Dúvida (Doubt)

Filmes bons que passam batidos terça-feira, 05 de maio de 2026

Oi, tangas! Quer dizer, ainda posso chamar vocês de tangas ou já tô cringe demais? Bom, I don’t care (I’m 90’s, bitch!). E, olha só, eu já tive um reinado nessa bodega, acredite você ou não. Se clicar ali em cima no meu nome você vai descobrir um tesouro dezenas de textos que eu já produzi para esse site através de trabalho escravo em épocas longínquas. Voltei porque cinema é algo que eu ainda amo e, talvez, eu goste de sofrer.

E eu volto já com o pé na porta com um filme daqueles que valem seus 104 minutos. A princípio, você pode achar o ritmo lento – e eu vou culpar completamente a geração dopamina barata na qual estamos inseridos e com o cérebro carcomido por reels e TikTok –, mas a beleza dele vem justamente de suas pausas. São os silêncios e espaços onde você escuta as engrenagens trabalhando e conjecturando possibilidades que elevam o longa à sua potência máxima… até chegar ao poderoso final.

Meryl Streep (ai, sempre ela, né?) dá vida à Irmã Aloysius, uma diretora dura, fria, extremamente caxias, que conduz com mão de ferro a coordenação da Escola St. Nicholas. Ao lado dela temos Amy Adams como a professora Irmã James. Em determinado momento, James percebe que um de seus alunos age de forma estranha e parece ter bebido vinho. Intrigada, a professora leva a ocorrência até Aloysius, que resolve levar adiante uma acusação grave: a diretora acredita que está diante de um caso de abuso contra o menor, e o agressor é ninguém menos que seu superior, Padre Flynn (Philip Seymour Hoffman). O imbróglio delicado que esses três personagens principais se envolvem ramifica em uma série de questionamentos e consequências.

Preciso primeiro destacar Meryl como Irmã Aloysius. Sua dureza expõe também sua moralidade e, por que não dizer, sua luta contra a crueldade mundana. Suas atitudes encontram suporte na proteção que deseja exercer, mas também revelam sobre suas próprias mazelas. Há um viés de poder, controle e, sim, um embate de gênero com o Padre Flynn. A rigidez absoluta da diretora a atravessa de forma ambivalente e ao mesmo tempo, que aparentemente lhe entrega um desfecho satisfatório, a chicoteia em seu sofrimento final.

De outro lado, Philip Seymour Hoffman como o clérigo está igualmente bem. Seu personagem nos provoca a todo instante, e não posso deixar de destacar aqui o seu sermão sobre a fofoca – pra mim, um dos discursos mais icônicos do cinema. Para além da perfeita construção narrativa, o trabalho do ator nos transmite diversas sensações e em alguns momentos temos certeza de que ele fez, em outros de que ele não fez. E era exatamente isso que precisávamos dele.

Amy Adams, por sua vez, exprime toda a insegurança e a culpa de Irmã James. Sua obediência a faz passar por cima de suas próprias convicções, e as pesadas consequências de seus aparentemente inocentes atos a perseguem para sempre. Acho ainda que existe em seu personagem uma crítica à educação (Quietinho! Professora aqui falando!), demonstrando o quanto profissionais da área se encontram muitas vezes amarrados a hierarquias, burocracias e decisões externas que podem matar qualquer boa intenção.

Por fim, e não menos importante… senhores, Viola Davis!!! Ai, puta que pariu. Essa mulher simplesmente tem poucos minutos de tela e janta a Meryl Streep sem esforço (nem eu sei como isso foi possível). E sim, minha gente, ela recebeu uma indicação ao Oscar por sua única sequência no longa. Davis interpreta a mãe do menino supostamente abusado, e a força do seu discurso é absurda. Ali tem dor, desespero, culpa, esperança. Esperança de que essa criança, já tão violentada de mil outras formas, possa ter um futuro melhor. Melhor do que o dela, inclusive. Quem pode julgá-la?

Tecnicamente falando, adoro as escolhas feitas para o longa. O tom taciturno, sua iluminação, a sensação de clausura (há momentos em que vemos Irmã Aloysius fechar janelas) nos transportam para essa aura religiosa fria. Gosto dos planos fechados e também de quando se abrem para trazer complementos importantes ao contar a história através de seus objetos. O uso da madeira escura transmite com exatidão a sensação de endurecimento e afastamento que permeia a instituição – não à toa, uma das críticas feitas pelo Padre Flynn. O roteiro é uma adaptação da peça teatral Doubt: A Parable, premiada com o Pulitzer de Drama e o Tony Awards e versa justamente sobre o momento de transição da igreja católica nos anos 60.

Dúvida não é um filme que te entrega respostas, ele foi feito mesmo para alugar um triplex na sua cabeça. Não existem saídas fáceis para nenhum dos caminhos que ele sugere, e não há nenhum personagem imaculado que ocupe um lugar de mocinho. A ambiguidade é o tema central, em conformidade com o seu título. Você pode até escolher um lado, mas ele te adverte sobre as consequências. Ele te provoca ainda a pensar sobre a justiça de seus próprios julgamentos. Em tempos sombrios que vivemos, o filme exprime sua atemporalidade e refinamento discursivo. Por isso, faça um bem a si mesmo, saia do TikTok e vá ver essa obra-prima!

Dúvida

Doubt (104 minutos – Drama)
Lançamento: EUA, 2008.
Direção: John Patrick Shanley
Roteiro: John Patrick Shanley
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis

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