O lixo atual é melhor que o lixo que você idolatra

Música quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Passei a madrugada de ontem fazendo algo que eu não fazia há um bom tempo: Desperdiçar tempo com os anos 80. Sim, é isso mesmo, os anos 80 acabaram, os anos 90 também e foda-se a porra toda, o bagulho agora é outro e, mesmo sendo ruim, é melhor. Até mesmo as festas temáticas dos anos 80 são melhores que os anos 80, e olha que essas festas só perdem pros bailes do Havaí ou qualquer uma dessas merdas.

Anos atrás, Guitar Hero era uma coisa foda: Comecei pelo 2, passei pro dos anos 80, daí pro 1 e finalmente pro 3, onde minha carreira definhou e acabou quando me recusei a ser banda de apoio em talk show. A maioria das pessoas não gostava do dos anos 80, e é verdade, é o mais fraco dos quatro, mesmo que o primeiro seja infinitamente mais fácil; ainda assim, eu gostava, tinha músicas legais, era mais equilibrado e bem distribuído que o 2, e bem, era Guitar Hero. Naquela época isso era alguma coisa.

Seja como for, tirei a noite de ontem pra reouvir as principais músicas do 2 e do Encore, pelos motivos de não ter nenhuma boa ideia pra um texto pra escrever e não tinha mais nada na lista: Guitar Hero 2 tem o que se pode dizer que uma setlist um tanto épica. Junta as mais variadas bandas e músicas, mistura estilos e caminha entre décadas de música: São 8 “shows”, mais as músicas bônus. Qualquer um que tenha vivido essa época de Guitar Hero pode te contar várias histórias sobre o quanto a coisa toda era foda, tanto na primeira vez que você jogava quanto quando humilhava seus amiginhos recém-iniciados nessa putaria.

Já as músicas do Encore reunem alguns dos grandes hits de 80 a 89, à exceção de regravações de músicas dessa época. Guitar Hero sempre foi sobre os grandes nomes, com uma ou outra coisa mais desconhecida do público geral, mas reconhecível para quem ouve o mesmo tipo de coisa: A Flock of Seagulls, Skid Row, Scorpions, Asia, Twisted Sister, The Police, Poison, Dead Kennedys, Judas Priest. Você provavelmente já ouviu a maioria das músicas do jogo, de um jeito ou de outro, e se não ouviu todas, qualquer parente mais velho com certeza vai ter ouvido. Mas a questão não é o jogo e nem mesmo as músicas.

X1 NOOB

Passei a madrugada vendo clipe após clipe, dos dois jogos (Algo na volta de uns 30), e cara, como a música mainstream HHMMMMMMM dos anos 80 era ruim. Guitar Hero é sobre o que fazia sucesso, o que era popular, mesmo que tivesse ainda uma certa coisa de contracultura por causa da fatídica briga do velho com o novo, tema comum na década toda. A verdade é que, comparando a música daquela época com a de hoje, a de hoje é melhor.

Eu sei que é difícil acreditar, mas é verdade. Claro, havia muito mais solos de guitarra, baixo e baterias eram mais pesados: O rock ainda reinava, o pop, rap, hip-hop, eletrônica, isso tudo era secundário. E os músicos, de uma forma geral, tocavam mais que hoje: A digitalização da coisa só começaria nos anos 90, então ou você tocava a guitarra ou não tocava, não havia programas para melhorar a coisa, o digital não fazia frente ao analógico em momento algum. Em outras palavras, na época era preciso tocar, e se você tocasse, provavelmente tocaria rock, acontece que isso não é garantia de nada.

O mais comum de se ouvir é sobre os cabelos, a roupa, as cores: Os anos 80 foram visuais, e esse é um dos problemas. Vi os clipes enquanto acompanhava as letras e, pra maioria, fui pesquisar um pouco mais sobre a banda e a música específica: Tá lá um bando de marmanjo com cabelo nas costas, calças de couro e gloss nos lábios cantando as músicas mais genéricas, simplistas e estereotipadas possíveis, com rimas ruins, métrica jogada no lixo… Eu sei que é fácil apontar os defeitos depois de tanto tempo, mas não tem como não notar. É absurdo como, nas décadas anteriores (70, 60, 50, etc…) se fez coisas infinitamente melhores. Não é uma questão de ser “40 anos atrás” (Sim, 40, faça a conta), mas sim que nego tocou o foda-se e abraçou o mercenarismo mesmo.

 E se o Fabio tivesse um filho com o Kenny G?

E aí é que tá: Atualmente a música como um mercado e não como arte é o padrão. Os anos 80 obviamente não foram o começo disso, mas foi quando o troço foi escancarado, quando parte do que pertencia aos bastidores passou para o palco, para a mídia e, consequentemente, para a vida das pessoas.

Não estou falando que as músicas não são legais, que não seja divertido ouví-las e nem que só são ruins porque são velhas, a questão é justamente o contrário. Com tudo que a música popular de hoje, o pop americano, a eletrônica, o funk ostentação, ainda com tudo que tem de ruim, ainda é melhor: Tem mais conteúdo, as letras são mais bem feitas, o “instrumental” feito por computador é mais diversificado. Não é uma relação direta, mas não há o que se negar quando se diz que os mercenários de hoje aprenderam com os de ontem.

Ouvi várias e várias músicas, desde o glam-qualquer-coisa até o new wave, passando pelo metal, pop rock, hard rock, heavy metal, punk, power pop e pós-punk (Um conceito que nunca entendi esse de “pós”), e eu juro que consigo apontar uma música “equivalente” atual que seja melhor que a maioria das que ouvi. Isso aí, alguma porcaria de hoje em dia que seja melhor que algum clássico dos anos 80. Por mais clichê, bobo, autoajuda e assistencialista que a música popular atual seja, ela ainda consegue ser melhor estruturalmente e conceitualmente que a música popular dos anos 80. Pouco me importa se a gente não tem solos e não consiga ouvir mais o baixo agora, ainda é melhor. É absurdo, mas é melhor.

É claro que eu estou generalizando, né galera.

E quando digo “melhor” digo musicalmente: O conceito ainda é uma bosta, a mensagem também e absolutamente tudo é feito para tirar dinheiro do bando de otários que financiam essa gente. As grandes diferença são a qualidade musical, já que há um investimento maior de técnicas (Musicais, de marketing, de publicidade, estudos sócio-comportamentais bonito isso, etc.), tempo e esforço, e o tratamento que isso leva: Nos anos 80 era mais escancarado, hoje é travestido. A velha história de pegar as pessoas com mel.

Se você espera checar uma banda só porque alguém disse que uma banda atual é “a nova banda X”, pode esquecer: A relação pode até estar presente, mas não será a mesma coisa. Não precisa ser um gênio, nem especialista em história musical para perceber, basta comparar: Vivemos em tempos menos óbvios. E não estou dizendo que a coisa toda seja assim, e muito menos para você parar de aproveitar tais músicas só por causa disso: Solos são legais, há bons clipes, há boas músicas simples e mesmo com toda a porcaria, alguns ainda são clássicos, com riffs memoráveis, letras fáceis de cantar e que animam todo mundo naquele churrasco maneiro de fim de ano… Só não cometa o erro de pensar muito sobre o caso.

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