Pokémon: Detetive Pikachu (Pokémon Detective Pikachu)

Cinema terça-feira, 13 de agosto de 2019

Ligeiramente baseado no jogo para Nintendo DS de mesmo nome, Detetive Pikachu segue a história de Tim (Justice Smith), ao saber que seu pai foi morto num acidente. Quando Tim percebe que o antigo parceiro de seu pai, um Pikachu com amnésia, pode falar normalmente com ele, ambos juntam suas forças para percorrer Ryme City e descobrir exatamente como o pai de Tim morreu.

Tá, eu sei que o filme saiu faz tempo, mas primeiro: Eu só assisti agora. Segundo: Eu não deveria ter feito isso. Terceiro: Quem liga?

Então caso você queira uma resolução simples sobre assistir ou não o bagulho, ou ainda apenas uma versão reduzida do que eu vou passar parágrafos falando, aqui vai: Foge. Se você gosta de Pokémon, foge. Se você gosta de filme, foge. Porra cara, se você gosta de café foge também. Aliás, faz algo mais produtivo na tua vida e vai arranjar um emprego… Não que tenha emprego sobrando mas né… O trabalho dignifica o homem… Ou qualquer coisa que o valha.

Nota do editor: Discordo. Café faz mal.

Primeiro de tudo: Eu não joguei o jogo original. Sendo de 2016, a história é relativamente semelhante, mas com boas alterações, principalmente em seu terço final e nos personagens como um todo. Tal qual o filme, o jogo teve uma recepção na média, ainda que tenha sido um sucesso comercial… Ambos já têm continuações confirmadas. O que é ridículo.

Pra ninguém vir chorar pra mim, fica aqui o aviso que este texto terá spoilers de monte, o que também é ridículo porque se você assistir os primeiros 15 minutos desse filme você sabe absolutamente tudo que vai acontecer nele.

Findos os avisos iniciais, velho, que filme bosta. A história é o seguinte: Tim vive no interior com seus avós leite com pêra e não vê o pai, Harry, que mora em Ryme City, há anos já que eles se distanciaram quando a mãe morreu. Um belo dia ele recebe uma ligação da polícia, onde seu pai trabalha, dizendo que o véio morreu. Ryme City foi fundada por Howard Clifford (Bill Nighy), e é uma utopia em que Pokémon e humanos vivem em harmonia, sem batalhas e pokebolas. Chegando na delegacia de polícia Tim recebe as chaves do apartamento do pai e é lá que ele conhece a reporter Lucy Stevens (Kathryn Newton) e, depois, o titular Detetive Pikachu. O Pikachu era parceiro do pai de Tim e não tem memória de nada, mas tá crente que o cara ainda tá vivo. Na hora e meia seguinte você, audiência, descobre que fizeram experiências com o Mewtwo (Sim, de novo), que obviamente há batalhas pokémon ilegais, que o fundador de Ryme City é o vilão (E que seu grande plano é fundir os humanos nos corpos dos pokémon usando uma droga feita a partir do DNA do Mewtwo) e que o Pikachu

 Isto não é uma piada; é isso mesmo.

Aí você pode pensar que OK, uma história clichê pode ser divertida e bem executada, e você está completamente certo. O problema é que Detetive Pikachu não faz nenhum dos dois. Harry morre e desmorre uma três vezes antes da revelação final, sendo que sua história é contada aos poucos, intercalada com cenas de “ação” mais óbvias que regar piscina. Aliado com as batidíssimas escolhas de direção, a coisa toda só não perde importância porque não tem importância alguma desde o início.

Aliás, vou fazer aqui o parágrafo sobre a direção: Rob Letterman foi o diretor de As Viagens de Gulliver de 2010 e de Goosebumps: Monstros e Arrepios de 2015, ambos com o Jack Black, ambos adaptações de livros e ambos umas belas merdas. Além disso ele co-dirigiu Monstros Vs. Alienígenas, que é um filme maneiro cujo mérito eu coloco no Conrad Vernon, o outro diretor. O Rob Letterman faz um trabalho pífio, digno de ser ignorado, mas que eu não posso ignorar porque é ruim o suficiente pra ocupar um parágrafo inteiro: Esse filme é tão sem inspiração em sua direção que se eu usasse óculos e os tirasse durante o filme eu juraria que taria assistindo, sei lá, Programa do Ratinho. É tão absurdamente padrão e clichê e sem graça que se você é um ator e vê o cara dirigindo você desiste da sua carreira e vai viver em Osasco.

Depois dessa piadoca ou não deixem-me então falar sobre atuações. Justice Smith não só não é filho do Will Smith como também não atua como o Will Smith, o que seria perdoável se ele atuasse bem, mas este não é o caso. Lembra quando a gente zoava o Michael Cera? Então, parece que pegaram o Justice Smith saindo do banheiro de um McDonald’s e botaram ele pra atuar: Ele tá tentando, cara, isso fica muito óbvio, mas puta que o pariu, ele tá falhando. Ele é tão ruim que sua companheira, Kathryn Newton, se sobressai. Não que ela seja particularmente boa, porque não é, mas do lado dele ela tá atuando. Do tipo não me convence-mas-eu-posso-escolher-acreditar-atuando. O que é mais bizarro ainda é que, segundo notícias sobre o filme, ela ganhou de várias outra atrizes por causa da sua “química” com o Justice Smith. Meu bróder, essa guria olhou pra atuação do cara e disse pra si mesma: VOU FINGIR QUE TÁ TUDO BEM. E deu certo, porque essa química é inexistente.

Em seguida a gente passa pro Ken Watanabe, que faz o detetive Hideo Yoshida, amigo de Harry: Puta desperdício de dinheiro, de tempo, de talento, de esforço… Véi, que papel tosco, que personagem ruim, que atuação sem graça. Aí vem o Bill Nighy, que faz o vilão Howard Clifford, e você pensa que vai ser uma coisa interessante, e necas. Tipo nada de nada de absolutamente coisa alguma. Eu vi o Bill Nighy aparecer no filme e eu sabia que ele seria o vilão, aí ele apareceu de novo e eu sabia que ele tava com o aluguel atrasado e precisando da grana, aí ele apareceu mais uma vez e eu me convenci de que ser expulso de casa e morar embaixo do viaduto seria muito mais dígno que fazer este personagem. Você chega na marca dos dez minutos de filme e acha errado o Ken Watanabe estar nesse filme, aí você assiste outros dez minutos e se convence de só não chamaram gente com o nome mais em voga por falta de grana pra bancar essa publicidade gratuita.

Este é o momento Ryan Reynolds desta resenha.

Ele faz a voz do Pikachu e, no fim do filme, Harry. Como foi escolhido pela direção esconder durante o filme todo esta extremamente impactante revelação estúpida? Isso mesmo, só mostrando ele de costas o filme todo.

Cara, o Pikachu falante funciona. Funciona melhor com a voz do Ryan Reynolds do que a voz original (Em inglês) do jogo Detetive Pikachu. Não, ele não é o Deadpool de amarelo. Enquanto que a voz original do Pikachu fica por conta da dubladora original do Pikachu, Ikue Ôtani, os trechos em que o Ryan Reynolds está fazendo o papel vão muito bem (Com a ligeira excessão de quando ele fala o típico “pika pika”, aí não cola mesmo). Não entenda isto como “o Detetive Pikachu é um bom personagem”, porque sem sombra de dúvidas não é. A gigantesca maioria das piadas vêm do personagem, com apenas uma ou outra sendo alguma citação à cultura pop, easter egg ou ligeiramente mais interessante: A maioria é tão inofensiva e óbvia que você nem se toca que foi uma piada. Aliás, eu assisti legendado, então não posso dizer como ficou a dublagem nacional.

A melhor atuação do filme todo é do Ryan Reynolds, e olha que ele mal aparece realmente no filme pra isso… E quando ele aparece é bem tosco porque porra, custava ter uma boa direção justamente na última cena? Velho, eu JURO que o diretor virou pro cara e falou:

Ah mano, deixa crescer uma barba mal cuidada aí e, quando a gente mostrar a tua cara pela primeira vez, tu joga a cabeça pra trás pra parecer que cê tem papo sobrando, saca? Pra parecer que cê é mais velho, tá ligado?

E é isso, o Ryan Reynolds tá bem nesse filme todo até o momento que ele aparece de verdade no filme.

Agora falemos de Pokémon.

Segundo o que a internet me diz, a variedade de pokémon que deveria aparecer no filme foi reduzida no percurso de produção do mesmo. Eu não contei, mas tem gente com probleminha que contou e disse que tem 54, com o número chegando perto de 100 se for contar os que são citados/aparecem em imagens/brinquedos/etc. Cem… De 807. Eu entendo limite orçamentário e clutter de citações, o que eu não entendo de jeito maneira foi a escolha de quais pokémon iam aparecer. Porra, Aipom? E com um baita de um destaque? Lickitung? Snubbull? Botaram a porra dum Ludicolo na tela várias vezes. Tem até Audino (Que inclusive ficou bizarro pra caralho), uns Loudred… Cara, tem TANTO pokémon conhecido e icônico e tudo mais, e a maioria dos que aparecem no filme são totalmente irrelevantes. E boa parte dos que aparecem são só pra dizer que tão lá: Snorlax? Bloquando o caminho. Magikarp? Não faz porra nenhuma até evoluir.

Em termos de efeitos especiais você pode esperar que eu diga que tá tudo bem, mas na boa? Mais ou menos. Digo, os prédios, carros, explosões e a maioria dos pokémon estão bem… Aí a gente chega nos pokémon voadores e pokémon grandes e pesados: Os Pidgeys, Blastoises, Charizards e Gyarados da vida. Eles não tem peso, não são críveis… Todos os pokémon que parecem pássaros e batem assas estão muito mal no filme, à ponto de fazer o resto do CGI ficar bem ruim. Os pokémon maiores parecem cheios de hélio, o que é irônico, porque o final do filme tem um monte de balões de pokémon à la Macy’s.

Os efeitos não são ruins, e sem sombra de dúvida é um baita desafio tornar realistas alguns pokémon que são, muito claramente, impossíveis na realidade… É difícil explicar, porque se você olha uma foto ou assiste aos trailers parece que tá tudo bem, mas quando eles tão se movimentando no filme a coisa muda… A maioria está bem, principalmente vendo só por cima, mas basta um pouco de atenção pra notar que os Bulbassauros, que estão com um visual bom, não afetam em absolutamente nada o mundo ao redor deles. O Mr. Mime, por incrível que pareça, ficou melhor que vários.

 Já o Squirtle

Sendo um filme baseado num jogo baseado numa franquia você esperaria que o treco estivesse soterrado em citações e piadocas, certo? Pois bem, não está… Ou melhor, até está, mas é tudo absolutamente jogado na tua cara, não tem finesse nenhuma. Acho que a mais interessante pra mim foi ter a menção ao TCG, mas de novo, tão óbvio que mal tem graça.

Esse filme faz um serviço bem incompleto do que seria de se esperar dele: Tem poucos pokémon pra você passar o filme caçando e nomeando cada um deles, ele não joga absolutamente nenhuma propaganda em particular na tua cara (O que é algo bom, mas inesperado, já que normalmente o treco viria com centenas de novos brinquedos, adesivos e os caralhos junto), não apresenta uma história nova e, indo direto ao ponto, se você espera absolutamente qualquer menção ao mangá e ao anime, pode esquecer. Ash Ketchum e o Pikachu que conta simplesmente não existem, nem mesmo em easter egg. O filme todo é baseado na velha história de gente fazendo merda pra clonar o Mew, e o próprio Mew é mencionado apenas uma vez. Aquela coisa clássica de ele aparecer flutuando e brincando por aí sem ninguém perceber? Nada feito.

Tá certo que os últimos filmes em animação todos da franquia foram bem fracos, mas Detetive Pikachu falha em tantos níveis diferentes que fica difícil ignorar. De longe o Pikachu-Ryan-Reynolds é o melhor do filme, e claro que esse era o objetivo principal, mas o problema é que o objetivo principal foi conseguido graças à incompetência generalizada e às más escolhas em tudo mais.

Tem dois pontos que eu tenho que falar ainda, e o primeiro é sobre a família do Tim: Tim é negro, sua avó também (Ela mal aparece) e sua mãe (Que só aparece em fotos) também… E o Ryan Reynolds é branco. E em momento algum isso é debatido, brincado ou utilizado de qualquer forma sequer. Alguns podem chamar de oportunidade perdida, mas se você realmente espera que um filme adaptação de jogo de bicho de fantasia debata racismo, o problema é você e não o filme. Então esse acaba sendo um ponto positivo na coisa toda: É normal, e normal é bom. Eu sinceramente não sei o quanto dessa história é “preencher cotas” e o quanto é “queremos o Ryan Reynolds independente do resto”, mas né, de grão em grão…

O outro ponto porém vai em direto contraste com este anterior, e trata da Lucy Stevens: Não só ela é claramente uma cópia em papel carbono da Misty (Mas sem os culhões de se aceitar como tal), como é tão clichê que dói. Ela é a reporter-junior-sem-moral-ninguém-me-valoriza-mas-eu-estou-certa que você já viu em mais filmes do que você pode contar. Ela não faz absolutamente nada o filme todo a não ser o papel de Daphne Blake até, claro, o final do filme, com aquela cena mais velha que as perebas da sua vó de “a reporter de verdade foi má comigo então eu vou entrar ao vivo eu mesma”. E, claro, tem uma mulher novinha que não faz nada certo apesar de ser (Supostamente) competente: Ela é interesse romântico do personagem principal. Eu passo longe de ser a pessoa mais engajada no que tange a representatividade feminina no cinema (Ainda mais Hollywood), mas puta que me pariu velho… 2019, tá ligado? Não basta ser clichê, não basta objetificar, tem que fazer tudo da forma mais rasteira, indiferente e insignificante possível. Porra cara… A Misty original é dos anos 90 e já é uma personagem feminina muito melhor que a Lucy.

O roteiro desse filme é patético, a execução é lamentável, as atuações são pífias, os efeitos especiais deixam à desejar, os personagens são aboslutamente destituídos de qualquer humanidade crível e JÁ TEM CONTINUAÇÃO PROGRAMA E EM PRODUÇÃO. VAI SE FODER. Se você não gosta de Pokémon e leu até aqui, qual teu problema? E se você gosta e leu até aqui, esquece que existe.

Pokémon: Detetive Pikachu

Pokémon Detective Pikachu (104 minutos – Fantasia)
Lançamento: Estados Unidos/Japão, 2019
Direção: Rob Letterman
Roteiro: Dan Hernandez, Benji Samit, Rob Letterman, Derek Connolly
Elenco: Ryan Reynolds, Justice Smith, Kathryn Newton, Ken Watanabe, Bill Nighy

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