As mídias e as massas

Livros terça-feira, 08 de abril de 2014

Tava outro dia, suaves e de boas, deitado na rede, aproveitando a vagabundeagem de vida, quando ocorreu-me um pensamento: Os livros nunca foram um instrumento de massa, já a TV e o rádio, sim. Acreditem, pode parecer estranho falando assim, mas eu vou explicar. Ignorem este parágrafo tosco e leiam o resto.

Só pra dar aquela ilustrada.

Chegamos à um ponto em que temos várias mídias: TV, rádio, livros, internet, CDs, quadrinhos, cinema… A lista continua, e a tendência é sempre aumentar. Não, não precisa se preocupar, nenhuma delas vai desaparecer só porque outra faz a mesma coisa. O vinil é o grande exemplo disso, e seu “sucessor”, o CD, continua firme e forme, mesmo que já tenhamos DVD e blu-ray.

E, como não poderia deixar de ser, cada uma surgiu de um jeito: O cinema foi uma evolução da fotografia, a internet foi uma evolução a partir do telefone, os quadrinhos vieram da mistura entre livros e pinturas. Vejam, a comunicação é o ponto inicial. Essa é a função das mídias: Permitir a comunicação (Ainda que “unilateral”), mas é aqui que entra a questão “quem?”.

 Só eu cago horrores pra isso?

Como se faz, por exemplo, para usar a TV? Você fica de frente pra ela, e a olha. Pra usar o rádio você o liga e escuta. Pra usar um quadro é igual à TV, pra ouvir um CD é igual ao rádio: São atividades passivas. Você não tem que fazer absolutamente nada para usar nenhuma dessas mídias, a não ser se dar ao trabalho de usá-las. Não que não possa (E talvez deva) haver ações ativas no que se relaciona à elas (E não estou falando do fantástico e revolucionário Orbitrek Elite), mas não é necessário. Por outro lado, ler é uma ação ativa. Para usar um livro, um quadrinho e até mesmo a internet você precisa saber ler, e isso faz toda a diferença.

Desde o começo, quando surgiu a escrita e, com o passar do tempo esta se desenvolveu, formando alfabetos e textos completos, era algo limitado. O analfabetismo é uma questão mundial até os dias de hoje, e por milhares de anos era considerado absolutamente comum: Só quem precisava ou tinha muito dinheiro aprendia a ler e escrever. A escrita sempre foi um exercício de uma elite, não financeira ou social, mas intelectual, e mais do que manter esse conhecimento restrito, quem não fazia parte dessa elite não se interessava em aprender.

Claro que essa visão mudou através do tempo, mas como diria seu professor de história, “é um processo”. Ainda vivemos num mundo em que nem todo mundo tem acesso à educação e em que nem todos querem ter acesso e/ou vão utilizar o acesso que tem. E apesar de a maioria das pessoas no mundo saber ler e escrever, ainda conta-se as que o fazem realmente bem, que compreendem o próprio idioma, que leem em público sem travar: As pessoas sabem ler e escrever, mas só. E você tem que saber bem mais que isso se quer fazer parte de uma elite.

Independente da sua crença, há de se convir que, por milhares e milhares de anos e, ainda hoje, o conhecimento baseado na religião foi (E é) uma das maiores ferramentas de controle de massa: Dos gregos antigos à igreja Católica, da bênção dízimica evangélica da sua tia aos sacrifícios humanos no Egito antigo, o conhecimento transmitido por textos sagrados eram o instrumento mais poderoso possível. Logo de cara me lembro de O Livro de Eli e O Caminho para El Dorado, que tratam do assunto.

Não que todo conhecimento não seja importante e que tenha seu valor útil, mas se todo mundo sabe de alguma coisa, seu valor cai. Aliando então a falta de conhecimento sobre a escrita e o conhecimento passado pelo material, tem-se o necessário para criar uma demanda: É diferente, pouquíssima gente sabe que aquilo está disponível para todo mundo… É a melhor condição possível. A elite não é a elite à toa, e vai continuar sendo enquanto o resto não se der conta das possibilidades ao seu alcance.

 Eu sei, eu sei.

E essa é, provavelmente, a grande diferença: A mídia escrita sempre foi, e ainda é, mais exclusiva que as outras. O rádio é o aparelho de comunicação mais vendido no mundo, a TV está presente em tudo quanto é casa (E Kombi, barraco, caixa de papelão, viaduto…), a pintura (Seja de telas, seja de muros) é parte do dia-a-dia de todo mundo: Todas essas mídias foram criadas com o intuito de se comunicar com a massa. Claro que elas têm suas particularidades e claro que já foram mais restritas do que são hoje, mas desde o começo elas são feitas com a intenção de passar uma mensagem para uma massa, não para um grupo reduzido.

Aí que mora a grande ironia: A comunicação, ao menos em tese, serve para difundir informação, e quanto mais uma informação se espalha, melhor a comunicação por trás dela. De forma bem simples, desse ponto de vista, a mídia escrita é pior como meio de comunicação em relação às outras. A TV é o principal meio de informação nos últimos 50 anos; o rádio foi o maior antes da TV e continua até hoje como meio de entretenimento [Nota do editor: O rádio tem um alcance muito maior que a TV, é só ver que os únicos seres humanos que não tem acesso à um rádio são tribos indígenas totalmente isoladas e velhos excêntricos. Já a TV é mais fácil de não ter.]; o cinema surgiu pequeno e hoje está presente em todos os países do mundo, com produção de filmes de todo o mundo; e é até covardia falar da música. Por outro lado, os jornais impressos lutam contra várias outras mídias e estão perdendo; os livros estão ficando mais caros, ainda que vendam mais; os quadrinhos vem crescendo mais como arte do que como instrumento de comunicação; eu acho um milagre que ainda façam revistas sobre videogame.

 Quem nunca?

Este texto todo é meio cínico, já que considera como função da mídia apenas a transmissão de conhecimento e informação e, claro, elas não fazem só isso. Ainda assim, esta é a função primordial delas, e eu poderia ficar horas falando sobre como uma obra sobre cupcakes faz parte da cultura e da época em que estamos, mas foda-se: “Eles gostavam desses bolinhos frescos há 40 anos, que pitoresco e antiquado”. A comunicação, seja como for e sobre o que for, é uma das coisas mais importantes para a civilização, e não é exagero colocá-la ao lado da invenção da roda e do domínio do fogo.

Eu sinceramente não sei como encerrar este texto, porque o melhor a se fazer agora seria falar um pouco do futuro dessas mídias… A questão é que eu não sei o que vai acontecer. Creio que a direção normal seja uma mistura ainda maior entre elas (Afinal, você está lendo isto na internet), mas eu não tenho ideia de como isso vai influenciar individualmente cada uma… Isto é algo raro: Eu não quero me comprometer afirmando alguma coisa aqui. O século XXI ainda está no começo, e eu não tenho certeza se será o século da comunicação, como se achava que seria, no final do século XX. É esperar pra ver e terminar o texto numa frase genérica.

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  • ana

    O texto ficou uma bela bosta. Falou, falou, e não disse nada.

  • monalisa

    Eu gostei do texto. É engraçado essa coisa de elitista. Na verdade nunca tinha visto este termo até entrar na faculdade, e ainda acho isso uma bela bosta. Mas é como se todos os universitários fizessem um desfile de cérebros. “Olha como o meu hipotálamo é imponente!”
    Vai entender

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