Qual o valor do entretenimento?

Cinema segunda-feira, 02 de maio de 2016

Quando se trata de uma resenha, uma avaliação, uma análise dos méritos de uma obra qualquer há duas posturas a serem adotas: “É ruim, mas me diverte, então toma uma boa nota” ou “É ruim, mas me diverte, mas ainda é ruim, então toma uma nota ruim”. A postura não é o importante, mas sim a relação que ela leva em como uma obra será aproveitada.

Não sei se este é exatamente o jeito certo de dizer, mas o Bacon nunca levou o jornalismo à sério. O site nunca teve um posicionamento “do site”, sob o qual todos que aqui escreveram deveriam aderir ou ao menos respeitar. Em outras palavras, a opinião de cada autor aqui é a sua própria, e o site é mais como um agregador que qualquer outra coisa. Pros termos do tópico em questão, isso significa que cada autor escolhe a postura que quer levar quando está resenhando alguma coisa, e, a bem da verdade, esse posicionamento muda, seja de uma obra pra outra, de um estilo pra outro ou simplesmente com o tempo.

Particularmente prefiro o segundo… Mas eu sou um bosta.

E aí entra a questão do título: Até onde o “me diverte” importa?

No fim das contas, entretenimento é só isso: Diversão, passar o tempo, distração. Então até que ponto pode-se dizer que algo tão trivial importa mais que qualquer outra coisa? Afinal, uma obra, qualquer obra, leva tempo e dedicação, e com o cinema não é diferente. Quantos filmes não levam décadas para serem realmente feitos? A grande maioria das animações 3D leva ao menos três anos de produção ativa, sendo que várias e várias delas tiveram seu início mais de uma década antes. O mesmo vale para as animações tradicionais, e em filmes live action é algo cada vez mais comum considerando que o número de filmes feitos de forma independente (Até mesmo por grandes nomes – atores, atrizes, produtores – mas sem um estúdio) tem crescido a cada ano.

A produção de novos filmes nunca foi maior e isso dá-se, é claro, por conta da maior facilidade e acesso aos recursos para tal: Câmeras relativamente baratas, softwares, a própria internet, a maior difusão da área quando vista de forma profissional. Não há muito tempo atrás ser ator ou atriz era algo mal visto, imagina então o cara que fazia os sets? Ou quem topava de fato se fantasiar por um personagem, algo que hoje é absolutamente comum e costuma render alguns prêmios?

O problema, e nem sei se é um problema mesmo, é que essa produção independente não costuma ser entretenimento. Muito pelo contrário, são as que mais valorizam a questão da “mensagem” que a obra passa ou ainda a “arte” de se fazer um filme. Basta olhar para qualquer país cuja produção cinematográfica não está no mainstream que fica claro que o grande objetivo daqueles filmes não é entreter ninguém. A Argentina provavelmente é o exemplo mais próximo de nós: É muito mais fácil, fazendo o minha-mãe-mandou, pegar um filme argentino que seja chato do que um de Hollywood. O filme de Hollywood pode ser terrivelmente pior que o argentino, pode ser inferior em absolutamente todos os parâmetros possíveis, mas ainda assim você, ao assistí-lo, não o chamaria de “chato”. Chamaria de um monte de outras coisas, mas “chato” não.

A internet, o YouTube, o Brasil e o HU3 nunca decepcionam.

A arte e a mensagem são muito mais importantes quando o cinema não quer te entreter. Ainda que o cinema que quer te entreter falhe, este não tem a responsabilidade de comunicar um ponto de vista ou abordar determinada questão ou ainda fazer uma denúncia qualquer, e muito menos tem de fazer qualquer uma destas coisas se preocupando com a estética cinematográfica.

Porém, à bem da verdade, esse tipo de cinema que tem uma missão não é o tipo de cinema que arrecada milhões. Ou bilhões. Não é o tipo de cinema que tem sua programação impressa no jornal, ou o que ganha os grandes prêmios, ou nem mesmo o que o público – o grande público, onde a atenção e a retribuição estão – se interessa. Aí entra a grande questão de como quem faz esse tipo de cinema se relaciona com isso tudo, mas o fato é um só: Missão não rende. Entretenimento rende.

E entretenimento requer investimento. Investimento financeiro mesmo, mas o quanto você tem de orçamento não significa que haverá menos dedicação e nem menos esforço… Muito pelo contrário, quanto maior e mais cara uma produção a quantidade de gente trabalhando nela tende a aumentar. Entretanto, a grande e constante reclamação contra o cinema de entretenimento é a falta de uma missão.

Não que o cinema de entretenimento tenha que mudar a vida de quem o assiste, mas é absolutamente comum que nós, todos nós que assistimos tal cinema, digamos que este é “raso”. Ou bobo, sem propósito, que não se preocupa com nada além de gerar lucro. E na gigantesca maioria das vezes é verdade, mas não só nós não assistimos o outro tipo de cinema como quando o assistimos o chamamos de “chato”. Porque é chato. Primeiro porque ouvir sermão sobre qualquer coisa é algo tremendamente chato e segundo porque nesse tipo de cinema a estética parece se esforçar ao máximo para ser a coisa mais importante no filme.

 Não sei se essa imagem é zueira ou não, só sei que é incrível.

Mas bem, se o cinema de entretenimento é sem valor e o cinema arte é chato, o bagulho desanda. Ou o público, feito criança, faz birra pra não comer nenhuma das opções que tem ou o público, feito criança, ainda não levou na fuça e não teve a colher enfiada goela abaixo. A outra escolha é ficar com fome, mas até onde sei ninguém está disposto a abandonar o cinema. E o pior é que nem é a síndrome de vira-lata, mas sim algo completamente natural: Você gosta de cinema, você quer ver cinema, e portanto quer ver algo que goste.

E, então… O “me diverte” basta? Porque sejamos sinceros, um filme ruim é um filme ruim, e mesmo que ele tenha te divertido, ele continua ruim. Essa vergonha de admitir que se gosta de algo ruim é uma praga foda. Talvez seja um exercício da idade, talvez tenha a ver com o ambiente em que você está, mas de forma bem simples: Você gosta da porcaria que você gosta. O problema só surge se você classifica algo que você gosta de “bom”. Aí é uma questão completamente diferente, mas tirando isso, não tem porque negar os dois lados da moeda: É ruim, e te diverte.

Porque é entretenimento. Entretenimento diverte. Nunca vi sermão entreter ninguém que tivesse que ouvir o sermão. Pode até ser algo divertido pra quem está dando o tal sermão ou ainda pra quem fez a outra pessoa começar o tal sermão, ou seja, o famoso filho da puta, mas fora isso nada feito. Começa a soar estranho quando se espera que o que te entretém também mude a sua vida, ou te ensine alguma coisa. Porque entretenimento não é isso. Entretenimento não tem missão, não tem que passar absolutamente nada para o público. Se você espera aprender a amar o próximo porque trinta carros de polícia capotaram e explodiram o problema é seu. É sério, o problema tá contigo, não com o cinema.

Seria correto então dizer que o que importa é com qual expectativa se vai ao cinema? Quero dizer, se você for assistir um filme de super-herói esperando apenas entretenimento e ele te divertir é um bom filme, mas se você for assistí-lo esperando um aprendizado cultural e ele não te ensinar nada é um filme ruim? Porque não parece correto. A sua opinião sobre o filme pode mudar o quanto for, mas é o mesmo filme e com total sinceridade, foda-se a sua expectativa. Ver um filme qualquer e receber mais do que você espera é sempre algo bom, mas quando se espera algo e recebe-se menos que o esperado, é completamente fora de propósito culpar o filme por isso. Você pode até culpar o marketing, a galera que fez os trailers ou o McDonald’s, mas não o filme. O filme tá alí, ele é o que é, e você faz o que quiser com a sua experiência de assistí-lo.

Voltando pro começo como sempre, cabe a cada um decidir se o entretenimento é o suficiente. Qualquer um tem a liberdade pra escolher que tipo de cinema quer ver, bem como tem a liberdade pra esperar o que quiser do filme que for (Por mais estúpido que isso seja), mas quando o cinema que quer te passar alguma coisa não serve e o cinema que não quer te passar nada também não, você (Eu e todo o público) tem que se decidir se o “me diverte” garante um dez.

Não que “dez” seja um dez, mas se assistir um filme pela simples oportunidade de se divertir vale à pena ao ponto de poder dizer que o tempo gasto assistindo o tal filme fez valer à pena o tempo e esforço do tal filme ser feito. Se o seu tempo ao assistí-lo foi bem gasto. Se se divertir é mais importante que ouvir um sermão, por melhor e mais instrutivo que o sermão seja. Pra uma experiência, qualquer experiência, valer a pena, a balança tem que pender pro positivo. O benefício tem que ser maior (Seja este maior por uma margem larga ou fina) que o preço a ser pago, e o preço a ser pago normalmente é sair do cinema só tendo passado um bom tempo.

Todo o trabalho de fazer um filme, assistir um filme e não tirar absolutamente nada dessa experiência é um preço justo a ser pago por duas horas de entretenimento? Nada mais e nada menos que entretenimento?

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