muita gente comprar original, sempre dá pra ter acesso.

Depois de muita discussão, vão aparecendo algumas conclusões, principalmente entre os leitores que se deram ao trabalho de ler tudo que foi colocado, ao invés de simplesmente xingar um ponto ou outro isolado da argumentação.
Abaixo, o Rurquiza, de forma muito ponderada, fez o que eu considerei a melhor síntese do comportamento do brasileiro médio frente á pirataria:

Rurquiza disse:

Ok… As opiniões aqui são bem diversificadas mas dá para identificar duas vertentes:

1- Os caras que acham errado piratear;
2- Os caras que acham certo piratear porque o jogo original é caro.

Acho que o brasileiro típico não pertence inteiramente a nenhum dos dois grupos.

Ele acha errado piratear, mas ao mesmo tempo pirateia porque o jogo original é muito caro. Se está numa loja e vê um CD/DVD/JOGO que possa pagar, ele vai lá e compra. Se não pode pagar ele pensa duas vezes se aquilo vale a pena mesmo e faz a cópia pirata. É fácil dizer “quem não pode não tem” quando você é um dos que podem.

Esse foi um ponto importante, que eu não tinha pensado: é interessante incorporar na discussão da pirataria a questão social, onde o poder aquisitivo define quem manda no país.

Você ficaria puto se esse fosse o único vídeo-game que você pudesse ter.

Todos deveriam ter acesso ás necessidades básicas, e é complicado dizer “quem tem direito a quê”, quando na verdade todos deveriam ter direitos iguais. Depois o Capitão chega chutando a porta, e mostrando como a discussão é muito mais ampla:

Capitão Piratão disse:

Hm, o que seria DO CARALHO mesmo pra continuar a discussão seria voltar á idade da PEDRA. Quer dizer, questionar a própria idéia do ROUBO. A própria idéia de propriedade é algo completamente ANTI-NATURAL, se você parar pra pensar.

De fato. A idéia de propriedade sobre alguma coisa é uma convenção social, algo que é definido entre comuns, um contrato social que não é revisto com a freqüência que deveria. A idéia de propriedade ilimitada sobre bens é o que inclusive permite os abismos existentes entre pobres e ricos. Se é difícil legislar sobre propriedade material (dizer quem pode ser dono de quanto dinheiro, ou quantas casas, ou quantos carros), como é que se decide quem vai ser dono de uma idéia (como no caso das “licenças” dos games)? E se a idéia for de uso de toda a humanidade? Por que ninguém nunca patenteou a idéia de respirar, por exemplo? Obviamente porque é do interesse da humanidade que todos respirem. Seria um absurdo pagar royalties para respirar. Mas então como se decide qual tipo de idéia pode ser licenciada?

Fico pensando na quebra das patentes de remédios, por exemplo; o governo brasileiro conseguiu quebrar a patente de vários remédios para tratar os portadores de HIV, sem pagar royalties ás indústrias farmacêuticas. Isso não é pirataria?

“Ah, mas é diferente nesse caso. É pro bem da humanidade.”

Exato, agora engato o comentário do Flávio:

Flávio Croffi disse:

“Se não pode, não tenha.” Frase egoísta. É a mesma coisa de falar em comida. Se não pode comprar, não tenha. Lazer é uma necessidade humana. Os videogames hoje em dia proporcionam lazer seguro e saudável, desde que usado de forma certa. Então, porquê privar as pessoas disso?

Vejam que interessante. É possível argumentar o lazer como uma necessidade humana, portanto, tão importante como a saúde. Aliás, sem lazer o ser humano fica doente, portanto vídeo-games podem de fato ser vistos como um tipo de remédio. E aí? Quem tem direito sobre a idéia/patente dos jogos?

Abram a cabeça; a discussão segue adiante nos julgamentos pessoais de cada um de vocês.

Pirataria nos games. Passando a régua.

Nerd-O-Matic quinta-feira, 18 de outubro de 2007 – 6 comentários

Como prometido no post anterior, volto á carga sobre o assunto pirataria. Dessa vez tentando aprofundar um pouco mais a discussão, discutindo alguns argumentos espetaculares que apareceram nos comentários. Como eu disse no começo do primeiro post, a idéia era que ficássemos menos burros coletivamente, e fico feliz de ver que isso pôde ser realizado. Embora eu não tenha chegado a uma conclusão definitiva sobre o assunto, creio que li o suficiente para mudar parte das minhas opiniões e realmente dar alguns passos adiante na avaliação do fenômeno pirataria.

Gostaria de compartilhar isso com vocês. Portanto, vamos ver algumas coisas que rolaram nos comentários, tanto do Ato ou Efeito como do Gamehall. Eu não quis fazer uma coisa superficial, apenas repetindo os comentários dos leitores. Acho importante transformar isso em uma discussão mesmo. Sendo assim, sou obrigado a dividir o post em duas partes, devido ao tamanho do texto. Acho que seria pior cortar o texto ou eliminar comentários. Se é pra discutir, melhor discutir direito.

Tio Patinhas não quer que você utilize produtos piratas.

Uma das coisas mais legais de ter comentários nesse tipo de post, é que sempre surgem informações que a gente não tinha se dado conta:

Jonh B. God disse:

Do lado do consumidor, a pirataria PODE ser vista como o uso não remunerado, porque o que você compra NÃO É o jogo, e sim uma licença para usar ele. Logo, quando você usa ele sem pagar pela licença você ESTÍ usando ilegalmente.

Esse foi um esclarecimento interessante do John, que me fez pensar no seguinte:

Será que só eu acho esse negócio de pagar pela licença ESQUISITO PRA CACETE? Não é uma coisa totalmente fdp você comprar uma parada e não possuir ela, e ainda ter pouquíssimos direitos sobre a parte ínfima que você possui? Tipo, você vai lá, compra o jogo (ou a licença, como o John disse) e não pode fazer praticamente nada com o que você comprou, só jogar. Alguns softwares, como o Windows, nem permitem mais de uma ou duas instalações. Você não pode emprestar, não pode copiar, não pode reproduzir publicamente, não pode revender, não pode nem olhar torto, senão está infringindo a lei. E, se a gente está só comprando uma licença limitada e temporária, não deveria ser MUITO mais barato o preço dessa licença?

O que, evidentemente, levanta a questão de por que os jogos são tão caros. Já sabemos que a carga tributária ferra as empresas no Brasil, mas por que isso atingiria só a indústria de games? Alucard fez uma abordagem muito lúcida:

Alucard disse:

Se empresas como Sony, Nintendo e Microsoft não querem pirataria no Brasil, deviam investir mais aqui e esquecer um pouco Japão, Europa e EUA. Não apenas investir, mas tentar acordos com o governo brasileiro para abaixar os impostos.
Se Tec Toy e Playtronic conseguiram obter lucro aqui vendendo material original da Sega e Nintendo durante um tempo, porque hoje também não conseguiriam?

E logicamente, a demanda por games não diminui entre a população só porque não tem ninguém no país para distribuir oficialmente o que nós queremos jogar. É ai que a pirataria entra:

roger561 disse:

Até o dia em que esses impostos ridículos forem reduzidos, quanto a usar um produto pirata no seu aparelho, eu acho até certo enquanto você não revenda. Para uso próprio você não chega a “ferrar tanto com a empresa”. Mas quando tu começa a reproduzir pra lucrar, aí sim você esta infringindo uma regra de comércio, você esta ganhando sobre o que a empresa poderia estar lucrando.

Um argumento coerente do roger, que deixa clara a diferença entre o camelô e o usuário particular, aquele que baixa e usa em casa. Sobre esse assunto, a Letícia colocou um ponto interessante para discutir a questão de pirataria como “crime”, onde alguém obtém lucro financeiro em cima do trabalho alheio:

Letícia disse:

Agora, no caso da internet… quem lucra com downloads feitos? Se tem alguém lucrando, me fala que eu não sei… A não ser quem baixa né, o público, para quem as coisas são feitas.

E veja a diferença entre os dois tipos de “lucro”. O cara que baixa o arquivo não “lucra” nada, ele não ganha dinheiro dos outros para isso. Ele apenas deixa de gastar o próprio dinheiro; isso não é “lucro”, em termos econômicos. Quem “lucra” é o camelô que vende o produto pirata na rua. Tornando a discussão ainda mais extrema:

Bhuda disse:

Quem nunca gravou um filme da tv com o videocassete? Isso é também é roubo? Então por que fazem videocassetes?

A mesma lógica que eu aplico ao uso das fitas cassetes, no post anterior. Elas não acabaram com a indústria fonográfica, e nem se pode culpar os gravadores de fitas (assim como não se pode culpar os gravadores de cd’s e dvd’s) pelas perdas da indústria de software. Aliás, sobre as “perdas” sofridas pela indústria:

Vishedo disse:

O que eu pergunto é: revistas como EGM e Super Dicas Playstation não aceitam pirataria, falam mal do que é a pirataria, que prejudica o mercado etc.

É óBVIO que prejudica o mercado.

Mas que mercado? Existe isso no Brasil ?

Uma pergunta relevante essa do Vishedo; se a Sony não considera o Brasil como mercado para games, me digam O QUÊ eles estão perdendo quando a gente usa produtos piratas aqui? Suponha que você é uma distribuidora de qualquer produto: como você pode perder alguma coisa em um mercado que não existe para você? Como você pode perder algo em um mercado onde você não vende nada? De certa forma, não é possível dizer que a Sony GANHA com a pirataria no Brasil? Como a gente conheceria o que a empresa faz no ramo de games? Importando tudo?

E mesmo pensando no caso da Nintendo, que tem representação no Brasil, será que ela é tão prejudicada assim pela pirataria?

roger561 disse:

Agora me diz: por que vende tanto NINTENDO DS aqui no BRASIL? Justamente porque existe a possibilidade de se colocar um FLASHCARD nele que permite você jogar games piratas. Agora exclui os FLASHCARDs do MERCADO e vê se vai vender a mesma quantia de NINTENDO DS que se vende hoje? Entende, perde-se de um lado mas ganha-se de outro.

Para mim isso faz sentido. Gostaria de ouvir uma contra-argumentação a respeito, pois me parece a mesma lógica que derrubou a argumentação de que as fitas cassetes acabariam com as bandas e gravadoras. Náo sei se vocês sabem, mas a Nintendo conseguiu a PROEZA de finalmente ganhar dinheiro vendendo os consoles (Wii e Nintendo DS), coisa que não acontece com Sony e Microsoft, que efetivamente perdem dinheiro a cada unidade produzida, pois vendem abaixo do preço de custo. Se a Nintendo lucra também na venda das unidades, não é certo dizer que a pirataria dos games ajuda a Nintendo a ganhar mais?

No próximo post: mais comentários e o fim da discussão.

Pirataria nos games. Fugir da briga é para os fracos.

Nerd-O-Matic quinta-feira, 11 de outubro de 2007 – 13 comentários

A coluna da semana anterior saiu simultaneamente no Ato ou Efeito e no Gamehall, e pude experimentar vários tipos diferentes de recepção ao texto que foi apresentado.

Gostaria de agradecer a todos que tiveram a paciência e disposição de continuar a discussão nos comentários, concordando, discordando e argumentando de forma coerente. Queria lembrá-los de que NÃO estou escrevendo um artigo científico sobre o assunto e nem sendo pago para agradar a segmentos específicos ou a qualquer tipo de pessoa. Aos ignóbeis que simplesmente não gostaram do que leram ou que se sentiram pessoalmente ofendidos, deixo as palavras do mestre Alborghetti:

“Não tenho o rabo preso com vagabundo nenhum nesse estado e nem nesse país. Quem gostou, gostou. Quem não gostou que se dane; vá para o diabo que te carregue”.

Quero manter esse texto com um tamanho que não desestimule a leitura, portanto vou me ater a apenas UMA questão. A quem ainda acompanha essa discussão com genuíno interesse e um mínimo de tolerância á opinião alheia, gostaria de discutir a figura abaixo:

“Gravações caseiras de fitas estão matando a música. (E são ilegais)”.

Muitos de vocês podem ser novos demais para lembrar, mas até a década de 90 as pessoas realmente usavam fitas cassete. E quando as fitas virgens foram colocadas á disposição do público pela primeira vez, em conjunto com os gravadores de fitas, a indústria fonográfica decretou que seria a morte dos LPs e da indústria musical como um todo. Afinal, você emprestava o LP de um amigo, gravava em uma fita e não precisava comprar o LP. Lembra vocês de alguma coisa que acontece hoje em dia?

Pois é, a música comercial continua por aí. E posso estar errado, mas acho que o número de bandas também não diminuiu e as gravadoras continuam ganhando dinheiro. A indústria musical não me parece exatamente falida, apesar de toda a pirataria e das fitas virgens.

Vejam, não estou dizendo que quem copiava os LP`s em cassetes estava certo ou errado. Como falei em algum dos comentários, estou evitando fazer julgamentos já que eu mesmo ainda não entendo a questão de forma completa. Mas me parece bastante evidente que era errado dizer que quem gravava suas fitinhas piratas ia acabar com a indústria e com a música dos grandes artistas. O tempo provou isso, não é questão de opinião ou do que “eu acho”.

Mas isso é música. Voltando á nossa discussão sobre softwares, vamos pensar em quem seria uma das maiores prejudicadas com a pirataria, para verificar o argumento de que a pirataria acaba com a indústria de softwares (jogos são softwares, não esqueçam). Será que existe algum software mais pirateado do que o Windows no planeta inteiro? Podemos pelo menos concordar que o sistema operacional da Microsoft é um dos softwares mais pirateados do mundo? Creio que concordamos. Agora me digam: ao longo de mais de duas décadas de pirataria do Windows (o primeiro Windows foi lançado em 1985), o Windows acabou? A Microsoft faliu? A Microsoft está mal das pernas? Ela parou de lançar novos produtos por causa da pirataria e dos salafrários que copiavam ao invés de comprar?

Acho que não.

Essa é uma das conclusões a que eu cheguei, pensando e escrevendo esse texto e o da semana passada: usar cópias não oficiais de jogos pode até ser errado por motivos éticos e morais, mas definitivamente não acaba com a indústria em questão. Parece um contra-senso, não parece? Mas os dados históricos não mentem, nem no caso da indústria fonográfica e nem no caso da Microsoft. E acredito com todas as forças que isso se estende á indústria dos games.

Descobri que isso acontece por um motivo muito simples: Quem compra os produtos piratas não tem dinheiro para comprar o original e, portanto, não compraria o original de qualquer forma.

Vamos desenvolver isso.

Se você tem grana suficiente, você vai querer o pacote completo, principalmente porque isso significa garantia e direitos do consumidor, no caso dos produtos oficiais. Você paga não só para ter o produto original, com manual, bonito, na caixinha, mas porque existe de fato um grande valor agregado a este produto. Ele faz MAIS por você do que o produto pirata. Nos casos dos jogos isso significa também poder jogar online, acesso ás áreas restritas de sites do desenvolvedor, patches, upgrades, etc.

Porém, se você não tem os recursos para comprar o original, você simplesmente não compra. Como você pode ser culpado por não comprar alguma coisa que você não compraria de qualquer jeito, por não ter recursos para tal? É como dizer que a fábrica da Ferrari vai falir porque pouca gente compra Ferrari, preferindo um genérico em seu lugar, como um Uno Mille. As pessoas compram Uno Mille porque não têm recursos para uma Ferrari. As pessoas compram produtos piratas porque não têm recursos para comprar o original. Portanto, de qualquer forma, não seriam compradores do produto e não alimentariam a indústria em questão. Quem compra o produto pirata não é público-alvo da indústria dos originais, porque é simplesmente pobre demais para fazer parte dessa indústria.

Uma das argumentações que me parecem comuns contra o que escrevi aí em cima, é aquela que diz: “se o cara tem a grana pra comprar um produto pirata, então ele deveria deixar de comprar 10 produtos piratas para comprar um produto original”. Mas isso é falacioso, porque o desejo humano não funciona desse jeito. Ninguém quer o mínimo possível. Todo mundo quer sempre o máximo possível de benefício de qualquer coisa que faça. Pode chamar de lei de Gérson, desvio de caráter, natureza humana ou o que preferir, mas simplesmente é a forma como o indivíduo funciona. Como eu falei antes, estou analisando os fatos, e não a moralidade das ações humanas.

Outra contra-argumentação que vejo surgir nesse momento é de que se o cara quer alguma coisa então ele deveria “dar um jeito”, “economizar”, “trabalhar”, para poder comprar o original do produto que quer, ao invés de gastar com o produto pirata. Mas junte o desejo natural do cara com a indústria da propaganda, que desperta e exacerba o desejo sobre coisas que muitas vezes ele nem sabia que existia ou queria. Claro que não dá pra botar a culpa na propaganda por coisas que esse cara faz errado. Mas não é por esse mesmo motivo que um jovem pobre te assalta no semáforo e gasta toda a grana em um tênis Nike, ao invés de comprar comida? Pelo menos ele alimentou a indústria dos tênis originais, não é? Ele queria muito o tênis e “deu um jeito” de conseguir comprar o original. Um cidadão exemplar.

Agora você tá achando que era melhor ele ter comprado o tênis pirata né?

Tá bom, eu confesso que estou sendo deliberadamente manipulador e distorcendo a argumentação. Mas não importa se eu estou certo ou errado. Eu nem quero estar certo ou errado, como falei desde o começo. Eu só quero que vocês percebam que questão não é tão simples a ponto de se dizer “pirataria é roubo, e roubo é sempre errado”; isso é apenas um julgamento moral, cristão, que você recebeu a fim de manter a ordem social. Dizer que “roubo é errado” não serve para entender a questão como um todo. É por causa desse tipo de visão estreita que a questão não se resolve.

Novamente me estendo demais sobre o assunto, e não gosto de fazer post enormes; eles ficam muito chatos e as pessoas começam a comentar sem ler.

Alguns comentários e argumentos interessantíssimos surgiram nos comentários da coluna anterior. Alguns deles são tão bons e melhores que os meus, que eu me sinto na obrigação de reconhecê-los em um próximo post. Portanto, se você quer comentar, se esforce para não fazer ataques pessoais, e sim para trazer alguma contribuição coerente á discussão, ok?

Pirataria nos games. Você sabe o que é isso?

Nerd-O-Matic quinta-feira, 04 de outubro de 2007 – 63 comentários

Normalmente eu só gosto de criar polêmica quando tenho certeza sobre a minha opinião a respeito do assunto em pauta, para poder defender a minha posição até o outro indivíduo ficar de saco cheio e admitir que eu estou certo.

Porém, no caso da pirataria digital eu não consigo chegar a uma opinião final sobre o assunto. Se eu não consigo fazer isso, devo admitir que a coisa toda simplesmente é complexa demais, muito mais complexa do que a minha capacidade de chegar a uma conclusão sobre ela. Ou admito que não tem solução ou fico tentando morder o próprio rabo, feito cachorro louco.

Supondo que vocês fiquem tão confusos quanto eu, então peço que vocês também suspendam seus julgamentos prévios, e vamos tentar pensar no quadro todo. Quem sabe a gente se torna menos burro coletivamente, e consegue concluir coisas mais inteligentes a longo prazo.

Vou compartilhar com vocês algumas coisas que me incomodam sobre o assunto, e que me impedem de chegar a uma satisfatória resposta sobre a pergunta:

Usar cópias não-oficiais de jogos é errado?

É fácil dizer que é errado. O maior argumento é de que pirataria é roubo, e roubo sempre é errado.

Não tenho dúvidas de que o magrão que vende cd pirata e ganha grana com isso está cometendo um crime. Um não, vários. Além de vender um produto ruim e sem nenhuma garantia, ainda prejudica quem trabalha com a venda legal do produto, que não pode competir com esse cara; esse cara também não paga nenhum tipo de imposto, não contribui para o crescimento do país, etc. Nesse caso acho que todos concordamos que está sendo praticado algo “errado”. Mas essa não é a pergunta que eu fiz. Eu perguntei sobre o USO de cópias não-oficiais, e não sobre sua reprodução e venda.

Ok. Agora vamos ás partes problemáticas:

Se eu baixo um jogo da internet, gravo em casa e jogo só no meu console, isso é roubo? E se for roubo, é roubo do quê? Não é como se você chegasse em uma loja e escondesse o dvd do jogo na jaqueta, saindo sem pagar. Nesse caso você teria de fato roubado a loja, que comprou e pagou pelo jogo para poder ter lucro revendendo. Você roubou algo palpável, material. Se te pegarem na saída, você vai ter que devolver o dvd.

Mas no caso da internet, você roubou o quê? Um monte de bytes? Como você faz pra devolver? Os fabricantes nem sabem que esses bytes estavam lá, sendo tranferidos para o seu computador. Se você quiser devolver esses bytes pra eles (suponha que você coloque os bytes em um dvd e leve para os fabricantes) eles vão mandar você enfiar o dvd no rabo. Materialmente falando não é roubo. Nenhum patrimônio físico foi subtraído de ninguém.

Aí passamos para a esfera metafísica da parada. A argumentação é de que você roubou uma propriedade intelectual. Que, de alguma forma, naquele monte de bytes existe uma idéia original de alguém, que merece ser reembolsado por sua idéia original a cada vez que alguém resolve jogar aquele jogo. Mas é meio complicado, porque você não quer exatamente a IDÉIA que o cara teve. Não é como se você fosse pegar a idéia do cara e criar um jogo igual pra vender. Você só quer jogar. Você não está roubando a idéia, enfiando ela em um saco plástico e enterrando no quintal. Quando você joga, você só usa a idéia por um tempo e depois larga ela.

Ok, então você deve pagar pelo “empréstimo temporário de idéia materializada na forma de um jogo”. Está começando a ficar meio ridículo, mas tudo bem. Vamos supor que seja certo você pagar a alguém pelo uso temporário de uma idéia. Mas espera. Olha quantos jogos iguais existem no mercado hoje em dia. Pense em todos os clones de Doom e Starcraft que você já jogou. Pior ainda, será que a Blizzard (Starcraft) pagou á Westwood Studios por ter feito um jogo que era claramente inspirado em Dune II? E todos os clones que vieram depois? Todos pagaram retroativamente pelo uso da idéia “jogo de estratégia em tempo real”?

Lógico que não pagaram. É só um gênero, um tipo de jogo. Além do mais os jogos são DIFERENTES uns dos outros, mesmo que seja só uma diferença no design das unidades de combate.

Tá, então se for uma coisa um pouco diferente eu não preciso pagar pela idéia? Então se eu baixar um jogo e trocar o nome dele por algo aleatório, ele já virou uma coisa diferente? Não? Quanto você precisa mudar pra virar outro jogo e não pagar pela idéia? E se eu não entender a idéia do cara que fez o jogo? Suponha que eu compre o jogo, mas ele seja muito complexo e eu não gostei. Eu não usei a idéia original do cara, porque eu sou burro e não entendi o jogo. Eu deveria pagar por uma idéia que eu nem mesmo sei qual é?

As coisas estão saindo de controle nessa argumentação não é? É exatamente o que eu quero que você perceba: a complexidade e bizarrice da questão. Vamos tentar voltar ao mundo real. Vamos pensar em uma mídia parecida com os jogos e que também sofrem do problema de “roubo” de propriedade intelectual. Pense nos livros. A rigor, a argumentação é a mesma: um monte de idéias reunidas em um só lugar (um livro) e se você quiser ter acesso ás idéias, você precisa comprar o livro. Inclusive, você pode ser processado se baixar Harry Potter da internet, exatamente como acontece com os jogos.

Mas apesar da propaganda anti-pirataria, não é a mesma coisa. E nem tão simples assim. Pense nas bibliotecas públicas. Porque você pode ler Harry Potter de graça em uma biblioteca pública, mas não pode ler de graça baixando da internet? Qual é a diferença? Por que na biblioteca pode, mas na internet não? Existe alguma boa razão para isso ou é só uma decisão arbitrária? Vão dizer que alguém pagou pelo livro que está na biblioteca, mesmo que ele seja lido por centenas de pessoas depois disso. Ok. Então precisamos de praças públicas de jogo, pra quem não tem dinheiro poder finalmente jogar? O governo compra algumas cópias de HALO 3, instala em uns computadores aí, se comprometendo a não fazer cópias, e todo mundo vai poder jogar HALO 3 de graça?

“Ah, mas livro é cultura. Vídeo-game não”. Ah tá. O livro de Harry Potter é cultura mas o jogo de Harry Potter não é? Como assim? Quem define isso? Age of Empires não é cultura? Eu conheço um monte de professores que usam o jogo para ensinar História.

Como eu falei no começo, eu queria levantar algumas perguntas, sem necessariamente chegar a alguma resposta definitiva. Esse post já ta enorme, então dependendo do interesse de vocês, a gente pode continuar na próxima semana.

Pensando bem, vocês que se explodam, vou escrever mais de qualquer jeito.

Produtora independente do Brasil faz filmes sobre Grand Theft Auto

Nerd-O-Matic quinta-feira, 13 de setembro de 2007 – 3 comentários

A El Burro é uma produtora independente que ficou conhecida no mundo online depois da produção de um curta-metragem chamado “GTA contra Scarface: Tommy Vercetti vs Tony Montana” que conta a história de uma treta durante uma negociata de drogras nos EUA, onde alguma coisa dá errado e Tommy Vercetti é quase morto pela policia. Com sede de vingança vai atrás do manda-chuva de Miami, Tony Montana, que defende seu império com unhas, dentes, sangue e muito chumbo grosso.

Depois de diversas visualizações do filme no Youtube, a El Burro começa a trabalhar em uma nova produção que contará a história da famíglia “Leone” de famoso game GTA San Andreas.

Sinopse: Na primavera de 1994 a família Leone domina as ruas de Portland Liberty City, Toni Cipriani está de volta à cidade após passar 5 anos na cadeia, e se surpreende ao ver ás novas caras na família Leone. Assim como seu pai, Antonio Cipriani, Toni é um mafioso a moda antiga e não confia em estranhos na família, mas os problemas da família Leone começam quando Sony Forelli resolve voltar de Vicy City e tomar o poder nas ruas de Portland, começando por eliminar o chefão da família Leone, mas não será tão fácil pois Toni Cipriani está disposto a honrar o verdadeiro juramento da máfia e defender sua família custe o que custar, uma historia de traições, amor e muita violência. Conheçam a verdadeira historia da máfia de Liberty City.

Fiquem ligados dia 30 de setembro para a grande estréia!

Leo prosopopeio Cardoso – prosopopeio@hotmail.com

Manhunt 2 – Pelo menos vai sair.

Nerd-O-Matic sábado, 25 de agosto de 2007 – 4 comentários

Vocês lembram daquele post sobre Manhunt 2, né? Onde eu abordava a decisão absolutamente ridícula e absurda dos orgãos reguladores de praticar CENSURA PRÉVIA contra Manhunt 2.

 

Manhunt: Construindo o caráter de nossas crianças.

Não importa se o jogo é ruim, chato, violento, repetitivo, sanguinário, sem sentido, feio, bobo ao quadrado então você é bobo ao infinito. O que interessa é que nenhum jogo pode sofrer censura prévia, mano. VOCÊ, jogador, é quem tem que decidir o que é bom pra você ou não. NINGUÉM pode decidir no seu lugar, e censura prévia é uma forma de impedir que você decida.

Enfim, seguindo com os mais novos acontecimentos, então.

A Rockstar esperneou em alguns órgãos reguladores, defendeu o joguim na imprensa, ganhou visibilidade e publicidade e, finalmente, decidiu dar uma aliviada nas partes mais nervosas de Manhunt 2, pra ver se as senhoras virgens finalmente aprovavam o conteúdo do jogo. Aí já sabem né? O jogo que era assim:

Vai ficar assim:

Lógico que isso é apenas a minha previsão. Mas deve ser mais ou menos por aí que as modificações seguiram. Manhunt 2 vai sair com a classificação M (Mature), o que significa que estará disponível no PSP, PS2 e Wii, como previsto originalmente. Lançamento previsto para fim de Outubro.

Bando de TANGA. Esse tipo de coisa me faz sentir vergonha de ser jogador.

Fonte: aqui.

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