Pra todo mundo

Televisão segunda-feira, 05 de setembro de 2011

Não faz muito tempo, e eu estava passando pelo quarto do meu vô, e escutei ele dando risada. Fui ver o que ele estava assistindo. Minha cara rachou quando eu vi que ele estava assistindo Será que faz sentido. Sim, o programa do Felipe Neto. Aí eu pensei: “Mas esse programa não é pra adolescentes, ou adultos que ainda se acham adolescentes?” Sentei e assisti o fim do programa com ele. No dia, o pauta tratava de piercings e tatuagens, coisa que é modinha – porque, convenhamos: Poucos são os que se tatuam e colocam piercing porque de fato curtem, e não porque seguem alguma tendência momentânea.

Aí, eu penso: Meu vô tá rindo do quê, afinal? Do cara? Do programa? Do assunto? Ou de alguma piada que lembrou enquanto via a matéria? Era do programa. Palavras do meu avô: “Garoto bacana” Meu avô achou o Felipe Neto bacana. Ok.

 Faz sentido?

Beleza. Uns dias depois, eu estava vendo PC na TV, e meu avô do meu lado. De repente, ele começa a rir. JURO QUE NÃO ENTENDI. Questionei, e ele falou “esse menino falando palavrão! Ótimo!”.

Entendi.

Não era a pauta. Não era a matéria. Não era a tentativa de fazer graça. Era a linguagem. Simples, direta, espontânea, nem aí pra boas maneiras e pudores. Meu avô curtiu o natural. Mesmo que o natural viesse de webcelebridades que agora tomam conta da TV também.

E é isso que toma conta da televisão. Um monte de conteúdo despudorado. Não que isso venha pra bem ou pra mal, mas vem. No mesmo programa, tu vê assunto pra criança, adolescente, adulto, e avós. Enquanto eu assistia pra ver a matéria do PC circulando por um cemitério, meu avô sentou pra assistir e esperar o próximo palavrão do menino de camisa xadrez. E, garanto: Riu com gosto mesmo. Como se visse um programa de piadas.

Os programas são feitos pra agradar a todos. O que, de certo modo, é meio preocupante, quanto à questão “conteúdo”. Qual o foco do programa, quando é feito pra todas as faixas etárias? Acho válido que todo mundo se divirta, que todo mundo possa ligar a TV e ter diversão garantida, mas e a segmentação? Eu acreditava que PC na TV fosse pra galera que tinha começado a acompanhar o cara pelas interwebs, e tivesse migrado junto com ele pra TV. Meu avô me provou o contrário. Ele sequer sabia quem era PC Siqueira, e talvez nem soubesse o que era MTV. Mas ele sentou pra assistir, e no dia seguinte ainda me perguntou que diabo ele estava assistindo, porque curtiu.

Tá fácil curtir a TV mesmo, quando tudo agrada a todos. A televisão não arrisca. Não foca num segmento só, pra não correr o risco de perder seus telespectadores. Num mesmo programa, eu vejo drama, comédia, terror, e um pouco de jornalismo, pra fingir que é todo mundo culto. Mas o que mesmo eu queria ver quando liguei a TV? Sei lá. A TV também não me faz pensar no que eu queria ver. Ela me bombardeia com tudo de uma vez, e eu saio com a sensação de “achei o que estava procurando”. Acho que a gente nem sabe mais o que estava procurando. A gente já acha tudo de mão beijada mesmo.

Na verdade, a gente vê tudo e não vê nada. Ao mesmo tempo. Conteúdo é uma coisa questionável, e quase inexistente em grande parte das vezes. Não por completo, é claro. Mas presta atenção e me diz se não é verdade que a gente, muitas vezes, é feito de trouxa, acreditando que o programa acertou em cheio na nossa vontade quando, na realidade, ele acertou em cheio na vontade de todos, porque colocou de tudo um pouco na pauta. A gente não se aprofunda em assunto nenhum. Não dá tempo. A gente vê todos os assuntos em meia hora, sai bombardeado de informações que são até irrelevantes mas, como em uma fração de segundos a gente teve o que esperava, sai com a sensação de missão cumprida ao selecionar este ou aquele canal. Não que a gente seja enganado, mas que a gente caiu numa vala em que cabe todo mundo, ao mesmo tempo, achando o espetáculo perfeito para si, a gente caiu. E parece que a gente tá feliz a respeito.

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  • Minha mãe de 35 anos também adora o PC Siqueira , e meu avó não sabe nem oque é PC.

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