Vandalismo sonoro que, se te pega, te mata

Música sábado, 14 de janeiro de 2012

E aí eu passo uns dias na praia, e pra TODO LUGAR QUE SE VAI, se escuta O QUÊ?

Delícia, delícia, assim você me mata.
Ai, se eu te pego.
Ai, ai, se eu te pego.

Poesia pura. Nos dias de hoje, é claro. Mas isso não é nada de novo. E aí a gente questiona o que tem qualidade e o que não tem. O bagulho toca loucamente, freneticamente, desesperadamente em TODAS as caixas de som que tu possa imaginar. Isso quer dizer que o negócio é bom? Não. É ruim pra caralho. Mas o povo gosta. Ou se acostuma.

O negócio é que, até pouco tempo atrás, o nosso medo de sair na rua era do vandalismo, dos assaltos, dos arrastões, daquele caos que a gente sabe que faz parte do dia a dia do Brasil e rola o tempo todo na pauta do Jornal Nacional. Mas, agora, tu tem que ter medo de te deparar com as drogas. As sonoras. Tu dá dois passos, e tem nego com Michel Teló a todo vapor na porta da loja pra atrair consumidor. E atrai. Tu passa na rua, e tem criatura com a musiquinha do momento tocando, povo cantarolando. Michel Teló orkutizou.

Michel Teló é o cara. Tanto que já é o segundo post aqui sobre o cara só esse ano. A gente já viu no texto do Ricardo que o cara é gênio, e faz música programada pra ficar forever na tua cabeça, te atormentando e fazendo a fila dos psicólogos aumentar ohwait. A gente tá no verão, a estação da perdição. É a época feita pra galera ser babaca e se soltar por aí. Não, não estou dizendo que o mundo inteiro se torna imbecil, mas o calor, as festas e os bons drink em excesso ~culpa do calor~ fazem com que a galere vá além dos limites. E aí surgem essas belezas, tipo o moço do Ai, se eu te pego.

Tá bom. Agora imagina um verão sem hit brega, tosco ou do capeta. Pode? Não pode. Se toca, tu reclama. Mas, se não tem nada bizarro on por aí, tu reclama mais ainda. Acho que dá pra concluir que esse tipo de som nada mais é do que a válvula de escape pra correria desses começos de ano. Surge alguma bizarrice, a gente reclama, solta todos os demônios em cima de uma música ou alguma causa popular, e depois deita a cabeça no travesseiro sossegado. Ninguém mata, ninguém espanca ninguém na rua. Só mesmo o pobre do cantor que é a cara do Leandro Leal é xingado até a morte. Simbólica, claro.

Não adianta: Tem coisa que não pode mudar. É o mesmo que a gente esperar que a época do Natal não tenha o hit demoníaco da Simone, dizendo aos quatro cantos que então é Natal e Ano Novo também. Imagina se a Globo não tivesse passado o especial de final de ano do Roberto Carlos? Ia rolar suicídio em massa. For sure. Agora imagina se tu tá na rua e não ouve mais a galera fazendo piadinha com as delícias da vida? O negócio é que a gente se apega. Por mais que a gente não curta, existem rituais que a gente tem que passar. Não porque é lei, mas porque a gente está habituado, e fazer diferente significaria perder um pouco do brilho que tem em torno de situações específicas. No caso, o verão.

Vandalismo sonoro? Certamente. Tem quem goste, claro, mas esse abuso de nossos ouvidos repetindo em loop infinito uma música de um cara que usa como argumento pra uma cantada que a mulher é uma delícia não pode ser um hit de adoração, ou quase um mantra do verão. Gosto não se discute, mas esse excesso não é em decorrência de se gostar: É decorrência de termos nos acostumado a sermos invadidos por coisas que não concordamos e nos faz viver numa violência sonora avassaladora, como já diria o Sr. Vitinho Sou Foda.

Ouvimos, odiamos, reclamamos, mas não vivemos sem. Sai ano, entra ano, sai hit, entra hit. É assim. E não deve mudar. Não enquanto não formos surdos. Ou enquanto o Michel Teló não pegar a delícia dele e ela não matar ele.

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