Sua webcomic é ruim, mas você pode consertar

Webcomics quarta-feira, 03 de agosto de 2016

Com o Jo rasgando verbo sobre os personagens quadrinísticos em tudo que é mídia menos quadrinho eu resolvi fazer o contrário… Ou quase: O Pizurk e eu lemos webcomics e, até onde sei, o Jo e a Nelly tem mais coisas pra fazer na vida, mas o importante mesmo é que tem muito mais quadrinho na internet que fora dela, mas isso não é tão legal quanto poderia ser.

 Dá pra ser mais genérico? Não!

Publicar qualquer coisa (Um livro, um álbum ou uma HQ, etc.) tem grandes dificuldades: Preço, material, distribuição, publicidade. Não vou falar sobre isso novamente, o ponto principal é um só: Por ser difícil, precisa muito mais que uma tarde com tempo livre e uma ideia mequetrefe na cabeça pra fazer um quadrinho dar certo. Porque essa é a vantagem da internet: Toda a logística se resume à ter uma conexão e se dar ao trabalho de fazer um blog ou site com um template pronto qualquer. Fazer quadrinho ainda é difícil, você só não tem que se preocupar com ele existindo na vida real.

Agora vamos falar um pouco sobre formatos de publicação formatinho é uma merda: Nas mídias “tradicionais” os quadrinhos ou vêm em “pacotes”, com histórias, até certo ponto, fechadas (Algo como um capítulo de novela, por exemplo) ou vem em tirinhas. Tirinhas são, de forma geral, também histórias curtas, mas que não contam com páginas para contar uma história ou fazer uma piada; quando muito contam com 5 quadrinhos. A grande diferença é que, enquanto uma edição de um quadrinho costuma contar uma história (Seja ela finalizada ou não na revista em questão, ainda há elementos da narrativa que são apresentados, terminados, desenvolvidos, etc. dentro da mesma edição), uma tirinha costuma apresentar uma situação e resolvê-la logo em seguida, sem dar grandes espaços para arcos de história, focando no pontual.

O problema é que não é isso que as webcomics fazem. Melhor falando, as webcomics separam-se em duas também: O primeiro, assim como as tirinhas, apresentam uma situação pontual e a resolvem em seguida, sendo que muitas vezes estas webcomics não tem personagens fixos (Como Garfield tem, por exemplo), mas sim personagens situacionais. E ainda que tenham personagens fixos, muitas vezes estes estão dentro de uma subdivisão da webcomic, fazendo com que esta se torne quase uma “editora”, e esses diferentes personagens (Em suas respectivas edições) os “títulos” desta editora. O segundo tipo, porém, é o que me incomoda: É aquele que, tal qual uma tirinha de mídia tradicional, tem “X” dias de publicação num mês (A maioria sendo semanal) mas que insiste em querer contar uma história contínua tal qual os gibis tradicionais.

O cenário é literal: Uma vez por semana sai uma página do que seria uma HQ “comum”, para que então seja finalizado um “capítulo” ou “volume” da tal webcomic. Sabe quantas páginas tem uma HQ qualquer do Homem-Aranha que cê acha na banca? 24 UI. Sabe o que isso significa? Que essa gente demora SEIS MESES pra publicar um gibi. Um gibi do Zé Carioca que cê paga R$1,50, na internet leva seis meses pra ficar pronto.

Não é o meu lado de leitor falando; consigo ficar perfeitamente bem aguardando momentos decisivos da uma história enquanto a tensão aumenta, o problema é que joga-se no lixo todas as facilidades possíveis para se apostar num formato de publicação que não se sustenta. Fui dar uma olhada aqui na prateleira: Um encadernado simples do Demolidor tem 129 páginas. Isso são dois anos, seis meses e uma semana pra publicar, na internet, algo que saiu por uma editora em seis meses. Isso é mais de 500% de aumento no tempo de produção. E quer a real? O resultado é ruim. Não sempre, é claro, mas na maioria das vezes é.

Porque dois anos e meio é tempo pra caralho, e qualquer um que já se deu o trabalho de produzir qualquer coisa sabe que, em dois anos, seu trabalho muda completamente. A qualidade flutua. Tem semana que você está sem ideias, que está de saco cheio, que está sem tempo para fazer a parada com a mesma atenção e qualidade que normalmente faz. Eu leio webcomics que já estão rolando há OITO ANOS. E não encheriam um encadernado como os do Superman que, ao menos uma vez por ano, dão as caras.

Como é que alguém pode esperar do público que este acompanhe a mesma história por um ano inteiro, sendo que no meio do caminho a arte muda (E olha que nem estou falando de quando mudam o artista mesmo), a escrita muda, a história muda e, no fim, tem um cliffhanger safado, ou pior, uma solução à la novela das 7, voltando tudo pro status quo. É igual às grandes sagas das editoras tradicionais? Claro, mas pelo menos elas fazem isso com a competência que só o mau caratismo é capaz.

 Muito obrigado à todos que acompanharam a HQ até agora, vocês SE FODERAM.

Já falei dessa história das webcomics seguirem o caminho da mídia tradicional mas com um outro foco e aqui é a mesma coisa: A internet não é o Caderno 2, não é um encadernado, não é um gibi que você vai ler na sala de espera do seu proctologista, e não tem absolutamente nenhum motivo para tratar a plataforma internet como tal. Você não faz um filme pra mostrar sua mais nova música. É do mesmo nível de inutilidade que reclamar de como é difícil publicar um quadrinho “materialmente” enquanto que você só o faz na internet: Não é problema seu, não é da sua conta e não deveria te influenciar em nada. Como já diria a comunidade do Orkut, ame quem te ama.

Não há motivo para submeter-se como autor à esse tipo de cenário: Projeto de longa duração, que não utiliza as ferramentas apresentadas pela mídia em que ele está, tendo que lidar com uma concorrência muito maior do que o próprio nicho (Afinal, na internet o acesso é pra tudo, não só pra webcomics) e que ainda vai ter que lidar com todas as variações possíveis do seu humor, paciência, disponibilidade e inspiração. E o pior é que a maioria dessa gente escreve quadrinhos como quem escreve novela: “O episódio de hoje deu pico de audiência, repete isso aí no capítulo de amanhã”. Eu espero que alguém tenha oito anos de história já programada? É claro que não, o problema é que tem gente que programa ter oito anos de história.

Se eu quisesse ler quadrinhos do jeito que quadrinhos sempre foram eu posso muito bem me afundar em dívidas com o Seu Zé João, o cara da banca aqui na esquina. Eu não preciso pagar internet pra isso, quanto mais a Vivo (Minha internet é lenta e tem um plano velho mas pelo menos não tem franquia – CHUPA AQUI, VIVO), e definitivamente não preciso dedicar tempo que eu teria pra fazer qualquer outra coisa correndo atrás de uma obra que vai terminar quando eu não ligar mais nem pra minha ejaculação precoce e tiver a necessidade de usar fraldas. Posso muito bem abrir um encadernado completo de qualquer minissérie e ter o final alí, na página 382. Posso clicar no xis vermelho na tua página e ir ver a outra webcomic que eu acompanho pra descobrir que o dinossauro perneta do quadrinho de hoje tem um pterodáctilo que quer biscoito e que não faz ideia que a torradeira com gripe de ontem existe.

O jeito que vocês estão fazendo quadrinho é um jeito quebrado. Se virem aí pra consertar; eu já fiz minha parte.

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