Contato (Contact)

Antes de A Chegada e Interestelar pensarem em existir, Contato estreou em 1997 atualizando o sci-fi filosófico/epistemológico e propondo uma nova maneira de contar uma história sobre vida extraterrestre. Eu gosto demais dos três filmes citados e, cada um à sua maneira, possui excelentes reflexões e competências técnicas. Hoje eu venho te converter te mostrar todas as razões que transformaram esse filme de Robert Zemeckis em obra básica da ficção científica moderna e fonte de inspiração de tudo que veio depois, inclusive o mais novo Devoradores de Estrelas (que de forma inacreditável não possui resenha aqui no Bacon e, sim, vai sobrar pra mim).
O filme começa nos apresentando a Ellie Arroway, uma astrônoma obcecada pela ideia de encontrar vida extraterrestre. Sua busca tem como base ondas de rádio e, eventualmente, depois de anos de trabalho, Ellie e sua equipe acabam flagrando um misterioso sinal vindo do espaço. A descoberta histórica mobiliza autoridades mundiais e envolve a protagonista numa trama atravessada por questões não apenas científicas, mas éticas, morais e de crenças.

É importante começarmos a análise contextualizando que Contato é baseado no livro de mesmo nome, de Carl Sagan. Ele, famoso astrofísico e astrônomo, criou a obra de ficção inspirado no SETI Institute, uma organização científica sem fins lucrativos que, de fato, pesquisa possível vida inteligente extraterrestre (o próprio Sagan participou da criação do instituto). O cientista usa seu livro como uma imensa discussão sobre os limites do universo, o financiamento das pesquisas científicas, aspectos técnicos das ciências a que se dedicou estudar e sim, filosofia. Porém, apesar do filme nascer do livro, existem diferenças entre os dois e Carl Sagan, ainda que tenha acompanhado a produção, morreu um ano antes da estreia nos cinemas e nunca assistiu ao projeto finalizado.
Quando estreou, o longa foi bem recebido pela crítica e os elogios se deviam principalmente ao fato de aproximar-se muito dos métodos científicos reais e não apelar demais para as loucuras cinematográficas. É dizer, a personagem principal enfrenta problemas de financiamento de pesquisa, preconceito, descrença. Quando o contato ocorre no filme, ele usa explicações reais como ondas de rádio, padrões matemáticos e engenharia. Você não vai ver aqui nenhum ET clássico, nenhum ser de cabeça gigante e olhos esbugalhados. Tá lembrando de Interestelar? Não é por acaso. O filme mais atual se inspirou em Contato pra contar sua história e os dois partilham dessa mesma ideia de tentar explicar a vida no universo sem descambar para seres míticos do imaginário popular.
É, eu entendo a sua rapidez, Ellie!Sobre as atuações, Jodie Foster dispensa apresentações. Nossa oscar winner (pela sua impecável atuação em O Silêncio dos Inocentes) brilha aqui também e segura o terço final do filme como poucos. Já Matthew McConaughey antecipava o lado contemplativo que mais tarde abraçaria com seu famoso Cooper, através de Palmer Joss, uma espécie de “consultor” religioso na trama. Gosto da interação entre os dois e acho que alguns bons diálogos dão o tom mais quentinho e hollywoodiano que o diretor Robert Zemeckis quis trazer, procurando se afastar um pouco da tecnicidade do livro, colocando um pouco de mel (e que mel!) no filme. Eu ainda quero destacar algumas cenas como os registros de Ellie ao entardecer junto das antenas e a sequência da infância quando ela corre pelas escadas e corredor até chegar ao espelho do banheiro. Absolute cinema!
E bem, se tem algum assunto mais polêmico do que ciência X religião, eu ainda desconheço. Talvez política, mas ela também acaba se metendo na história quando tempos de crise entre essas duas coisas surgem. Eu adoro quando filmes exploram as reações humanas diante de coisas que não podem ser facilmente explicadas. O campo é fértil para fanatismo, violência e desesperança (um autor que escreve maravilhosamente sobre isso é Stephen King em O Nevoeiro, por exemplo). Mas tempos difíceis também abrem espaço para cooperação, novos caminhos e novas explicações. Contato também tece uma reflexão sobre a origem do dinheiro para o financiamento das pesquisas e quais as intenções. Até porque bilionário maluco querendo ir para o espaço é só a cereja do bolo, né, SpaceX?

Muito também se especulou sobre quem foi a inspiração para a Ellie Arroway. Há quem diga que a personagem foi inspirada na cientista Jill Tarter. Mas pra mim, uma parte importante do filme foi claramente inspirada na fofoca real envolvendo Jocelyn Bell e seu orientador de pesquisa. Ela descobriu os pulsares em 1967 enquanto ainda era estudante de doutorado. Seu orientador, que sempre a descredibilizou, roubou na cara lisa toda a sua pesquisa e ainda recebeu o prêmio Nobel de Física em 1974 pela descoberta! O acontecimento ficou famoso pela injustiça e apagamento das mulheres na ciência e até hoje é conhecido como prêmio “No-Bell”. No longa, Ellie passa por uma situação semelhante, embora o final dessa injustiça tenha tido um desfecho, digamos assim… mais satisfatório.
“Se estivermos sozinhos no universo, seria um terrível desperdício de espaço.” é uma das frases mais emblemáticas da produção e que embasa a ânsia de Ellie em sua busca por vida inteligente fora da Terra. Porém, depois de toda sua jornada, começamos a perceber toda a solidão, melancolia e vazio latentes em sua história. O luto também é um tema muito presente e que merece os devidos créditos na composição da complexidade emocional da personagem. Sua busca desemboca não somente na ciência, mas principalmente em seus pontos mais vulneráveis e emocionais – na minha percepção, um grande acerto.

Quando assisti pela primeira vez, o final não foi o que imaginei que seria. Depois de reassistir, ainda mais depois de alguns anos, eu entendi melhor e gostei muito mais por isso. Não quero dar spoilers e por isso eu te convido a assistir e voltar aqui para dar a sua opinião (ou lá no Instagram, onde essa tia está mais presente). Contato é um filme que dá espaço para dialogar com as nossas crenças e com o mundo no qual vivemos, afinal, é uma discussão possível de ser atualizada – e o que, de fato, aconteceu anos depois com a santíssima trindade citada lá no início: A Chegada, Interestelar e Devoradores de Estrelas (e se eu fosse você, assistiria todos eles em sequência).
Contato
Contact (150 minutos – Ficção Científica)
Lançamento: EUA, 1997.
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: James V. Hart e Michael Goldenberg
Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, Tom Skerritt, John Hurt e James Woods.
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terça-feira, 19 de maio de 2026 
