Nove Rainhas (Nueve Reinas)

Filmes bons que passam batidos sexta-feira, 27 de maio de 2011

 Quando pensamos nos hermanos argentinos, a primeira coisa que surge é futebol (Na rivalidade com o Brasil quando é dia jogo. E quando não é também). No entanto, a indústria cinematográfica argentina – que passa batida quase sempre – é tão competente quanto o Messi. Um exemplo de reconhecimento da qualidade foi O Segredo de Seus Olhos, que levou pra casa o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010. Depois disso, os cinéfilos passaram a voltar mais seus olhos abelhudos para a vizinhança e foi numa dessas garimpadas que acabei achando um longa que há tempos já haviam me indicado. Nove Rainhas, lançado em 2000, me surpreendeu e se mostrou um filme muito inteligente com um diferencial: Nada de vibe cult, alternativa ou artística. O filme joga limpo com o expectador e presenteia com entretenimento de alta qualidade (Uma espécie de Onze Homens e Um Segredo muito melhorado). Nove Rainhas segue a velha equação que todo mundo conhece, mas os cineastas esquecem: Roteiro forte + elenco preparado + edição sem firulas = sucesso.

A história começa numa loja de conveniência de Buenos Aires, onde Juan (Gastón Pauls) dá um golpe na moça do caixa. Ao voltar ao mesmo local e tentar aplicar o mesmo golpe numa outra caixa, Juan é pego em flagrante e levado de lá por um policial. Alguns metros longe da loja, o “policial” se revela na verdade um golpista como Juan (Mas muito mais profissa). Marcos (Ricardo Darín) faz então uma proposta para o garoto e sugere que os dois trabalhem juntos por um dia. Precisando de dinheiro e sem nada a perder, Juan topa colaborar com o estranho e descolar alguns pesos durante aquele dia. O que eles não esperavam era que surgiria um negócio de ocasião, deixando todos os pequenos golpes que conheciam na chinela. Vidal Gandolfo, dono de uma holding e milionário colecionador de selos, está para ser deportado na manhã seguinte. Inesperadamente chega às mãos da dupla uma réplica perfeita de raríssimos selos, as Nove Rainhas. Determinados à vender a falsificação ao engravatado, Juan e Marcos entram numa negociação de 500 mil pesos e irão enfrentar qualquer coisa para que a entrega da grana seja perfeita. Mas nessas quase 24 horas que passam juntos, os dois tem muitas surpresas e precisam dar seus pulos para que tudo saia como planejado.

O roteiro cheio de reviravoltas corre durante todo o filme de forma perfeita. Os altos e baixos de Juan e Marcos prendem a atenção do expectador e fazem uma parceria incrível com as atuações magistrais de Ricardo Darín e Gastón Pauls, que dão características marcantes e personalidades bem distintas aos seus papéis, sem canastrismo. Os atores conseguem agir tão naturalmente que nos fazem acreditar na personagem. Vale destacar o vocabulário simples e frases sensacionais, como a verdade nua e crua dita por Marcos:

Não existem santos, o que existem são preços diferentes.

Tecnicamente, a produção também agrada. Como já citada, a edição é simples e funcional. Nada de novidades artísticas nas filmagens ou frescuras nas sequências. É tudo muito limpo e claro. Das locações, pode-se dizer que as ruas de Buenos Aires são as que roubam a cena, aqui usadas para mostrar o lado mais desonesto da cidade. Outra surpresa boa é a inserção da música Il Ballo del Mattone de Rita Pavone, quase coadjuvante nesse caso. Por tratar-se de uma história rápida (Ao todo não passam muito mais que 24 horas no filme) não há mudança de figurino. Foram gastos 1,3 milhões de pesos para a produção total do filme e foram arrecadados mais de 5 milhões. Nove Rainhas foi indicado à 23 prêmios, levando 21 deles. O diretor Fabián Bielinsky acredita que o sucesso do filme se deve ao bom roteiro (Finalizado por ele em apenas 8 semanas!) e aos atores muitíssimo bem ensaiados (O que resultou numa economia de tempo e dinheiro, já que as cenas não precisavam ser rodadas muitas vezes).

Nove Rainhas foi uma grata surpresa em todos os aspectos. Mantém o expectador ligado desde o princípio e não perde ritmo até o surpreendente final. O clima de desonestidade entre os protagonistas é tão bem colocado que prega algumas peças no decorrer do longa. Os coadjuvantes não estão ali à toa e tudo se encaixa de forma perfeita. Fabián Bielinsky fez a lição de casa e esfregou na cara de Hollywood que talento é pra quem tem e não pra quem paga mais. Enfim, se fosse possível descrever Nove Rainhas numa palavra só, essa palavra seria GENIAL.

Nove Rainhas

Nueve Reinas (115 minutos – Policial)
Lançamento: Argentina, 2000.
Direção: Fabián Bielinsky.
Roteiro: Fabián Bielinsky.
Elenco: Ricardo Darín, Gastón Pauls, Leticia Brédice, Tomás Fonzi.

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  • Parabéns Jade, pensei que ninguém mais conhecia esse filme aqui no Bacon. É muito bom, um dos mais interessantes que já vi.

  • Jade Zamarchi

    @Júlio Kirk

    Valeu, Kirk!:D Acho que é super válido trazer um pouco desses filmes “desconhecidos”, o Yuri também anda trabalhando a coluna FBQPB. Tem muita coisa boa que as pessoas não dão nem bola..

  • Marinheiro de Banheira

    Já o assisti e posso dizer q é um bom filme mas acredito que dar nota 10 é um exagero.

  • Jade Zamarchi

    @Marinheiro de Banheira

    Bom, falar das notas é realmente polêmico. Pra mim, o filme vale 10.. pra você não vale. O Pizurk, por exemplo, deu 10 pra “Sucker Punch” (desconfio que tenha sido levemente influenciado pelas gostosas com roupa de colegial). Eu já acho que o filme não é tãão bom assim. De qualquer forma, toda nota sempre vem com um julgamento pessoal escondido. Mas, bacana que você tenha curtido o filme.

  • hassler

    O golpe inicial do filme se mostrou muito interessante, mas não assisti inteiro.

    Vou assistí-lo depois desse review nota 10, 10.

  • Porra, Jade. Até você ignorando o nome do autor do texto DUAS VEZES no texto? Não fui eu quem resenhou Sucker Punch.

  • Jade Zamarchi

    HAHAHAHAHAHA Verdade. Sucker Punch foi resenhado pelo Jão. Desculpa, chefe.. pode descontar do meu salário. :)

  • Sobre a nota, acho que realmente vale 10.

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