Occupy Wall Street e a nona arte

HQs quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Você já deve ter ouvido falar do Occupy Wall Street, o movimento nos EUA que protesta contra a situação econômica do pais (resumidamente falando), certo? Mas qual a relação dele com os gibis?

A principio, a resposta comum pode ser “ah, eles usam uma máscara igual a do cara do V de Vingança”. Não deixa de estar certo, mas vai além disso, ou melhor, a história começa um pouco antes disso, com um soldado inglês chamado Guy Fawkes.

Guy Fawkes

Guy Fawkes (1570 -1606) era um inglês que participou da Conspiração da Pólvora. Ele e outros caras pretendiam matar o rei Jaime I e os membros do parlamento em uma sessão em 1605. Guy era especialista em explosivos, sendo o responsável pela pólvora, mas foi pego guardando o seu “equipamento”. Guy passou por dias de tortura até confessar o “crime” e revelar seus aliados, depois foi enforcado por traição e tentativa de assassinato. Até hoje se tem a tradição de celebrar a Noite da Fogueira no dia 5 de novembro, quando queimam fogueiras, bonecos representando o Guy e soltam fogos de artíficios. Também há uma pequena rima referente a conspiração da pólvora, você já deve ter ouvido ela no V de Vingança ou até mesmo na internet, pois no dia 5 de novembro é cool colar esse versinho:

Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot.

Por fim, todo esse episódio influenciou Alan Moore e sua obra V de Vingança.

V de Vingança

V de Vingança, ou originalmente V for Vendetta, é uma graphic novel escrita por Alan Moore e desenhada por David Lloyd. A história se passa no Reino Unido e mostra um governo totalitário que tem controle sobre a mídia, monitoramento sobre os cidadãos, campos de concentração, policia secreta, toque de recolher e afins. Nessa zona toda temos V, o protagonista, que usa uma máscara do Guy Fawkes e possui planos para derrubar o Estado. V possui uma atitude anarquista e vários discursos contra o Estado e sobre o poder do povo. Em 2006 foi lançada uma adaptação para o cinema, que apesar de ter pequenas diferenças, ainda mantem o mesmo ideal, e serviu para “popularizar” a máscara e as falas do personagem.

 Classic V.

Frank Miller

Voltando para o presente, em meio aos manifestos e ocupações, o grande Miller, autor de Batman Year One, The Dark Knight, 300, Ronin e outros, considerado um dos fodões da nona arte, decidiu vomitar em cima do movimento através do seu blog, usando um discurso que o fez parecer um estereótipo de americano pós 11 de setembro.

Everybody’s been too damn polite about this nonsense: The “Occupy” movement, whether displaying itself on Wall Street or in the streets of Oakland (which has, with unspeakable cowardice, embraced it) is anything but an exercise of our blessed First Amendment. “Occupy” is nothing but a pack of louts, thieves, and rapists, an unruly mob, fed by Woodstock-era nostalgia and putrid false righteousness. These clowns can do nothing but harm America. “Occupy” is nothing short of a clumsy, poorly-expressed attempt at anarchy, to the extent that the “movement” – HAH! Some “movement”, except if the word “bowel” is attached – is anything more than an ugly fashion statement by a bunch of iPhone, iPad wielding spoiled brats who should stop getting in the way of working people and find jobs for themselves. This is no popular uprising. This is garbage. And goodness knows they’re spewing their garbage – both politically and physically – every which way they can find. Wake up, pond scum. America is at war against a ruthless enemy. Maybe, between bouts of self-pity and all the other tasty tidbits of narcissism you’ve been served up in your sheltered, comfy little worlds, you’ve heard terms like al-Qaeda and Islamicism. And this enemy of mine — not of yours, apparently – must be getting a dark chuckle, if not an outright horselaugh – out of your vain, childish, self-destructive spectacle. In the name of decency, go home to your parents, you losers. Go back to your mommas’ basements and play with your Lords Of Warcraft. Or better yet, enlist for the real thing. Maybe our military could whip some of you into shape. They might not let you babies keep your iPhones, though. Try to soldier on. Schmucks.
FM

Traduzindo aqui rapidamente: Vocês são uns arruaceiros alimentados pela nostalgia do woodstock. Occupy é uma modinha. Arranjem um emprego e parem de atrapalhar quem quer trabalhar. Os verdadeiros inimigos são Al-Qaeda e o islamismo, eles são os inimigos e eles devem estar rindo de nós. Voltem para o mundo real e alistem-se.

Ninguém sabe o que Miller usou, alguns acham que ele quer chamar a atenção pro novo trabalho dele, Holy Terror, que mostra um herói dando pau nos islâmicos. Já outros acharam normal vindo dele, tendo como base o comportamento fascista do Batman na sua tão aclamada obra The Dark Knight. Mas o que Miller esqueceu é que ele já pregou um discurso igual o do Occupy em Batman Ano Um.

 Batman Ano Um

Richard Pace, quadrinista, fez como resposta à Muller uma página imitando The Dark Knight e o discurso fascista do autor.

Esse episódio gerou várias discussões e possíveis boicotes às obras de Miller. Outros roteiristas e desenhistas também comentaram, mas nada muito importante quanto os comentários de Alan Moore.

Alan Moore

Se de um lado temos um grande escrito de HQ, do outro lado temos um gênio da nona arte. Moore resolveu comentar o episódio de Miller e disse que era exatamente isso o que ele esperava de Miller.

Bem, Frank Miller é alguém cujo trabalho eu mal conferi nos últimos 20 anos. Eu pensava que as coisas de Sin City fossem misoginia reconstruída, 300 parecia ser forte homofobia “a-histórica” [não histórico] e completamente equivocada. Eu acho que provavelmente houve uma aparente sensibilidade desagadrável no trabalho de Frank Miller por um bom tempo. Considerando que eu não tenho nada a ver com a indústria de quadrinhos, não tenho nada a ver com as pessoas nela. Eu ouvi sobre as últimas efusões relacionadas ao Movimento “Occupy”. É o que eu esperaria dele. Sempre pareceu a mim que a maior parte do ramo de quadrinhos, se você tivesse que posicioná-los politicamente, você teria que chamá-los de “center-right”* [algo com um centrismo direitista]. O que seria o mais longe em direção ao ponto liberal do espectro que podem ir. Eu nunca estive de forma alguma, eu sequer sei se eu sou “centre-left” [um centrista de esquerda]. Eu sempre fui sincero sobre isso desde o começo da minha carreira. Então sim, eu acho que seria justo dizer que eu e Frank Miller temos visões diametricamente opostas sobre diversas coisas, mas certamentamente sobre o Movimento “Occupy”. Até onde posso perceber, o movimento é apenas sobre pessoas comuns reclamando direitos que deveriam ter sido sempre deles. Eu não consigo pensar em outra razão pela qual como população devêssemos esperar ficar parados e ver uma imensa redução dos nossos padrões de vida e de nossas crianças, possivelmente por gerações, quando o pessoal que nos levou a isso continuam sendo recompensados por; eles certamente não serão punidos de nenhuma forma porque eles são grandes demais para cair. Eu acho que o Movimento “Occupy” é, de certa forma, o público dizendo que eles é que deveriam ser os que decidem quem seria grande demais para cair. É um completamente justificado rugido de ultraje moral e parece estar sendo desenvolvida de uma forma inteligente e não violenta, o que provavelmente é outro motivo pelo qual isso não agrada muito Frank Miller. Tenho certeza que se tivesse sido um bando de jovens vigilantes sociopatas com maquiagem do Batman em seus rostos, ele seria mais a favor. Eu e ele definitivamente temos que concordar em discordar nisso aí.”

Em outra entrevista, Moore fala sobre o uso da máscara e comenta mais sobre o movimento.

Occupy Comics

Depois desses ocorridos, a noticia é que o movimento terá HQ’s para se promover e arrecadar uma verba. E tem ótimos nomes envolvidos no processo:

Charlie Adlard (The Walking Dead)
Marc Andreyko (Manhunter)
Susie Cagle (Notes on Conflict, arrested at Occupy Oakland)
Kevin Colden (I Rule the Night, Grimm’s Fairy Tales)
Molly Crabapple (Dr. Sketchy’s)
Tyler Crook (Petrograd, B.P.R.D.)
J.M. DeMatteis (Justice League, Spider-Man, Imaginalis)
Joshua Dysart (Swamp Thing, The Unknown Soldier)
Zoetica Ebb (Biorequiem)
Joshua Hale Fialkov (I Vampire, Tumor)
Brea Grant (We Will Bury You, Suicide Girls)
Zane Grant (We Will Bury You, Suicide Girls)
Joe Keatinge (Hell Yeah, Glory, Brutal)
Ales Kot (upcoming projects w/ Image Comics & DC Ent)
George Krstic(Star Wars: The Clone Wars, Megas XLR)
Joseph Michael Linsner (Dawn)
Patrick Meaney(Grant Morrison: Talking With Gods)
Mark L. Miller(Luna, Nanny & Hank)
Caleb Monroe (Batman: Fearless, Hunter’s Fortune)
B. Clay Moore (Hawaiian Dick, Superman Confidential)
Jerem Morrow (Drive-In Horrorshow, Kingdom Suicide)
Amancay Nahuelpan-Bustamante (Hijos de P)
Steve Niles (30 Days of Night, Batman: Gotham County Line)
Laurie Penny (Penny Red)
Matt Pizzolo (Godkiller)
Steve Rolston (Ghost Projekt, Queen & Country)
Riley Rossmo (Proof, Cowboy Ninja Viking)
Douglas Rushkoff (Testament, media theorist)
Tim Seeley (Hack/Slash, Witchblade)
Simon Spurrier (2000 AD, X-Men: Curse of the Mutants)
Ben Templesmith (30 Days of Night, Fell)
Ronald Wimberly (MF GRIMM: Sentences)
Mike Cavallaro (Parade (with fireworks), Life & Times of Savior 28)
Vito Delsante (Superman, FCHS)
Troy Dye (Shrek, Puss in Boots, The Goblin Chronicles)
Jenny “Devildoll” Gonzalez-Blitz (Coffin Factory art collective)
Joe Harris (Ghost Projekt, Spontaneous)
Tom Kelesides (Shrek, Puss in Boots, The Goblin Chronicles)
Jonathan Swifty Lang (Feeding Ground)
Mark Sable (Two Face: Year One, Rift Raiders, Unthinkable)
Salgood Sam (Dream Life, RevolveR One, Revolution on the Planet of the Apes)
Anna Wieszczyk (Godkiller, Lucid)
Dan Goldman (Shooting War, 08: A Graphic Diary of the Campaign Trail)
Amanda Palmer (The Dresden Dolls)
Darick Robertson (Transmetropolitan, The Boys)
Mike Allred (Madman)
Shannon Wheeler (Too Much Coffee Man)
Eric Drooker (Flood!)
Ryan Ottley (Invincible)
Dean Haspiel (American Splendor)
Guy Denning
David Lloyd (V For Vendetta, designer of the now iconic Guy Fawkes mask)
Alan Moore (V For Vendetta, Watchmen, Batman: The Killing Joke, League of Extraordinary Gentlemen, From Hell)
A ideia é lançar isso ano que vem, e ao que parece, Moore vai abordar o tema “O controle corporativo da indústria dos quadrinhos e do próprio paradigma do super-herói.”

Eu to muito afim de ler essas obras, o tema do Moore é ótimo e ele não costuma decepcionar. Fora que, falando de gibi como mídia, é ótimo para atingir novas pessoas e apresentar o movimento. Mas eu não consigo parar de imaginar o Miller fazendo uma HQ contra o movimento, como uma resposta à esse projeto. Eu sou a favor desse movimento, e ver esse pessoal envolvido e contribuindo com o trabalho é muito bom. Em breve teremos algumas histórias sobre, e provavelmente muitas notícias envolvendo o movimento e os quadrinhos. Miller errou feio dessa vez, mas fica a seu critério decidir isso. Pessoas estão escolhendo lados, estão se movimentando, o mundo ta mundando. Escolham suas máscaras.

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Antes de comentar, tenha em mente que...

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  • yuri

    Alan Moore rules!!! Mas o Frank Miller manda bem pra caramba tb. Ainda prefiro ele como desenhista

  • Se você é alfabetizado, tem acesso à internet em casa, energia elétrica, água potável e uma casa, você faz parte do 1%. Pare de reclamar e vá fritar hamburgueres.

  • Loney

    Larga de hipocrisia Pizurk, cê só tem Sol na geladeira, hamburguer não é uma variável pra você.

  • Se eu tivesse Sol na geladeira: a) seria a de garrafa transparente, nunca a de garrafa marrom. b) eu não estaria desempregado, aceitando emprego de fritar hamburguer.

    Mas falando sério, cê tem noção que esse bando de puto tá nessa justamente porque não quer empregos de fritador de hamburguer? A ameaça dos pais lá era essa: Estuda ou cê vai fritar hamburguer o resto da vida. E eles levaram a sério. Tão a sério que não querem empregos ditos “baixos”. Querem começar pelo topo. Ah, vão lavar uma pia de louça. Protestar com iPad na mão é mole.

  • Cara, pode ser que você nao saiba, mas o termo “gibi” para se referir a HQ’s é errado. Gibi foi uma revista de quadrinhos publicado pela família Marinho na em 1900 e guarana com rolha.Ou, seja, dizer que leu/vai ler um “gibi”, seria o mesmo que, ir escovar os dentes com Colgate, ou lavar as louças com Bom Bril. Gibbi é uma figura de linguagem, uma Metonímia.

  • Vai lá tirar suas fotocópias enquanto a gente tira xerox, malandro.

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