Meu Sério Problema com Cinema Brasileiro – Estética da Fome

Clássico é Clássico segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Na última coluna, vimos que alguns dos mais conhecidos filmes brasileiros como Lula – Filho do Brasil O Que é Isso Companheiro? e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias vivem em um ramo da indústria cinematográfica nacional em que é muito difícil não absorver algo dos “filmes histórico-didáticos” produzidos. Recomendo que todos assistam ambos os filmes e depois comparem com o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro desse ano, o argentino O Segredo de Seus Olhos. Mas deixemos assuntos passados para o passado.

Hoje vou falar do, possivelmente, maior problema do cinema nacional. Um problema que se alastrou de tal forma, que a nata das produções brasileiras está completamente imersa neles. Falo de clássicos como Central do Brasil, Cidade de Deus, Cinderela Baiana, Tropa de Elite, Rio, Zona Norte, Rio 40 Graus, Terra em Transe, Vidas Secas, Auto da Compadecida, Pixote – A Lei do Mais Fraco, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Até mesmo a obra prima em forma de curta Ilha das Flores.

Todos clássicos, cujo mote ou plano de fundo são a pobreza.

O que é Estética da Fome?

Lá pros idos da década de 60, o mais famoso diretor brasileiro, Glauber Rocha, entusiasta da idéia “uma câmera na mão, uma ideia na cabeça”, parou um pouco para pensar. Todos os países de indústrias cinematográficas fortes até aquela época já tinham mostrado suas particularidades e forças através de seus movimentos cinematográficos – o expressionismo na Alemanha, o cinema comunista na União Soviética, o neorealismo na Itália, a, então recente, nouvelle vague na França (Já no finalzinho da década de 50). E Glauber pensava – o que de original e particular que o Brasil, e não só ele, a América Latina, tem a oferecer para o cinema mundial? A fome. Acreditava ele que a fome latina não era só um problema, mas o núcleo da própria sociedade. Uma miséria, cujo fato de sentirmos, não permite que paremos para refletir sobre ela. Então o que fazer? Explorar esse tema, já que seria impossível falar da sociedade brasileira sem tocar no assunto.

 Agora já sabe em quem seu professor de história se inspirou?

Somos fascinados pela pobreza?

Pronto. Estava definido os rumos do cinema nacional. Tirando os filmes históricos (Ou mesmo reivindicatórios, no que se diz a ditadura) e as adaptações literárias, considerando que ambos, muitas vezes, ainda deixam a questão da fome impregnar sua própria existência, a temática se tornou o núcleo da filmografia brasileira. E encontrou um parceiro – a violência. E isso se tornou uma marca tão forte da sociedade brasileira, que hoje, no Rio de Janeiro, turistas vêm visitar (Em carros de safári!) as favelas. Hoje, a imagem da pobreza é um dos principais produtos de exportação do país. Mas o mercado nacional também está bem abastecido – programas de TV assistencialistas, votos sendo vendidos por cestas básicas, programas jornalísticos dedicando metade de seu tempo em explorar a pobreza alheia… E o cinema nacional levanta essa bandeira, mais alta do que nunca. Basta ver que os últimos dois selecionados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, feitos pelo próprio Ministério da Cultura, foram Última Parada 174 e Salve Geral. Para variar, nem chegaram entre os cinco indicados finais, vencidos respectivamente pelo belíssimo filme japonês A Partida e pelo espetacular filme argentino (É, eu sei) O Segredo de Seus Olhos.

E o mais irônico é que o próprio público brasileiro, em sua grande maioria, reclama dessas indicações. Não raras são vistas mensagens como a do leitor do G1, Salmo Nascimento, comentando a escolha de Salve Geral como representante brasileiro ao Oscar:

Filme brasileiro só mostra favela, é fácil pro diretor fazer um filme desses, é só ir lá, pagar um salame pra meia dúzia de vagabundo para ser figurante, colocar uma câmera, um pivete com uma arma na mão roubando todo mundo, depois cresce vira traficante e morre. Lixo.

O Pagador de Promessas: o ícone que se tornou modelo.

Ouso dizer que o causador de todos os problemas da nossa indústria cinematográfica se chama O Pagador de Promessas, de 1962. Um filme sobre a ingenuidade do povo brasileiro, pobreza do nordeste, incongruências da cultura religiosa nacional, o poder da igreja, preconceitos disfarçados devido à mistura de raças, o sebastianismo (Espera por um salvador) intrínseco, as artimanhas da mídia, a cultura da malandragem, a memória curta do povo, a reforma agrária… Enfim, uma reunião dos maiores problemas nacionais, todos mostrados em um dos melhores roteiros já escritos em terras brasileiras. Não a toa que foi o primeiro filme exclusivamente brasileiro a ser indicado ao Oscar.

Um filme lendário, icônico. Mas cujo sucesso acabou por perpetuar um sem fim de obras que abordam as mesmas temáticas, sem nada a adicionar. E o pior: A estética da fome podia ter se encerrado nesse filme, antes mesmo de começar. Não que ela tenha sido ruim para o cinema brasileiro, mas ao contrário do que aconteceu com os movimentos de outros países, aqui no Brasil, ela saiu do controle e se tornou presença recorrente em nossa cultura. Só ficando de lado no período das pornochanchadas, mas essa é uma época que é melhor esquecer…

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