Animações sob Medida

Cinema quarta-feira, 06 de Abril de 2016

Algo que vem me preocupando nos últimos tempos é a coisa da adaptação de uma obra ao público, mais especificamente como a Disney, Pixar e DreamWorks têm dedicado literalmente mais tempo e recursos em seus mais recentes filmes para que estes sejam mais bem aceitos nos diferentes mercados em que são lançados. Em outras palavras, as grandes empresas e estúdios no ramo das animações têm aumentado consideravelmente os gastos em seus filmes para que estes tenham um retorno financeiro maior… E qual o limite disso?

Primeiro de tudo, deve-se dizer que esse tipo de coisa não é nem de perto novidade. Inclusive, olhando cinicamente para a questão é até impressionante que até a década de 2010 não tenha acontecido nada do tipo no mundo das animações. No mundo dos jogos é algo tão comum e tão velho que ninguém mais se importa. Porém, antes de ir pros exemplos, vou voltar na questão principal.

Obviamente o mundo é um lugar diverso, e cada público tem suas particularidades. Como vivemos num tempo em que um dos principais objetivos e também consequência da vida é a tal da globalização, é natural que um produto que antes supria um mercado passe também a ser comercializado além da sua “zona de conforto”. Só que com isso vem o estranhamento, uma vez que não se pode esperar que gente que more literalmente do outro lado do mundo tenha a mesma cultura que a sua.

Nessa história entra uma briga de valores que é velha conhecida da gente aqui na América do Sul, contando nada mais nada menos com a própria Disney: Se uma obra não é adaptada para o local em que está sendo exibida, a alegação é de política de boa vizinha, domínio cultural, e por outro, se é adaptada, é tentativa de infiltração, conspiração e espionagem. Não tem como ganhar, e não há nada mais justo: O diferente é diferente porque não é formado das mesmas raízes e não se sustenta nas mesmas bases que o outro.

Porém, também como sabemos, a primeira opção costuma compensar mais e trazer mais resultado: É mais difícil manter segredo do que sofrer críticas. Sendo assim, as grandes empresas têm deixado de lado a história de se manter fiel à própria cultura e está abraçando a cultura local de onde está inserida. Nem todo mundo gosta, mas a maioria não tem nenhum problema com isso. “Estão prestando mais atenção em nós”. Essa coisa toda poderia ser chamada de lavagem cerebral, a culpa poderia ser da mídia mentirosa, que deturpa tudo que mostra, e a moda seria uma arma sempre carregada e apontada para a cara do sossego para qualquer um que ouse sair da mais nova linha ditatorial. Pessoalmente chamo essa necessidade de atenção de “sangue de barata”.

Então, indo para os exemplos como dito lá em cima: Nos videogames essa adaptação é coisa antiga. O grande exemplo não poderia deixar de ser a franquia Wolfenstein na Alemanha. Como creio que a maioria sabe, qualquer coisa, imagem, símbolo, ato que remeta ao nazismo é um problema na terra do salsichão, e todo ano vários e vários turistas acabam tendo problemas com a polícia por fazer o bigodinho de Hitler ou por saudar o terceiro Reich pra tirar foto pro feissebruque.

Porém, tem uma pequena diferença entre o que ocorre com Wolfenstein e o que vem acontecendo com as animações: Essa mudança nos jogos da série é decorrente da lei. Independente do que a empresa ache da lei ou mesmo o que os próprios alemães achem dela, se o jogo não sofrer alterações, ele não pode ser lançado no país, país esse que é o maior mercado da Europa. É censura? Claro, mas ou é a censura ou a proibição completa.

Já nas animações não é censura. Não depende da lei, não há processo judicial, multa ou qualquer outra coisa: O único fator limitante é o público. Acontece que os estúdios não mais querem arriscar: Jogar de forma segura adaptando a obra para cada mercado aumenta suas chances de sucesso, e portanto é preferível do que arriscar ter parte da população indo contra uma obra. Algo que acontece mais e mais devido ao famigerado “politicamente correto” e à facilidade propiciada pela internet: Barulho é o que conta, principalmente porque assusta, e a internet é muito boa nisso. Se uma parcela de um determinado público fizer barulho o suficiente antes que uma obra possa se provar nas bilheterias é, cada vez mais, um jeito de conseguir o que se quer. O problema é que isso leva à pasteurização palavra chique e babaca essa da obra; volto nisso mais tarde.

Essas mudanças são um reflexo da necessidade de uma obra dar retorno, mas ao mesmo tempo funcionam para acostumar o público ao que este está consumindo: É muito mais fácil comer algo que você já gosta do que comer algo que você nunca comeu. Independente da possibilidade do público gostar ou não de uma determinada obra, a barreira ainda está lá, e os estúdios estão começando a preferir ultrapassar esta barreira antes mesmo do público dar o seu veredito.

Um dos exemplos é em Univerdade Monstros, o prequel de Monstros S.A., que, ao contrário do Lucas, eu gostei. Outro exemplo é Divertida Mente, lá na primeira imagem do post. E, o mais atual exemplo, Zootopia:

 Versão americana e japonesa.

Assisti o filme ontem faz uns dias e é legal. Infinitamente melhor que Frozen, diga-se de passagem, e o consenso geral é de que é um grande passo para a Disney no que se trata da abordagem de temas mais sérios como o racismo e preconceito, apesar da história não ser grandes coisas (E das paradas erradas com os furries… E a Shakira). Zootopia também passa por essa experiência de alterações para se adequar ao público, e tal qual os outros filmes que passaram pelo mesmo, essas alterações não mudam o filme em si. A história não sofre em nada, os personagens importantes também não: A adequação se limita aos detalhes.

Mas é claro que este texto não estaria completo sem a extrapolação mala dessa história toda.

Zootopia é o mais recente filme da Disney. Divertida Mente é o penúltimo da Pixar, sendo que até onde sei, O Bom Dinossauro não teve nenhuma adaptação do tipo, sendo que os dois começaram a ser desenvolvidos mais ou menos na mesma época. O mais recente trabalho da DreamWorks é Kung Fu Panda 3 (SÓ MAIS TRÊS PRA ACABAR, GENTE!) e até onde minha pesquisa foi também não teve nenhuma alteração. Além de Universidade Monstro, Big Hero 6 também teve alterações.

O problema principal não é o que já foi, mas o que está para vir. A DreamWorks já tem cinco filmes programados para até 2018, um ainda este ano baseado em uns bonecos que eu tenho certeza que vocês conhecem, um que me lembra muito Olha Quem Está Falando, Os Croods 2, Como Treinar Seu Dragão 3, e por fim uma mistura de MiB e Danny Phantom. Isso pra não falar do próprio Kung Fu Panda e alguma coisa ligada à Shrek. O que me preocupa nessa lista? Croods, e os outros filmes que não fazem parte de uma série.

A Pixar tem coisas programadas para até 2019, incluindo, ainda em 2016, Procurando Dory. Depois vem Carros 3, Coco (Um filme sobre o Dia dos Mortos mexicano), Toy Story 4, e, por fim, a tão aguardada continuação de Os Incríveis. Com a Pixar é ao contrário: O que a DreamWorks não tem coragem de mexer nos seus grandes nomes a Pixar tem. Procurando Dory é a continuação de um dos melhores filmes de animação já feitos, tal qual Os Incríveis. A Pixar também já provou que está cagando pra santidade que é Toy Story 1. E por fim tem Coco, um filme americano sobre o México. Se isso não é fazer média eu não sei o que é.

A Disney por sua vez tem dois filmes programados, uma para este ano e um para 2018: Moana e Gigantic (Com direito à easter egg em Zootopia e ainda uma indicação de Frozen 2). O primeiro sobre os nativos da Oceania, indo na mesma linha das novas princesas Disney, e o segundo uma nova versão de João e o Pé de Feijão passando-se na época das explorações espanholas. Nada se salva.

Os Croods 2, Moana, Gigantic e Coco estarão seguindo a mesma onda de Valente, Frozen, Enrolados e o primeiro Croods: Novela das 7. “De época”. Enquanto Kung Fu Panda e Como Treinar Seu Dragão devem continuar no mesmo esquema (Que, por incrível que pareça, ainda funciona para o primeiro e vem melhorando a cada filme no segundo), o resto ainda é uma incógnita que, se a DreamWorks não quiser ficar para trás, vai ter que correr. A Pixar é a mais disposta a correr alguns riscos, até porque nego lambe a Pixar como se fosse sorvete no deserto, e a Disney pode se dar ao luxo de “criar um novo sonho” a cada filme.

O que me preocupa nessa história toda não é essa “personalização” dos detalhes de um filme, mas ao que isso pode levar. Não faz grandes diferenças a comida que um personagem não gosta, ou uma gag ligeiramente diferente, e nem os repórteres com trinta segundos de tela, mas o fato de que nenhum desses filmes tem uma “versão oficial”.

Claro, esses pequenos detalhes não alteram nada de grande importância, mas ao mesmo tempo se não fizessem diferença alguma não teria porque os estúdios investirem neles. Se investem, e já têm investido tem uns três ou quatro anos, é porque dá resultado. Ou porque esperam evitar problemas com isso. Diferentemente do que acontece nos videogames não é censura, é ou autocensura ou marketing.

E, no fim das contas, significa que o filme que eu, no Brasil, assisto não é o filme que meu tio, na China assistiria (Não, eu não tenho um tio na China). O que significa que, minha resposta ao “mesmo” filme vai ser diferente do que a resposta do meu tio. Essa resposta diferente, na real mesmo, é a mesma resposta: Gostar e consumir, mas que ocorreria de forma diferente caso não fossem as alterações. É uma indução à mesma coisa, baseada na mesma obra, mas que independente de todo o resto, é diferente para os dois públicos. Se eu carregar meu carro com duas toneladas de dinamite, estacionar na frente do escritório da Disney e ameaçar explodir a porra toda caso não me seja entregue a versão oficial de Zootopia, o que eles me entregariam? A versão brasileira, porque sou do Brasil? Ou a americana porque a Disney é americana? Mas eu gosto muito do meu tio, e ele está na China. Eu vou explodir a dinamite.

Então, a pergunta do primeiro parágrafo, qual o limite disso? Até onde está tudo bem alterar uma obra de acordo com as preferências de cada local em que ela é exibida? Até onde pode-se dizer que um filme é o mesmo filme, sendo que parte dele varia pra cada continente ou até mesmo pra cada país? Eu, vendo a versão da minha região, posso indicar um filme para alguém que more em outro lugar? Posso dizer que o filme é bom se, caso eu viaje e o assista em outro lugar, vi que não é igual ao que eu já assisti?

Outro exemplo, fora dos filmes de animação, vem da TV, mais especificamente da série Total Drama, que passou bem pouco aqui no Brasil:

 Sim, literalmente todos os personagens da franquia são estereótipos.

A série é de origem canadense, do famoso Teletoon, tendo sido “o primeiro reality show em desenho”. Foram cinco temporadas, de 2007 a 2014, tendo cada uma um “tema”: Ilha, filmagem de um filme, uma corrida ao redor do mundo, etc. Sendo um reality show (Na verdade não é, mas essa é a fórmula da série) os personagens literalmente competem num reality show, e portanto há, no final da temporada, um vencedor do programa. Cada temporada, porém, tem dois finais alternativos, cada um com um personagem vencedor diferente, e o final “oficial” é escolhido de acordo com a preferência de cada país em que a série é exibida. A franquia Total Drama literalmente tem doze finais diferentes (A quinta temporada é divida em duas partes). E o mesmo acontece pra série spin-off da mesma.

Não é uma questão de detalhe, é literalmente a decisão final da série inteira. É claro que a desculpa de ser um “reality show” funciona, e olhando unicamente para a franquia como um produto faz total e completo sentido, mas não é a mesma coisa. Claro, duas pessoas de países diferentes conversando sobre a série poderão falar que gostaram muito porque “meu personagem favorito ganhou”, mas não é o mesmo personagem, porque não é o mesmo final, e, portanto, não é a mesma obra. A dinamite vai explodir.

E se alguém aqui tem alguma dúvida de que os grandes estúdios de animação fariam algo do tipo, pode clicar no xis vermelho alí no canto direito. Contanto que dê resultados, os estúdios abraçarão tal alternativa. Eles já estão experimentando essas adaptações tem alguns anos e até agora eu não vi absolutamente nenhum argumento contra isso. Muito pelo contrário, voltamos pro sangue de barata e a necessidade de atenção.

Algo que acontece comumente na música também. Aliás, acontecia bem antes dos videogames, da TV e do cinema. Ou essa história de álbum versão americana, japonesa, australiana e os caralhos é por algum outro motivo? Quantos e quantos álbuns não tiveram suas faixas trocadas em ordem? Ou ainda com músicas diferentes para cada versão do álbum? Creio que todo mundo que leia o Bacon já se viu rodando metade da internet pra achar uma música específica que saiu apenas numa versão dum álbum qualquer, num único ano, e nunca mais foi tocada pela banda. AC/DC tem dessas, Bowling For Soup, Lionel Richie… São só os primeiros nomes que me vêm à mente, e olha só: São bandas e artistas completamente diferentes entre si, com diferentes públicos, de diferentes lugares do mundo. Só a estratégia é a mesma.

E se o clipe acima te deixou meio confuso, é isso mesmo: Há “duas” músicas, Takeover e Hangover, sendo que a primeira acabou sendo “vazada” antes do lançamento do álbum, no qual Hangover acabou ganhando. Literalmente Um surdo identifica que é a mesma música. Não sei se alguém ainda acredita nessa história de “vazamento”, mas independente deste recurso, a intenção é a mesma com as animações: Melhor aceitação do público. E funciona. Hangover ficou no top 10 de de mais de uma dezena de países, e top 100 em outros 20.

Se estiver tocando e me perguntarem qual o nome da música, o que eu respondo? Escrevo um bilhete com o link pra este texto? Pra Wikipedia?

Como já disse lá em cima, as animações só estão começando a fazer algo que vários outros mercados já fazem, sendo que esse algo é uma estratégia de venda válida e efetiva. Acontece que meu trabalho aqui nessa chapa gordurosa é ser babaca: Quem sofre é a “arte”.

Em três anos as animações estão alterando detalhes, sendo que todas elas tem planos já definidos para seus lançamentos para os próximos três anos. Em 2019 não serão apenas detalhes alterados. Os personagens principais serão os mesmos, a história também será a mesma, mas alterações serão mais profundas. Sabe quando, assistindo à TV, o Chaves quer três cruzeiros emprestados do Seu Madruga, e todo mundo faz piada com a dublagem? Daqui para frente as adaptações das animações a cada mercado só irão aumentar: Personagens coadjuvantes, as dublagens, a festa a qual os personagens irão, seus nomes… Essa “personalização” não existe. Não é uma questão puramente de agradar o público, é o resultado que isso gera, e esses resultados crescerão conforme as alterações crescerão.

Se os estúdios seguirem este rumo, fazendo o mesmo que vários outros mercados já fazem, em alguns anos cada filme lançado terá três ou quatro versões diferentes. O que se manterá será a “mensagem” e a “estrutura” do filme: Sabe quando a galera pega GTA, enche de mods e posta vídeo no YouTube matando prostituta com o Pikachu? Ainda é GTA, claro, mas qual deve ser avaliado? Qual deve ser indicado? Na hora de bater o pau na mesa e dizer que tal filme merece o Oscar, o Globo de Ouro, o Troféu Imprensa, como fica? O filho da puta do meu tio na China vai ver meu Facebook, comprar GTA e ligar perguntando como caralhos minha mãe me deixa jogar Pokémon com tanta violência assim.

A estratégia da globalização é dividir e conquistar.

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  • Daniel Teixeira

    Os produtores finalmente entenderam que fazer a localização de uma mídia é bem mais que apenas traduzir o conteúdo. Tem que se adaptar ao contexto da região. Os filmes de CGI só estão explorando pra descobrir até onde isso é aceito, e até onde isso cativa o público, o que eu acho válido, mas não acho que vá virar uma regra.

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