Por que The Dark Knight Rises não foi o melhor filme do ano

Cinema segunda-feira, 07 de janeiro de 2013

E o ano acabou e começam a pipocar as listas de melhores/piores filmes do ano, mas Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge com certeza pode muito bem entrar em qualquer uma dessas listas. Vi o filme várias vezes e descobri que muitas questões e problemas ainda permanecem em minha mente. O que é consistentemente desconcertante sobre esta pretensa obra prima de Christopher Nolan é a disposição que as pessoas tem para perdoá-lo por ter feito um filme com tantos problemas de edição e roteiro, crimes que colocariam qualquer outro diretor na prisão. Mas Nolan não. Em Nolan nos confiamos. De qualquer forma, aqui estão os 13 maiores problemas que tive assistindo The Dark Knight Rises. Alguns destes são grandes falhas, enquanto que outros são pequenas gafes. Dois avisos antes de prosseguir: 1) SPOILERS e 2) Se você acha que vai ser perturbado por este artigo, com base apenas no título, é provavelmente uma boa ideia que você apenas siga sua vida e não o leia.

1 – Quando e como Bane descobriu a identidade de Batman e a divisão de Ciências Aplicadas da Wayne Interprises?

Quando Bane e Batman se encontram pela primeira vez, Bane conhece sua verdadeira identidade. Não somente isso, ele sabe até mesmo dos pontos fracos de Bruce Wayne (Como no momento em que ele o golpeia em sua perna ferida). Suponhamos: Ele deve ter pego todas essas informações com Talia Al Ghul, sua chefe, que provavelmente as pegou com Ra’s Al Ghul, pai dela. A parte ruim é que se pararmos pra pensar, o cronograma não se encaixa. Talia Al Ghul e Bane foram treinados quando Talia era jovem e escapou do poço (Ela provavelmente tinha cerca de 12 anos). Ela e Bruce parecem ter quase a mesma faixa de idade (Sendo Bruce um pouco mais velho, talvez uns 7 anos), assim ela teria cerca de 15 anos na época que Bruce conheceu Ra’s em seus 20 e poucos anos. Bruce então o mata poucos meses depois, quando Ra’s chega a Gotham. Então, será que Ra’s usou sua filha em algum ponto como um plano B, lhe dizendo que Bruce é o Batman para em seguida lhe dar a idéia de se tornar um membro do Conselho Empresarial Wayne (Mesmo antes de o dispositivo nuclear existir), prevendo que seu plano em Batman Begins iria falhar? Parece que pra Nolan essa explicação ser mais concreta do que está não era tão crucial assim. Pois, como ela ou Bane sabiam da existência da divisão de Ciências Aplicadas na Wayne Enterprises, onde se encontrava o arsenal do Batman e sua localização específica no edifício? Pura sorte? Eu não acredito, porque Bane já estava construindo seu esconderijo logo abaixo do arsenal e mostra claramente que sabia o que estava fazendo. Cinematograficamente, funcionou muito bem, só que não. Então quem sabia de tudo isso e poderia ser o responsável por esse vazamento de informações? Lucius Fox? Afinal, ele mesmo disse que o departamento de Ciências Aplicadas estava “completamente fora dos livros.”

2 – Blake conclui que Bruce Wayne é o Batman

WTF, caraleos? Como assim? Primeiramente, será mesmo que alguém iria “ver”, só olhando para o rosto do Bruce Wayne, que ele era o Batman. E mesmo que isso não fosse de todo implausível, o fato de que isso acontece no primeiro ato do filme é um forte indicador de problemas com o roteiro (Ou seja, a necessidade de adiantar o desenvolvimento da trama tanto quanto possível). Em qualquer outro filme, como uma revelação viria normalmente após o fim de algum tipo de interação prolongada entre esses dois personagens, onde pode ser um pouco compreensível que um personagem viu a verdade no outro. Aqui, eles tiram o roteiro do caminho certo desde o início de uma forma tão abrupta que não tem ressonância emocional qualquer. Quase uma blasfêmia. Além disso, se Blake foi capaz de descobrir isso tudo, porque ninguém mais o fez? Como uma questão separada, no final do filme, praticamente todos os personagens principais já sabem que Bruce Wayne é o Batman. No momento em que o Comissário Gordon finalmente descobre tudo, eu não penso mais “Uau, que momento revelador!” Em vez disso, eu pensei, “Finalmente, elementar hein cara? Até que enfim”.

3 – Bruce Wayne/Batman está fudido, depois ressurge, depois se fode denovo, depois ressurge…

Wayne começa este filme cheio de problemas, na decadência, o que é corrigido com um timing bacana, porém muito mecânico. Perdemos muito tempo vendo ele se reerguer, e ficamos muito felizes de vê-lo finalmente chutar uns traseiros de novo… Só pra ver ele se ferrando totalmente e ficando incapacitado por causa do Bane, gastando assim quase dois terços do filme. No início, eu pensei que isso poderia ser brilhante, corajoso, sem precedentes: E se o Nolan realmente levar o herói na seqüência da batalha final a um clímax? Mas não, acontece que só temos mais um monte de filme pra ver. Temos que vê-lo novamente se recuperar, encarando Bane no final (E que morte legal que teve o Bane hein? Era melhor ter sido morto pelo Zé Pequeno em Cidade de Deus). Porra, pra quê então ter que ver Bruce Wayne passar por isso duas vezes no arco de um filme? Para uma minissérie ou um programa de TV que poderia ter sido bem trabalhado, mas no curso de um filme que eu só senti que foi prolongado e desnecessário. Eu não sou médico, mas tenho a sensação de que uma coluna quebrada leva mais do que apenas poucas semanas, algumas cordas, e umas porradas nas vértebras para corrigir. Alguns leitores vão achar que foi muito mais que duas semanas, mas ainda não é uma estimativa para uma versão do mundo real da lesão de Bruce. Nolan cagou no pau quanto a isso (E fora a questão do joelho machucado, consertado por Alfred).

4 – Alfred diz adeus a Bruce

Eu presumo que isto era pra supostamente ser um momento monumental, um momento em que esta presença constante na vida de Bruce Wayne vira as costas para ele. Mas só acontece esse diálogo, desajeitado, empolado e de tal forma mal encenado (No corredor, do lado de fora da Batcaverna? Realmente?). Literalmente a cena terminou encolhendo-se de tão ruim que ficou.

5 – Christian Bale e Marion Cotillard fazem sexo

Por um lado, sim estas são duas pessoas muito atraentes. Por que eles não deveriam ceder aos seus desejos carnais? Em contrapartida, não há praticamente nenhum desenvolvimento no relacionamento entre os dois. Eles estão correndo na chuva, então eles começam um dialogo, começam a se conhecer, e blabla. Em seguida na cena seguinte eles estão nus. Se apenas na vida real romances dessem tanto trabalho como este… Falando sério, sem nenhuma ligação emocional, esse relacionamento não funciona pra tornar palatável a traição eventual de Talia, que não é nada mais do que um toque ao pior estilo Shyamalan (Não sei escrever o nome desse retardado apedeuta), sem impacto algum por trás dele. Uma oportunidade perdida, como bem podemos perceber quando é revelado que Bane era apenas um pau mandado que amargou a vida toda na friendzone.

6 – Então Batman é um artista de rua agora?

Depois de meses de distância, sendo mentalmente torturado e quebrado fisicamente, Bruce Wayne retorna a Gotham. Ele passa as primeiras horas do que poderia ser o último dia em Gotham, sendo propositadamente preso por comparsas de Bane, correndo um risco enorme. E então foge e salva o Comissário Gordon e John Blake com poucos segundos de sobra. Mas de alguma forma, com este relógio incrivelmente apertado, ele encontra tempo para usar gasolina e fazer um símbolo de morcego enorme no alto de uma ponte com o conhecimento de que Gordon vai estar lá, pegar o flare, e acendê-lo. Teatralmente é parte da personalidade do Batman. Mas será que não poderia ter havido um melhor uso de seu tempo?

7 – Bruce Wayne se esquece de verificar o passado das pessoas que trabalham pra ele

Você poderia pensar que depois que Ra’s Al Ghul e membros da Liga das Sombras entraram de penetra na festa de aniversário de Wayne e incendiaram sua mansão, ele passaria a se utilizar de uma política mais rigorosa de segurança, implementada para eventos na Mansão Wayne, por exemplo. Mas não. Primeiro, ele contrata uma empregada que na verdade é uma notória ladra. Depois ele contrata uma mulher para chefiar sua empresa, que é na verdade é a filha de um dos seus maiores inimigos. Falando nisso, se Selina é facilmente capaz de adotar identidades falsas e burlar senhas criptografadas, por que ela precisa do programa Ficha Limpa?

8 – Por que Bane faz uma pausa em seu plano pra levar Bruce Wayne pra prisão?

Eu não acredito que acreditamos nisso. Que Bane resolveu agir como um clássico vilão de quadrinhos e resolveu contar ao Batman todo o seu plano. E que pra isso, ainda teria que simplesmente parar tudo no seu plano incrivelmente mirabolante pra levar Bruce até uma prisão, certamente o inferno mais longe possível de Gotham. Tudo apenas para ter certeza que Bruce teria um assento na primeira fila pra ver a destruição de sua cidade. Genial, Nolan. Muito bom.

9 – Como o Bruce Wayne voltou pra Gotham?

Como é que Bruce Wayne viaja de volta a Gotham em uma questão de horas, absolutamente sem recursos? Não só ele está falido, mas Alfred desapareceu, ele não tem nenhum tipo de identificação ou passaporte, e de alguma forma ele passa pela fronteira dos EUA sem problemas, e ainda consegue entrar em Gotham City de boa, mesmo com todas as entradas sendo vigiadas por capangas de Bane e pelo exército americano. O Morcego (Aquela nave super realista do Batman, tá ligado?) estava escondido em um telhado onde ele mesmo o deixou antes de ser quebrado por Bane, então ele não veio voando. E por falar nisso, como foi que não descobriram aonde estava o Morcego nos meses em que Wayne foi exilado na prisão? Será que podemos acreditar que ninguém procurou durante a ocupação de Gotham? Que sorte hein? E como ele achou Selina Kyle tão rápido? E ainda sobre a “prisão”: Como existe uma prisão onde as pessoas podem facilmente escalar para a liberdade, e assim libertar todos os outros prisioneiros? Eu imagino que funcionava muito bem no roteiro, pois é uma bela metáfora, mas vendo isso com meus próprios olhos, parece muito fácil de escapar. Fora outras perguntas que ficam no ar: Tem guardas? Será que Bane só coloca o Wayne na prisão, sem um diretor ou guardas pra ficarem sabendo? Eles simplesmente aceitam qualquer um que é jogado na cova? Tal como acontece com muitos elementos desse filme do Nolan, a prisão é mais uma ideia do que um lugar real que faz sentido.

10 – A Gotham City Pós-Bane é meio fake

Claro, funciona cinematográficamente ver o Espantalho totalmente surtado, na figura do juiz, e enviando as pessoas para a morte no exílio gelado (Na verdade, eu percebo aqui que este papel ficaria muito melhor interpretado pelo Coringa do Heath Ledger, mas não deu né). Infelizmente, esse cenário não funciona depois que vemos a eficaz seqüência inicial, onde observamos as pessoas ricas de Gotham sendo arrancadas de suas casas, o tumulto causado pelos criminosos recém libertados por Bane, mas após isso nada mais sobre esta Gotham soa mais real novamente. As ruas são estéreis, quase intocadas. Vemos apenas de vez em quando as raras patrulhas Tumbler ocasionalmente passando na rua. Caminhões da ajuda de emergência do Governo entrando facilmente com os suprimentos. Não parece haver mais nenhuma desordem nas ruas, só acontece algo na prefeitura ou onde estão os personagens de Blake e Gordon, que só sabem fazer merda (Incrivelmente eles ficam mais espertos depois que o Batman volta). Apenas uma série de quadros vivos lindos.

11 – Porque o departamento de policia de Gotham City é tão estupido?

Por que eles enviam todos os membros do Departamento de Polícia de Gotham City, incluindo a equipe da SWAT, para os esgotos? Parece um movimento estúpido que não seria feito por qualquer agência de boa reputação na aplicação da lei. Mas, para piorar a situação, em The Dark Knight Rises, o GCPD não são o único órgão do governo estúpido. No prólogo de abertura, o agente da CIA permite que bandidos encapuzados entrem a bordo de um avião da CIA, mesmo sem identificar quem os homens são. Então, pra completar, minutos depois o avião da CIA não é capaz de detectar um avião (Não-stealth) enorme voando em direção a eles. Quem quiser pode exemplificar mais burrices como essas nos comentários.

12 – A maior parte dos combates corpo-a-corpo é terrível

Você se lembra como naqueles velhos filmes asiáticos de artes marciais, um grupo de bandidos ia atacar a protagonista sozinho e desarmado, todos de uma só vez? Você se lembra como involuntariamente ficavam cômicas estas lutas? É assim que eu me sinto quando Batman luta contra todos nesse filme. Claro, tenho que admitir que há uma exceção: A primeira luta com Bane, que foi adequadamente crua e intensa (A segunda luta me lembrou os seriados antigos dos anos 60, só que sem aquelas onomatopeias espalhafatosas). Nas outras lutas do filme, apesar de todos os bandidos possuírem armas, nenhum deles consegue as usar. Cada um só espera lá, quietinho, a sua vez de ter a sua bunda chutada pelo Batman. Nesses momentos eu percebo porque Nolan filma toda a ação tão de perto assim e qual é a noia dele com as câmeras IMAX: Porque se você tivesse um angulo muito aberto, vendo de muito longe a luta toda, veríamos bandidos armados ficando de braços cruzados enquanto o Batman surra todo mundo um a um. E isso seria absolutamente ridículo. Uma coisa temos que assumir, Nolan não é incapaz de organizar uma boa cena de ação. A cena do caminhão na perseguição em The Dark Knight foi fantástica, assim como foi quando Batman fez o seu debut pegando os homens de Falcone em Batman Begins.

13 – Síndrome do final múltiplo

Pelo menos no final de O Retorno do Rei, cada final tem seu espaço para respirar. Aqui, no espaço de cinco minutos, que é o tempo suposto que Nolan nos deu pra processar o seguinte:

1) Batman morre em um momento de glória salvando Gotham City de uma bomba atômica que ele mesmo criou (Na hora que ele levanta voo com a bomba esférica eu não pude conter minhas risadas ao lembrar do final da série dos anos 60, se você não sabe do que eu estou falando, clique aqui);

2) Bruce Wayne deixa praticamente todos os seus bens remanescentes para as crianças do orfanato, amarrando assim a história de Blake;

3) Bruce Wayne, aparentemente descobriu como programar o piloto automático do Morcego, surgindo a possibilidade de ele ter sobrevivido;

4) Bruce Wayne realmente sobreviveu ao acidente e agora está aposentado desfrutando de uma vida boa na Europa com Selina Kyle;

5) Alfred o encontra e fica de boa com tudo isso (Essa parte inserida cuidadosamente só pra noiar os fãs de carteirinha de Nolan, que sentirão aquela dúvida no melhor estilo A Origem);

6) John Blake assume o manto do Batman, sem treinamento, sem recursos financeiros ou mentor que o valha (Fora que descobrimos que ele se chama John Robin Blake).

Além de tudo isso, ninguém percebeu que Bruce Wayne e Batman morreram ao mesmo tempo. Hora de levantar da poltrona e aplaudir de pé o grande diretor Christopher Nolan. Parabéns cara, você conseguiu.

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  • Luiz Carlos Santos

    Texto sensacional. Eu também não achei esse filme do Batman tão bom assim. Já tinha lido outras críticas de furos no roteiro, mas o seu foi com certeza o melhor. Pra mim os maiores furos foram o fato do Bruce ter se recuperado de uma coluna quebrada sem nenhum aparato hospitalar, apenas com uma cordas mandrakes, e sua entrada nos EUA e em Gotam, saído de um buraco no meio do nada a milhares de km de distancia, sem nenhum tostão furado no bolso.

    Outra coisa que eu não pude deixar de notar é a questão da mulher gato, ei peraí, mas que mulher gato ? Essa nomenclatura não dita em nenhum momento no filme. Selina Kyle, é apenas Selina Kyle, um ladra que em seus roubos veste-se toda de preto (e se vestiria de que ? cor de laranja ? verde limão?), e que usa uma mascara (também preta), ao melhor estilo zorro (e que qualquer ladrão pode usar). Em resumo: Não há o personagem “Mulher Gato”, apenas uma pessoa que sabemos ser a origem do personagem.

    Podem pensar que eu estou falando bobagem, mas eu ainda prefiro os filme da antiga franquia, de Tim Burton, que são mais teatrais, mas pelo menos são mais fiéis ao personagem que conhecemos e apredemos a gostar do essa coucha de retalhos do Nolan.

  • Matuhatin

    O forte da franquia era escapar desses clichês, de algumas coisas desnecessárias, e desses furos. Até certo ponto o 3o filme tava nessa linha, mas de repente começou a fulerage. O que mais me chamou a atenção foi essa reviravolta mal feita de Talia. não tinha feito a comparação com o Shalamaleican, mas foi exatamente isso.
    O Begins teve uma dessas, mas foi boa, e foi o suficiente.

  • Concordo que não foi o melhor filme do ano (perdeu muito pro filme anterior), mas peraí: a forma como Blake conclui que Bruce Wayne é o Batman até que foi plausível (toda a história de sofrimento, senso de justiça, aquele pose falsa de milionário super feliz, etc e tal). Podemos ver a explicação aos 27 minutos de filme. Pra mim, foi convincente.

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