Revivendo Podcasts

baconfrito sexta-feira, 12 de julho de 2019

Apesar do trauma de podcasts aqui no Bacon, eu jurava que o bagulho já tinha sido tema de vários textos, mas pesquisando agora eu me dei conta de que, na verdade, foi tema de um só (E de propaganda ainda por cima)… Pois eu tenho que mudar isso, e se você pensou em outro texto que eu falo da minha vida, acertou.

 De nada.

Eu não sei se vocês se lembram, mas há uns bons anos atrás a blogosfera explodiu em popularidade, e acabou trazendo consigo os podcasts. Enquanto que nas gringas o treco já era comum (E, à bem da verdade, já rolava há anos no Brasil), por aqui acabou demorando um pouco mais e tendo aquele fatídico perfil de onda, no qual um monte desaparece quase tão rápido quanto surgiu.

Nesses anos todos aquele furor morreu, e de uma forma geral os que já existiam antes continuam e alguns poucos conseguiram se manter até hoje… Claro, pra não falar dos que surgiram desde então. Nesses últimos tempos têm havido um pouco mais de conversa e barulho ao redor do formato…

Que, aliás, é um pé no saco: Galerinha, podcast não surgiu ontem. Pesquisa essa porra aí. Debater qualidade e preço de microfone é de cair o cu da bunda, é muito 2005, e só mostra que vocês não aprenderam porra nenhuma na última década e meia.

… ahem…

Mas então, podcasts surgiram, cresceram e viveram um ótimo período uns anos atrás, e foi mais ou menos nessa época que eu comecei a ouvir alguns… O que passou pra bem mais que “alguns” em relativamente pouco tempo, até chegar no ponto em que eu ouvia pelo menos um por dia e já ficava pra trás, porque tinha mais podcast que dia no mês. Foi assim por uns anos, até que, como quase tudo nessa minha vida, eu larguei mão. Porque se vira tarefa, não tem graça. Eu fiquei anos longe, porque além de ter virado obrigação (Ou pior, virou novela), chegou um ponto em que eu cansei dos formatos, dos temas, das vozes… Naquela época eu conseguia ouvir a mesma coisa sobre o mesmo filme meia dúzia de vezes, mas tudo tem limite.

Conforme eu envelhecia e me acabava ainda mais, a vontade (E o saco) de ouvir podcast morreu totalmente, o que resultou nos vários anos que passei longe… Até o feriado da semana passada. Sem nada pra fazer além de floodar meu tuíter com #Tormenta20 eu resolvi dar uma olhada em como estava um ou outro que eu ouvia na época… Ou melhor, bateu a curiosidade se eles ainda existiam. Não vou linkar ou indicar nada aqui, mas vale dizer que, até para minha surpresa, boa parte não só permanece como, até onde dá pra ver, está indo muito bem.

Nesses últimos dias eu baixei uns quinze episódios de vários podcasts diferentes, vários brasileiros, vários gringos, tanto de programas que eu já havia escutado quanto novos… Deixem-me falar um pouco das diferenças desses últimos anos:

Naquela época celular era uma parada diferente. Já dava pra ouvir podcast, mas a real é que era um saco. Era demorado, complicado e, de forma geral, dava mais trabalho acertar o feed no celular do que baixar a coisa toda no computador e depois passar pro celular que ouvir direto no mesmo… Streaming então era pior ainda, mesmo usando wi-fi. Se fosse pra usar conexão de dados você sequer passaria pelo Serasa, seria uma visita automática da Receita Federal logo de cara. Claro que dava pra ouvir no computador, aliás era como eu mais ouvia, mas uma das vantagens do negócio é justamente não estar atrelado à um aparelho “grande” e incômodo.

Também naquela época a qualidade de áudio era outra. É verdade que microfones, gravadores e quaisquer outros aparelhos possíveis ainda podem ser muito caros e ser difíceis de encontrar, mas de uma forma geral a qualidade do equipamento (E dos softwares) melhorou bastante nesses anos todos, o que leva à uma melhora geral na qualidade dos programas, e tivemos sim um enorme crescimento do nosso mercado nacional no que tange produtos importados. Aliando o fato de que, de uns anos pra cá, a conversa sobre programas gratuitos, código aberto e recursos online direto no navegador aumentou bastante, as chances de um podcast ter uma qualidade mínima só aumentaram.

Outro ponto é que já tem quase vinte anos desde os primórdios do podcast no mundo, e com isso vem as pesquisas, o desenvolvimento de ferramentas dedicadas, o maior suporte tecnológico, melhores plataformas, o maior conhecimento por parte do público… É uma mídia que é quase dimaior, véi. Não existe mais aquela coisa de “não sei se vai vingar”: Podcast é uma realidade há anos, e já há anos vem se especializando, evoluindo. Hoje não cabe mais aquela conversa de “podcast é um rádio na internet”: Podcast é podcast.

Juntando isso tudo, a grande diferença é que, nos dias de hoje, quem faz podcast sabe o que está fazendo (Ou deveria saber). O experimento não é com a mídia, é com seu programa. A dúvida é na execução, não conceitual. Ninguém mais cai de paraquedas pra fazer um podcast, do mesmo jeito que ninguém mais cai de paraquedas no Youtube ou no streaming de jogos no Twitch. Por incrível que pareça tem mais gente que se “aventura” em fazer blog do que gente que se “aventura” em fazer podcast: São águas navegadas.

 É claro que eu não ia deixar este texto sem uma stock image genérica.

Mas então: Eu peguei pra ouvir as paradas. Ainda não ouvi tudo que já botei no celular, mas estou no caminho.

É muito doido ver que tem gente que continua fazendo as paradas há mais de uma década. É gente que eu literalmente ouvia há dez anos atrás, alguns com as vozes praticamente iguais ao que era. Esse tipo de experiência, pra mim, vem sempre em duas correntes: A primeira que é muito legal que tem gente que realmente faz o negócio funcionar, persiste, cria realmente uma história; a outra é que porra… Tá fazendo a mesma coisa faz tempo, né? Não que seja errado ou tenha algum problema, mas a impressão (E sim, eu sei que isso não quer dizer que é a realidade) é que ficou meio parado no tempo.

No outro canto, a maioria do que eu coloquei pra ouvir agora é tudo podcast novo, em sua maioria gringos (Até porque eu ouvia um ou dois apenas), então é muito foda ver que a mídia está mais forte que nunca no Brasil, e meio que em consequência disso, têm se expandido pra mais tópicos e assuntos. Claro que minha experiência era ditada pelos meus interesses, mas cara, um número gigantesco de podcasts era simplesmente “cultura pop” ou “slice of life”… Sempre teve os de dicas financeiras, debate de esportes, indicações de livros, etc., mas porra, atualmente a gente tem debate acadêmico aprofundado em biofísica, saca? Tem um outro que faz análise literária de livros medievais… O nível e o escopo aumentaram muito. Lá fora continua mais avançado que o Brasil, mas a gente tá correndo atrás.

 Menino, é cada coisa…

Junto com isso tudo, claro, o meu jeito de consumir a coisa mudou… Aliás, mudou exatamente do mesmo jeito que eu consumo qualquer outro entretenimento: De forma pontual, ainda que não necessariamente esporádica. Hoje, já percebi pelo pouco que ouvi, eu não tenho paciência para acompanhar um podcast, para ouvir episódio que não me interessa simplesmente porque faz parte da sequência. Muito menos tenho o saco (E o tempo) pra ir ouvir todos os episódios anteriores que eu “perdi”: O passado pertence ao passado, vou ouvir os episódios que continuam relevantes, que fazem sentido pra mim.

Isso é um ponto importante porque mostra uma coisa muito óbvia, mas que tanto por minha própria culpa quanto pelo formato que muitos podcasts adotam (Principalmente aqui no Brasil), acaba passando totalmente batido: Podcast não é novela, não é série, não tem continuidade. Claro que tem podcasts que têm continuidade, mas porra, tem podcast que não deveria ter continuidade que tem continuidade. Uma coisa é ouvir uma dramatização em forma de podcast: Cê tem que acompanhar a parada pra entender o treco, a outra é você ter que ouvir um episódio sobre a reforma da previdência e outro sobre os lançamentos da Netflix porquê fulano continuou a história da semana passada na leitura de e-mails. Aliás, leitura de e-mails, comentários, jabás, participações, o que fizeram na semana: Caguei. O que importa é o conteúdo (E se tiver mais tempo de “resto” que de conteúdo as chances de eu não ouvir mais o podcast – mesmo pulando esses trechos – são grandes).

Eu poderia dizer que eu dou mais valor ao meu tempo, mas a verdade é que eu só fiquei mais chato mesmo.

No fim das contas, esses podcasts que eu acabei ouvindo nos últimos dias serviram pra coisa que eu não esperava: Deu pra ver a evolução da mídia no Brasil e fora daqui, deu pra relembrar boas memórias de muito tempo atrás, deu pra ver o que tem de novo rolando por aí, deu pra ver a gigantesca melhoria de acesso à mídia e, principalmente, deu pra ver que os assuntos abordados, apesar de mais nicho, são muito mais abrangentes… Rádio não faz isso, cara. Rádio não consegue… Porra, eu gosto pra caralho de rádio, mas podcast saiu da sombra do treco, e saiu com vontade (E qualidade).

Eu sinceramente não sei se vou ouvir muito mais podcasts… Na verdade acho que vai ser minha rota quando eu tiver esgotado os outros meios, mas é muito, muito bom ver que aquele treco que eu ia atrás há tantos anos mudou bastante e pra melhor… Eu só sei que o podcast do Bacon tá morto e enterrado e isso é melhor ainda.

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