Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard)

Bogart é TANGA! sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Antes de mais nada, vocês devem ter acompanhado todo o movimento e falatório ao redor do filme O Artista até alguns meses atrás. Foi durante esse período (E logo após o mesmo levar o Oscar de Melhor Filme do ano) que me senti na obrigação de assisti-lo. Fui muito animada pro cinema, num dia de chuva torrencial e obviamente, sozinha. Ao final, senti que o filme não correspondeu as minhas expectativas e eu saí meio broxada da sala. Não que ele não fosse bom, não é isso, mas ele me deu uma sensação chata do tipo “eu já vi isso antes”. Talvez eu não tenha compreendido direito o conceito de inovador que ele vinha trazendo crítica após crítica positiva que eu lia por aí. Na minha concepção, a única face inovadora foi resgatar o cinema mudo na era do 3D (O que por si só já é um grande feito, vamos admitir), mas a história é mais batida que bife da minha vó (Um grande astro que perde o prestígio, cai em depressão, se apaixona e junto com a amada tem uma ideia genial para brilhar novamente). Teve momentos que a homenagem ao cinema chegou a ser cópia descarada de Cantando Na Chuva (Um dos meus filmes favoritos), com direito a peruca e bigodes iguais aos de Don Lockwood.

Pois bem, foi discutindo exatamente isso que acabei ganhando o DVD do filme Crepúsculo dos Deuses e aí sim, todo o brilho de O Artista caiu por terra. Essa obra prima do cinema também conta a história de uma estrela ofuscada, perdida como tantas outras na vala que se abriu quando ocorreu a transição entre o cinema mudo e o falado. Mas aqui muitos detalhes fazem a diferença e elevam a qualidade em todos os aspectos. Vale mencionar também que o longa está em 3º lugar no Top 100 aqui do Bacon, reafirmando toda a genialidade da produção.

A história se passa em Hollywood, no auge do cinema falado. As cenas iniciais nos revelam um assassinato na casa da grande ex-estrela do cinema Norma Desmond. O narrador então, volta no tempo e começa a contar a vida de Joe Gillis, um roteirista desempregado. Num grande mal entendido, Joe acaba cruzando com Norma e decide trabalhar para ela, revisando um péssimo roteiro que a senhora de meia idade tinha criado. Com o passar do tempo, no entanto, ele acaba sendo amante da mulher, gigolô dos brabos, e conhece profundamente as emoções de sua patroa. E é nessa densidade de sentimentos de Norma que reside o centro da história, a revelação de uma mulher doente, carente da atenção e fama de outrora.

É difícil começar a explicar a magnitude da obra. Talvez pelo próprio nome da rua onde fica a mansão da estrela (E que dá nome ao filme), Sunset Boulevard. Sunset em inglês significa pôr-do-sol, crepúsculo, a saída de cena do sol. Nada mais apropriado. É impossível também não ficar embasbacado com a cena do assassinato inicial, onde chegam os peritos para avaliarem o local. As imagens são de dentro da água, como se observássemos o corpo do fundo da piscina. O melhor é assistir aos extras do DVD (Ótimos) que explicam justamente como a cena foi feita, numa época em que não existiam tecnologias e muito menos equipamento especial para mergulho. Existem ainda, dentro da história, diversos momentos onde acompanhamos o interior dos estúdios, a prática da sétima arte.

Mas, para mim, além de possuir uma grande competência nos aspectos técnicos, a direção e atuações são o que mais elevam o longa. O diretor Billy Wilder foi perfeito ao inserir uma aura dark em certas cenas e incrivelmente competente ao retratar de forma fria a fama (Ou a ausência dela). A escolha da atriz Gloria Swanson para viver Norma Desmond não poderia ter sido melhor. A ex-musa do cinema mudo passava justamente pelo mesmo que a personagem, curtindo um amargo ofuscamento causado pelo cinema falado. Todas as expressões e movimentos das mãos impressionam e hipnotizam, irretocáveis. Já o galã William Holden (De Sabrina) foi uma agradável surpresa. Em muitos momentos ele oferece o cenário certo para Gloria brilhar, longe de ser canastrão a lá Bogart. Resumindo, o trio trabalhou com tanta afinidade, que rola até uma coisa mágica fazendo o filme brilhar.

Além do conjunto de tantos aspectos bacanas, a alfinetada em Hollywood é sensacional. Muita gente atribui o fato de o diretor ter feito uma crítica ao sistema – o modo descartável de tratar suas estrelas, a opressão da fama e a crueldade – a perda do Oscar de Melhor Filme em 1951 para o filme A Malvada. E realmente não dá pra negar que o filme tenha sido indigesto para Hollywood, tratando suas atitudes enraizadas de forma tão nua e crua. Personificada em Norma Desmond, a insanidade dos bastidores da sétima arte é muito forte e dura, com um dramático e épico desfecho.

Se você, assim como eu, gosta de cinema e curte a história por trás dessa forma de arte, Crepúsculo dos Deuses é parada obrigatória. Mais que um clássico, é uma crítica a todos os aspectos ruins maquiados pelo glamour da época. O Artista claramente bebeu da fonte, mas não conseguiu o mesmo feito. Já Cantando na Chuva, embora na mesma temática, apresenta uma visão otimista e bem mais alegre. E de todos eles, o mais fantástico, sem dúvidas, é o resenhado aqui hoje. Uma irônica homenagem ao cinema, feito por quem entende sobre e pra quem quer um dia entender. Imperdível!

Crepúsculo dos Deuses

Sunset Boulevard (110 minutos – Drama)
Lançamento: EUA, 1950.
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Charles Brackett /Billy Wilder / D.M. Marshman Jr.
Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim e Nancy Olson.

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