Um Lugar Bem Longe Daqui (Where the Crawdads Sing)

Cinema segunda-feira, 13 de julho de 2026

No mundo das adaptações cinematográficas, Um Lugar Bem Longe Daqui é um daqueles filmes que representam muito bem o livro adaptado. Já revi e reli as duas produções algumas vezes e vou fazer uma análise bastante sincera sobre elas. E nem adianta torcer o nariz, o filme/livro tem, sim, bastante romance, mas são, acima de tudo, uma reflexão profunda acerca de um sentimento bastante humano: a solidão.

Preciso contextualizar que o livro, lançado em 2018, foi um absoluto fenômeno, principalmente depois que a atriz Reese Witherspoon o divulgou através de seu Clube do Livro e, posteriormente, atuou como produtora executiva do filme lançado em 2022. A cantora mais básica do mundo Taylor Swift também se rendeu à história e produziu espontaneamente uma música exclusiva para o filme, Carolina (belíssima, aliás!), indicada ao Grammy de 2023.

O livro de Delia Owens conta a história de Kya Clark, uma menina que após ser abandonada por toda a sua família, encontra nos brejos da Carolina do Norte um refúgio e uma forma única de compreender o mundo. Enquanto cresce em meio à natureza, ela enfrenta o isolamento, o preconceito e as descobertas da vida adulta. Quando um acontecimento inesperado abala a pequena cidade onde vive, sua história passa a ser vista sob uma nova perspectiva.

Analisar Um Lugar Bem Longe Daqui é entender que Kya é um ser humano vítima de abandono – as cenas e contextos dessas partidas são de partir o coração. As inevitáveis consequências disso embasam todas suas ações ao longo da história. Seu refúgio sempre foi a natureza e de maneira muito purista, ela aprendeu como sobreviver e se proteger. No filme, a fotografia é uma grande aliada em cenas externas e ambienta super bem. Porém, é preciso dizer que a autora do livro é zoóloga e o detalhamento é infinitamente superior, o que enriquece demais a experiência e o entendimento da ligação da protagonista com o local onde vive. Não à toa, todos da cidade a chamam pelo apelido de “a menina do brejo”, marginalizando e tornando-a uma entidade quase mística, da fictícia cidade de Barkley Cove.

No filme, Kya é interpretada pela carismática atriz Daisy Edgar-Jones, um baita acerto! Fisicamente Daisy se assemelha com as características descritivas de Kya, mas a atriz consegue, principalmente, transmitir algumas emoções importantes para a história como a ansiedade, tristeza, decepção e descolamento da protagonista da realidade em alguns momentos. Outros nomes, como David Strathairn (na história advogado de Kya) e Garret Dillahunt (pai da menina), estão muitíssimo bem e não deixam a nota da obra cair. Mas, acima de todos, pra mim, está a pequena atriz Jojo Regina. Esse é seu longa de estreia e ela arrebenta como Kya criança. Sinto até que essa fase da vida da personagem poderia ter sido muito mais explorada, pois é, de fato, a passagem mais emocionante tanto no filme, quanto no livro.

Gosto também da participação dos personagens de Mabel (Michael Hyatt) e Pulinho (Sterling Macer Jr.), mas no livro essa relação é ainda melhor explorada. O casal dono da venda local tem papel fundamental na sobrevivência de Kya no brejo e até o final participam da história de maneira relevante. Um dos grandes temas é justamente o preconceito atrelado à protagonista e o casal também vive às margens da sociedade, pois são pessoas negras, e esse elo é apenas o início de uma relação de caridade e amor. Interpreto também que Mabel e Pulinho são o coração da crítica social levantada por Delia Owens em sua obra: enquanto ninguém quis ajudar, os que também sofrem estenderam a mão.

Um ponto interessante é que na adaptação para o cinema é dado maior enfoque à investigação policial e aos romances. Isso não me desagrada, pensando que se tratam de ritmos distintos. Enquanto no livro nós conseguimos participar mais ativamente do que se passa na cabeça dos personagens; em um filme, entendo que seja preciso segurar a audiência com mais suspense e cenas de amor. É feita, inclusive, uma pequena mudança no enredo sobre um certo gorro de lã vermelho e que funciona muito bem no longa. Aprovado!

Gosto também da forma que o filme escolhe contar o final, fazendo pequenos ajustes de narrativa, mas chegando ao mesmo lugar. Ele nos poupa de uma parte do livro que, particularmente, achei bem cansativa: os milhares de poemas de Amanda Hamilton. A conclusão, no entanto, não é prejudicada e eu gosto muito como ela sintetiza todos os detalhes narrados, dando sentido a cada peça do quebra-cabeça. Tudo estava lá, desde sempre, só precisávamos enxergar.

Pra mim, nada supera a densidade narrativa do livro ao relatar a dor da protagonista ao ser deixada, uma vez após a outra, por todos aqueles em quem ousou confiar. É uma obra de ritmo um tanto lento, mas muito sensível. A versão para o cinema não é tão introspectiva e, por isso mesmo, mais dinâmica, porém, as duas têm o seu valor e refletem maneiras diferentes de contar a mesma história. No fim, não importa por onde você comece, terá sempre um brejo inteiro esperando a sua visita!

Um Lugar Bem Longe Daqui

Where the Crawdads Sing (125 minutos – Drama/Suspense)
Lançamento: EUA, 2022
Direção: Olivia Newman
Roteiro: Delia Owens, Lucy Alibar.
Elenco: Daisy Edgar-Jones, Taylor John Smith, Harris Dickinson.

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