O Sabor das Massas

Livros segunda-feira, 02 de julho de 2018

Quer uma coisa muito louca? Tem quase dez anos que eu tô no Bacon. Vamos falar um pouquinho sobre jornada.

 Sidney Magal, é você? Tá quente aqui, né?

Caso você tenha uma vida desgraçada e acompanha o Beico esse tempo todo, cê provavelmente sabe que a gente era mais popular, mais bem suprido de mão de obra e muito menos bonito lá no fim da década passada. Sabe também que o bagulho era muito mais setorizado, com os autores e redatores de cada área de entretenimento cuidando da sua e raramente fazendo texto sobre alguma outra coisa… A vida é assim: As pessoas vão embora, os cabelos na cabeça também e a gente passa a fazer mais coisa pra suprir a falta. Em outras palavras, eu entrei no Bacon pra escrever sobre livros.

E caso você se dê ao trabalho de ir checar o cabeçalho do blog site cê vai ver que é isso aí mesmo, “livros”, nem mesmo “literatura”. Isso significava que eu tinha que falar de livros, e pra mim tava tudo muito bem já que eu tava numa baita fase de passar o dia lendo. Na época, e por vários anos, antes de entrar no Bacon e depois, eu passava praticamente todo o meu tempo livre (Que era, acreditem ou não, muito maior na época) lendo. Bons tempos… Não que eu sinta falta.

 Dá pra ter vergonha alheia de si mesmo?

Enquanto é dolorosamente triste ir ler as paradas que eu escrevi no passado, também permite fazer uma reflexão acerca da coisa toda. Se você se der o trabalho de ir ler as minhas coisas mais antigas vai ver como foi o processo: “Ler é tudo”, “ler é legal”, “cê deveria ler também”, “puts, tá meio chato isso aqui”, “vira e mexe tem algo bom”, “qualidade é melhor que quantidade”, “meu deus, tenho que fazer texto de livro de novo”, “vou dar um tempo…”, “faz tempo que não leio”. No começo era óbvio por ser na sua cara (E estupidamente babaca), depois passou pras entrelinhas, e enfim chegou à uma sinceridade confissional.

Há um tempo atrás escrevi isto aqui. “Há um tempo atrás” tem um ano e meio. E posso dizer com toda certeza que esse texto foi uma certa recaída, um arroubo de nostalgia: A ideia de ler como antes parecia interessante naquela época; hoje sei que jamais vai acontecer. O capítulo anterior nesta história é esse aqui, que dá pra ser resumido em “leia o que você quiser, como você quiser, contanto que seja o que você quer ler”.

O capítulo de hoje provavelmente não é o último, mas é bem capaz de que os próximos sejam apenas epílogos: Hoje dá pra dizer que tipo de leitor eu sou. Eu sou o tipo de que lê quando precisa, e vez ou outra lê porque quer, mas apenas o que tem utilidade, seja esta por entretenimento ou instrução… A leitura por prazer ficou para trás.

É triste dizer isso… “o tipo de leitor que sou”. É o tipo de afirmativa que sei que meu eu mais jovem odiaria com todas as suas forças, e nem mesmo por não concordar, mas porque soa extremamente resignativo, soa como o tipo de gente velha que achou um jeito confortável de ser e que não liga para melhorar, para crescer e continuar o resto da vida se aprimorando… É uma rendição. Eu não entendia que é um processo, uma sequência de eventos… Que qualquer resultado, seja ele qual for, não é uma escolha pontual que pode ser de rebeldia incansável ou de aceitação preguiçosa, mas que há um caminho percorrido e que o ponto final é o destino moldado por nossas escolhas. Hoje eu sei. E ainda assim, quando escrevo “o tipo de leitor que eu sou”, dói. Porque vejo em mim mesmo o envelhecimento e a experiência que hoje eu entendo, mas que ainda não concordo. O nome disso é doença autoimune.

 Vitória atrás de vitória.

Antes esse tipo de coisa me deixava, de certa forma, feliz: Olhar pra trás e ver meus erros significava que eu tinha aprendido alguma coisa, e isso era um motivo de comemoração. Hoje, e já há um tempo, o sentimento não é alegria, é tristeza… Meu deus, garoto, e você impactava o mundo à tua volta desse jeito.

Eu sei o próximo passo dessa história.

O próximo passo dessa história começou semana passada, quando enfim chegou um livro de pré-compra e pude enfim lê-lo. Tá certo que era um RPG e não um livro de histórias (Ou estórias, contos, poemas, sei lá), mas ainda assim aquele livro era um manual primeiro porque é um literalmente um manual né, um conjunto de instruções que me levava do ponto A, “minha vida antes de ler isso”, pro ponto B, “minha vida depois de ler isso”. Esses dois ponto não mudam nunca, mesmo que o material de leitura mude. Hoje o que eu leio é sempre algo que me dá alguma coisa em troca, me leva pro ponto B de um jeito ou de outro. É um jeito mais triste de ser ler, menos inocente, menos esperançoso… É agridoce.

Quando comecei este texto ele ia terminar de forma cabisbaixa: Ler já foi tudo pra mim, e hoje é uma atividade regida pelo utilitarismo. Nesse penúltimo parágrafo me ocorreu que ainda que isso seja verdade, também quer dizer que agora ler tem função, tem propósito: Ler não é mais tudo pra mim; eu leio muito pouco, de forma limitada, acanhada até, e ao mesmo tempo isso quer dizer que esse pouco tem valor, porque o ponto B não é o ponto A. Eu já li bastante coisa mesmo, e tanto, tanto do que eu li não fez diferença nenhuma… Precisei ler pra descobrir que é assim, é verdade, mas ainda assim não fez diferença alguma… Hoje tudo que eu leio faz, mesmo que só um pouquinho.

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