Lendo de trás pra frente

Livros terça-feira, 29 de julho de 2014

Ler é um troço monótono e repetitivo por si só: Você abre o livro, revista ou o que quer que seja, prende os olhos lá na primeira linha e passa para a linha de baixo quando acabou a primeira; repete isso até o final da página, a vira, e começa de novo, folha após folha, até o final do livro. A graça de ler está no quê se lê, não na leitura em si, e isso é um daqueles problemas irrelevantes pra gigantesca maioria da população e que alguém oi, prazer tem que fazer alguma coisa sobre isso.

 Ahh, internet.

E como minha arma secreta, vou usar o maior clichê possível, pelo simples motivos de não estar com saco pra pensar em nada diferente. Não, “ler de trás pra frente” não é ficar de frente pro espelho e tentar tirar alguma mensagem secreta do texto, isso não funciona… Pelo menos não até a Xuxa resolver escrever uma autobiografia. “Ler de trás pra frente” aqui se refere simplesmente a abrir na última página da história, lê-la e aí passar para a penúltima, e assim consecutivamente que nem se lê mangá só que no mangá na verdade você começa pelo lado certo e vai do começo para o fim, mesmo que o começo do mangá seja o nosso fim e o fim do mangá seja o nosso começo, então só é como ler mangá para nós, já que ler como nós, para o mangá, é ler de trás pra frente também.

Claro que há livros que fogem do padrão, mas são relativamente raros. Coletâneas, por exemplo, não são obras fechadas, afinal, simplesmente foram organizadas, não escritas como uma obra. Obras de poesia e contos, ainda que escritos como uma obra, de forma geral, podem ser lidos na ordem que for. Talvez o maior exemplo de livro que não precisa ser lido em ordem, na literatura nacional, seja Vidas Secas, com seus capítulos independentes. Mas aí que mora a questão: Em todos eles você começa a ler pelo começo do poema, pelo começo do conto e no início dos capítulos, e a proposta aqui é justamente ler ao contrário, página após página.

É aqui que admito minha falha: Nunca li um livro de trás pra frente, pelo motivo óbvio de que é algo idiota pra caralho de se fazer. Ou pelo menos é algo idiota de se fazer com a maioria dos livros que temos: Fiz uma pesquisa rápida aqui e não me lembrei nem descobri livro nenhum que tenha esse tipo de maleabilidade. E faz sentido não ter: Histórias, ainda que não sigam uma ordem cronológica, são feitas para serem lidas do começo, não pelo fim, do mesmo que jeito que os capítulos/contos/poemas/etc. também o são, individualmente.

Mas, caso você já tenha lido alguma coisa que eu escrevi um beijo, Octavio, já deve ter notado que eu sempre quero ver algo diferente, não só em relação às histórias, mas ao próprio uso da mídia em que ela está, na escrita principalmente, mas também nas outras mídias. E, afinal de contas, um livro que possa ser lido em ambos os “sentidos” seria no mínimo interessante: Você pode ler normalmente, ler de trás pra frente, e “criar sua própria obra”. Isso é algo que uma galera vive falando mas que, até agora, pouca gente levou à sério: Taí a sua resposta de porquê o Saramago não pontuava, acentuava e paragrafaseava (Sim, esta palavra existe) porra nenhuma.

E numa “obra de mão dupla” isso seria levado à um limite interessante: Pensem nas possibilidades de leitura disso. Por exemplo, começa-se pelo meio do livro, lê-se três páginas normalmente, pula 10, e volta lendo-as de trás pra frente. Em duas folhas, quatro páginas, há pelo menos 8 modos diferentes de leitura: Eu não vou fazer essa conta, ela chega facilmente à casa dos milhões. E isso porque estou considerando páginas, dá pra despirocar foda e levar o troço ao limite do bom senso, a cada linha, palavra e até letra. Só que não há como negar: Seria um inferno escrever algo tendo que considerar essas possibilidades.

Eu sei que você cantava isso sem saber o que significava.

Então, a pergunta título: Algum dos senhores já leu algo de trás pra frente? Mesmo sabendo que a coisa não foi feita pra isso? Mesmo tomando tudo que é spoiler do fim da história, mesmo não entendendo os diálogos, mesmo sabendo que, quando chegar no começo, provavelmente não entendeu nada do que leu? Porque é o tipo de coisa que só se nota depois de testar, e a verdade é que, pelo menos pessoalmente (E, creio, todo mundo), prefiro simplesmente ler o que quer que seja uma única vez e do jeito “certo”… Quero dizer, a leitura pode ter sido uma porcaria e ter gasto seu tempo, mas pelo menos fez algum sentido.

Vou apelar para mais um clichê, ou melhor, dois: Se alguém souber de alguma obra que possa ser lida assim, que deixe nos comentários, e pra quem é autor, fica o desafio. Já falei várias vezes que quero a expansão das mídias, mas de bate-pronto assim não lembro de nenhuma que busca tal expansão: Histórias melhores, personagens melhores, criatividade, adaptação… A lista continua, mas o modo é o mesmo, e, dentro de algum tempo, este será o grande dilema, e, claro, aí já vai estar tudo na merda.

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  • visitante

    quando eu leio os seus posts, é sempre de trás para a frente.

  • Loney

    Não sei se fico triste ou alegre

  • seu Warner da tabacaria

    Jogo de Amarelinha de Julio Cortázar não é exatamente isso, mas tem uma proposta de poder ser lido em várias ordens diferentes, o que produz histórias diferentes.

  • Loney

    Irei checar

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