Meu Sério Problema com Cinema Brasileiro – Lula e o Oscar

Clássico é Clássico segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ok, ok. Até agora eu perambulei por alguns dos maiores clássicos nacionais, apontando seus vícios e problemas que tornam o Brasil – um país com uma potência cinematográfica exorbitante – em motivo de piada. Mas hoje eu vou falar de um, e apenas um filme, que com certeza não vai se tornar um clássico. Enquanto nas últimas décadas a indústria argentina e mexicana despontam na América Latina (Não vou nem chegar ao mérito de discutir que um filme peruano, A Teta Assustada, levou o Urso de Ouro e concorreu ao último Oscar, uma vez que ele aborda a estética da fome tanto quanto o Brasil – embora se assemelhe mais ao Irã (Potência de destaque do cinema mundial) – e cuja pobreza dá o tom da história, mas sem motivar o protagonista a certas ações, a Terra Brasilis continua em uma mesmice sem fim.

Calma aí. Acho que estou sendo positivo demais. Esse último ano apontou a decadência da indústria nacional. Quer a prova?

A escolha da cinebiografia do presidente Lula para representar o Brasil na briga por uma vaga no Oscar pode ter sido consensual entre os membros da comissão de seleção, mas não representa a vontade dos internautas que votaram em uma enquete popular promovida no site do Ministério da Cultura entre os dias 8 e 20 de setembro.

Para as pessoas que votaram, o candidato brasileiro à estatueta deveria ser o filme “Nosso lar”, de Wagner de Assis, que recebeu 70% do total dos cerca de 130 mil votos. Em seguida, outro filme inspirado na doutrina espírita, “Chico Xavier”, de Daniel Filho, com 12% dos votos na enquete.

“Lula – O filho do Brasil”, superprodução considerada um dos filmes mais caros do país, recebeu apenas 1% dos votos na enquete do MinC, atrás de filmes independentes como “Os famosos e os duendes da morte”, “O grão” e “Antes que o mundo acabe”.

Fonte: G1

Eu juro para vocês que ainda não consegui decidir o que é pior na situação que se deflagrou. O fato de OITENTA E DOIS porcento dos votos terem se resumido em dois filmes – soníferos (E com sérios problemas de atuação) – cujo maior (Pra não dizer único) mote foi a propagação da doutrina espírita. Ou seja, é como se o cinema pudesse ser descartado e utilizado apenas como panfleto. É ignorar direção, roteiro (Webcams espirituais, né, Uiara?), atuação, um orçamento que poucas vezes se viu no cinema brasileiro, e criar uma obra panfletária. Esqueçam meus períodos de Theós é TangaA Felicidade Não se Compra está no Top 100 do bacon, cáspita. Fora que vocês têm noção das portas que isso abre para uma possível tomada do cinema brasileiro por filmes evangélicos?

Brasil: País da tolerância do sincretismo da suruba de religiões.

Antes fosse, porém, esse fosse o único problema com a tal reportagem. O que cacete um outro filme panfletário está fazendo como nosso representante no Oscar? Sério, quantos países você já viu com um filme sobre o presidente da atual gestão, em uma conjuntura que não seja de ditadura? Tirando W, que é uma crítica monstro do Oliver Stone, sobre a gestão Bush. Nada contra o “cumpanhêro Lula”, sério. Antes um filme dele do que da “Dilma capetinha”, Serra, a.k.a. Nosferatu ou da Heloísa “eu acredito em Adão e Eva” Helena.

 Esses são os países em que você espera que a Agência de Cinema promova filmes de seus atuais líderes.

E o pior (Ou deveria dizer, o menos mal) é que o presidente NADA tem a ver com isso. O problema disso é uma mixagem dos últimos dois temas que eu abordei: Ufanismo e estética da fome. Sabendo dessas duas tendências, você consegue imaginar um cenário melhor do que a de um presidente cujas pesquisas mostram a maior popularidade da história e uma história sofrida (Com a qual a maior parte da população pode se espelhar)? É quase um Nelson Mandela, sem a parte de ter salvado um país do auto-extermínio e ter ensinado uma lição valiosa para humanidade, se tornando uma das pessoas (Se não a mais) importantes do século 20. Quase. A partir daí é fácil entender a decisão (Presepada) de eleger o filme do Lula – afinal, ele também foi chamado pelo Obama de “presidente mais popular do mundo”. O Lula é pop. E o cinema do Brasil continua afundando. Teremos que sobreviver de Cidade de Deus e Tropa de Elite eventuais para darem uma revitalizada na “indústria nacional”?

Ps. O Jornal “La Nacion” disse o seguinte de “Lula, El Hijo del Brasil”:

Cada episódio da vida do presidente do Brasil é mostrado como se fosse um manual de História escrito por seu biógrafo oficial.

Isso não te lembra alguma coisa?

 Uiara… te avisei que fazer casting era uma das coisas mais divertidas ever.

Ps2. Senhoras e senhores, apresento-lhes a pior linha da história do cinema:

O senhor tem que ser forte. Seu filho nasceu morto. O senhor vai ter que ser mais forte ainda. Sua mulher também morreu.

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Antes de comentar, tenha em mente que...

...os comentários são de responsabilidade de seus autores, e o Bacon Frito não se responsabiliza por nenhum deles. Se fode ae.

  • D

    Putz, meio fora parte da sua avaliação vassourada.

    O filme “Nosso Lar”, assim como o filme “Chico Xavier”, são ótimas produções. Bem melhores que “Resident Evil 4 (ou 3)”, que “Mercenários” e outros que tenho visto recentemente. São filmes para quem não precisa de ação constante, verdade. São filmes para quem quer ver histórias simples, verdade. Espalham a doutrina espírita, verdade. Contudo, não deixam de ser gostosos de se ver. Eu, pelo menos, tenho de dizer que saí do cinema achando que meu dinheiro foi bem gasto. Foram filmes que me emocionaram, me divertiram… tudo de uma forma muito familiar. Diferentemente do que com a porcaria do Resident Evil 4, que eu não vejo de novo nem que me paguem ¬¬

    E, pensemos bem, não importa que os filmes sobre espiritismo abram espaço para os evangélicos. Se eles quiserem fazer os filmes religiosos deles, que façam. Não vão ser muito diferentes dos filmes da igreja católica sobre a bíblia.

    Não vai ser criando medo de que eles entrem no mercado (coisa que já podiam ter feito séculos, vez que estão cheios de grana a um bom tempo), ou a falta de filmes pregando filosofias, doutrinas e religiões que vai atrasá-los caso eles assim queiram. De fato, só vai servir para instigá-los ainda mais, pois poderão dizer para os seus fiéis seguidores: “VÃO VER O FILME DE NOSSO SENHOR, POIS OS DEMÔNIOS QUEREM IMPEDIR QUE ELE SAIA ! VÃO !” E seguir nessa ladaínha.

  • Ah, cara… Sobre essa enquete tem muita coisa que tem que ser levada em conta. Não vou argumentar sobre a qualidade dos filmes citados, até porque não assisti nenhum. MAS…

    Enquete que pergunta para qualquer brasileiro (infelizmente são poucos que tem uma opinião formada, que realmente entendem de cinema) sobre cinema já era de se esperar esse resultado, pela pessoa que foi o Chico Xavier, e não pelas questões cinematograficas do filme em questão.

    Outra coisa é a divulgação da Globo, que é direitista, contra o filme do atual presidente, em ano eleitoral

  • Uiara

    D, nada contra que os evangélicos façam filmes, contanto que respeitem a decência de um bom roteiro, direção e atuação.

    Infelizmente, católicos, espíritas (ou qualquer uma das religiões que tenha feito um filme no Brasil) não conseguiram atingir ninguém fora da bolha de suas igrejas exatamente porque fazem um filme PRA IGREJA. Ou no máximo um tipo de “Telecurso 2000 – Além” da parte do Nosso Lar, que tenta dar uma aula metódica e simpática sobre como é a vida após a vida.

    É um filme ruim, assim como foi o Chico Xavier, ou o Bezerra da Silva, ou Maria, mãe do filho de deus (que começa ruim pelo nome). Resident Evil é mesmo uma bomba, mas ao menos você não vai ver um fã defendendo com algo como “ah, mas é lindo ver a doutrina espírita, digo, dos games se espalhando. Você que não tem FÉ, digo, um bom cartão de memória, então não entendeu”.

  • Uiara

    E Pedro, amore, se você for dirigir minha concorrida biografia, faz o favor de ignorar que eu só vou colocar silicone depois dos 40 e escale uma peituda de olhos verdes desde o princípio.

  • K

    Quem jogou os jogos da série que critica os filmes do Resident Evil. Eu joguei e sou de boa quanto a isso. Afinal, desde o primeiro, o “Hóspede Maldito”, ficou claro que era uma adaptação, e não o jogo narrado com atores ao invés de polígonos. Quem nunca jogou acha um filme de ação bacana. Tudo isso depende do quão mala você pretende ser, afinal, os últimos volumes (o 4 e o 5) ficaram um lixo por si só. KD ZUMBIS

  • vassourada

    Tinha certeza que ninguém ia perceber que eu coloquei Heloísa Helena no lugar de Marina Silva. Não que isso seja importante, claro.

  • Acho que todos esses comentários estão sem foco. Muito pior que filmes espiritas e adaptações de jogos é o filme do Lula ser eleito pra concorrer ao Oscar.

    Um filme merda ser votado pelo povo como o melhor filme do ano é péssimo, mas um filme merda ufanista sobre o atual presidente do país ser escolhido por um ministério do próprio governo para concorrer a qualquer coisa é uma vergonha. Não só da indústria cinematográfica nacional como da ética do nosso querido governo. Mas pensando bem, nesse ponto, não é nada além do que já vemos toda hora. Triste.

  • Jade

    Em algum lugar eu li que a decisão pelo filme “Lula – O….” NÃO foi política. A-HAM.

    Mas a briga é tenÇa se olharmos as opções. Fui criada na doutrina espírita e posso garantir que é pura panfletagem mesmo. Não se trata de má-fé. Mas o foco não é a arte de maneira alguma e sim a divulgação do espiritismo. Logo, seria injusto filmes medíocres (do ponto de vista cinematográfico crítico) como tais concorrerem ao Oscar (maior premiação da 7ª arte… em tese). Se fosse prêmio publicitário, vá lá.

    Se torne logo cineasta, Pedro! A situação é emergencial! uhahuauhauhuha

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