Pachinko (Min Jin Lee)

Há alguns anos fundei um Clube do Livro junto com uma amiga. A ideia inicial era apenas (re)ler As Brumas de Avalon – de longe minha série de livros preferida. Então quando o Clube se expandiu e eu trouxe a ideia de ler o livro Pachinko, eu sabia que as chances de eu gostar da leitura eram altas. E isso porque as duas histórias têm uma característica que eu amo: romance multigeracional. Adoro demais quando acompanho os desdobramentos familiares através dos anos e os impactos/consequências das decisões dos personagens. A obra foi tão bem sucedida que virou uma excelente série pela Apple TV (as imagens que ilustram o texto são dela), ainda na 2ª temporada (são previstas quatro). Pachinko, não à toa, foi o livro preferido de 2024 do nosso pequeno Clube e eu não poderia deixar de indicar essa obra-prima aqui pra vocês!
Mas para compreender o enredo é preciso uma contextualização histórica: em 1910 o Japão anexou oficialmente a Coreia ao seu território e a partir dessa data a Coreia não era mais um Estado independente. Essa colonização, absurdamente violenta de todos os pontos de vista – material, cultural e econômica –, resultou numa importante crise, forçando milhares de coreanos a migrarem para o Japão em busca de melhores condições. O domínio japonês só se extinguiu após o fim da Segunda Guerra Mundial, e o livro de Min Jin Lee lançado em 2017 é justamente ambientado nesse período histórico, revelando a chocante (e quase desconhecida) jornada do povo coreano.
Minha ignorância sobre as raízes da relação Japão-Coreia fez com que a história brilhasse ainda mais aos meus olhos. Me senti como se estivesse descobrindo um verdadeiro tesouro. Esse pano de fundo nos faz compreender o mundo onde os personagens nascem e crescem e como isso interage com as particularidades de cada um. Acho muito inspirada a forma como a autora alinhava as tragédias pessoais da família com os movimentos históricos e como a trama vai se tornando mais e mais atual e globalizada.
O visual da série é deslumbrante e você pode conferir a qualidade assistindo o trailer no final do texto.Nas primeiras páginas somos apresentados a Sunja, uma pobre adolescente coreana, vivendo na Coreia nos anos 1910, e que se envolve com um homem muito mais velho, rico e poderoso. A menina acaba grávida, o que, por si só, já era bastante escandaloso. Porém, o homem – Koh Hansu – revela que é casado no Japão e faz uma oferta a Sunja: mantê-la como sua amante, sustentando-a (e a toda a sua família) confortavelmente. Muito ofendida com a proposta, ela nega veementemente e decide ter seu filho longe de Hansu, iniciando assim uma sucessão de acontecimentos advindos dessa decisão.
Um dos primeiros desdobramentos é o casamento de Sunja com o pastor cristão Isak Baek. A união feita às pressas, por conta da gravidez, é a mola propulsora para que Sunja vá para o Japão. Lá, a personagem começa de fato a conhecer o mundo, a crescer. Ali também somos apresentados à brutal realidade de preconceito vivida pelos imigrantes coreanos. No Japão da década de 1910, a população coreana era empurrada a viver nas regiões periféricas, em extrema pobreza, trabalhando em subempregos, ridicularizados e tendo toda a sua cultura inferiorizada. As descrições desse cotidiano são riquíssimas e podemos sentir a dor dessa família imigrante lutando apenas por sobrevivência.
Mozasu, melhor pessoa!A xenofobia vai acompanhar todas as gerações futuras de Sunja e, embora em alguns momentos a narrativa se afaste da protagonista e dê mais foco a diversos personagens, vamos de mãos dadas com ela até sua velhice. Um grande destaque dessa mulher é seu senso de dignidade e justiça. Sunja é perseguida pelo “erro” da juventude, mas, à sua maneira, tenta sempre fazer o que acha ser o correto.
Hansu, por sua vez, é talvez o grande vilão. Um vilão com alma em alguns momentos, devo admitir. Ou apenas um homem que aproveitou as oportunidades da vida. Eu o enxergo como um sobrevivente (não podemos esquecer que ele é também coreano) que aprendeu sobre a maldade do mundo e quais caminhos trilhar para o sucesso, não importando o quão imorais ou ilegais fossem os atalhos. Ainda que suas decisões sejam muito questionáveis, Hansu zela pela vida de Sunja e de seus filhos e mostra uma leitura pragmática, quase pessimista, de mundo.
Já os filhos de Sunja, Noa e Mozasu (esse, meu personagem favorito), são opostos perfeitos que exemplificam como o ambiente japonês hostil afetou de formas diferentes esses dois seres. Noa tem vergonha de suas origens, sofre com o estigma coreano e tenta se incorporar entre os japoneses. Mozasu, por outro lado, abraça sua origem marginalizada e alcança sucesso com o que dispunha: as casas de jogos com máquinas de Pachinko – apesar do Japão consumir a cultura desses salões, os trabalhadores da área eram vistos com desprezo. A diferença proposta pelos personagens, entre “ser aceito” e entender que “nunca seremos aceitos”, é mais um grande trunfo da obra.
Outro personagem importante é Solomon, filho de Mozasu, neto de Sunja. Ele representa a modernidade, os anos 80, o coreano que foi para o mundo tentar o sucesso nos Estados Unidos. Sua bagagem familiar o acompanha e seus dramas pessoais oferecem mais um ponto de vista atravessado por esse não pertencer a lugar algum. O personagem ganha um desfecho bastante reflexivo e na série Solomon tem ainda mais destaque do que no livro.
A autora Min Jin Lee, coreana crescida em Nova York, foi muito perspicaz ao contar a história dos “zainichi”, pessoas de origem coreana que mesmo nascidas no Japão nunca foram consideradas inteiramente japonesas. Essa fragmentação de gerações continua até hoje refletindo na construção da identidade de todo um povo. As máquinas de Pachinko mencionadas em sua história são, na prática, jogos de pinball associados a jogos de azar, ou seja, as bolinhas tentam subir e atingir determinadas áreas, mas ricocheteiam e acabam batendo em estruturas até mesmo invisíveis, sendo necessária sorte para avançar num sistema já pré-desenhado. A aposta é apenas um artifício utilizado para uma profunda crítica social de um sistema avassalador, capitalista, que subjugou gerações de coreanos dando a eles falsas esperanças de plenitude. Ao final, o livro parece sussurrar: “a vitória pode até vir, mas não se esqueça que você ainda estará preso dentro das paredes de um grande salão de Pachinko”.
Pachinko

Ano de Edição: 2017
Autor: Min Jin Lee
Número de Páginas: 528
Editora: Intrínseca
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sexta-feira, 29 de maio de 2026 
