Na Estrada (On the Road)

Cinema quarta-feira, 18 de julho de 2012

 Na Estrada conta a história do jovem escritor Sal Paradise (Sam Riley), cuja vida é sacudida e inteiramente transformada pela chegada de Dean Moriarty (Garrett Hedlund), um jovem libertário e contagiante, recém-chegado do Oeste com sua namorada de 16 anos Marylou (Kristen Stewart). Juntos, Sal e Dean cruzam os Estados Unidos em busca da última fronteira americana e à procura deles mesmos. Na viagem, ultrapassam todos os limites conhecidos… Ritmado por sexo, drogas e jazz, o filme é baseado em On the Road, o romance cult de Jack Kerouac que lançou as bases da geração Beat.

Pois é, pois é, enfim adaptaram o On the Road. Bom, pelo menos foi o Walter Salles, olha que baita trabalho que ele fez no Diários de Motocicleta. Pelo menos era o que eu costumava pensar. Agora, não sei… Não sei se eu não gostei do filme por discordar do caminho tomado ou porque ele não funciona mesmo. Talvez um pouco dos dois.

Mas então, cês conhecem a história do On the Road, né? Tá, é essa aí da sinopse, mas eu tou falando sobre tudo que o livro representa e tal. Tipo, um marco da contracultura e idealismo que marcaram o início da segunda metade do século XX. Aliás, idealismo, essa é a palavra. Pra mim, foi isso que faltou no filme. Porque olha só, eu sei que adaptações são complicadas. Mais que o visual, diálogos e referências, ela tem que ser fiel a essência da obra original. E o livro do Jack Kerouac, apesar de finalmente melancólico, transborda uma juventude e energia do inicio ao fim. E o Na Estrada, infelizmente não transparece nada disso.

Mas vejamos porque o livro é bem sucedido. Primeiramente, ele é totalmente autobiográfico e escrito na primeira pessoa. E mesmo assim, o Kerouac (Ou Sal Paradise) fica “do lado de fora” da história na maior parte do tempo, quase como apenas um fio condutor pra o leitor. Passar isso pro cinema é um tanto quanto complicado, então o diretor decidiu mostrar um Sal mais participativo, com seus próprios problemas e preocupações. O que pra mim, não funcionou, já que ele continua agindo como um espectador. Tipo, ele fica muito aquém do resto dos personagens, nunca diz nada de interessante (Tirando as partes narradas, diretamente do livro). Não dá pra entender porque eles andariam com ele, por exemplo. Mas isso é um problema menor, já que o protagonista é o Dean Moriarty, certo? Errado. Se no On the Road ele é a encarnação de todas as aspirações, esperanças e ideais do autor (E de toda uma geração), no filme ele deve ter o mesmo tempo de tela que a Marylou.

E de novo podemos compreender o diretor e o roteirista, já que se trata de uma outra obra, com as respectivas visões envolvidas. Só que se o Dean foi humanizado, com todas as suas falhas, a sua idealização não passou pra lugar nenhum. Ela simplesmente não existe. Nesse ponto nós devemos nos perguntar: Pra que afinal adaptar o On the Road? A única resposta decente que eu consigo pensar é pra uma revitalização, ou apenas a manutenção da mensagem da obra original. E nesse aspecto, de suma importância, o Na Estrada falha miseravelmente. Ele conta a história de forma competente, sim. Mas é só. Dá pra apreciar o filme como uma homenagem a obra original, talvez. Mas uma realização própria, jamais. Ele carece do entusiasmo, de dinâmica, até de ingenuidade. Não que eu esperasse um chamado a revolução, mas só uma faísca, algo que fizesse o espectador considerar pensar um pouco na própria vida. Só que talvez até isso seja demais pra o cinema de hoje.

Em um determinado momento, em que a esposa do Dean, Camille (Kirsten Dunst), protagoniza uma cena dramática pedindo o divórcio e dizendo que vai levar as crianças, do mesmo modo que vimos tantas outras vezes, eu pensei, que filme eu tou vendo mesmo?. Isso não é o On the Road. Parece que faltou uma dose de “estrada” pra um road movie que se chama Na Estrada. O filme é parado, repetitivo, os ambientes são semelhantes. São raros os momentos onde os personagens parecem realmente “viver”. Talvez porque o materialismo vazio dos Estados Unidos pós Segunda Guerra não seja sentido, ou sequer visto. Não existe um contraponto para “a vida na estrada”. No início eu até perdoei essa falta de ritmo, é uma história fragmentada demais. Mas aí eu lembrei do Medo e Delírio em Las Vegas, livro totalmente diferente, mas com os mesmos “problemas”, que gerou um filme sensacional nas mãos do Terry Gilliam.

Mas saindo da subjetividade, o filme até que se sai bem. A fotografia é bacana, a ambientação (Ao menos visual) é foda e as atuações tão na média. Destaque pro Garrett Hedlund, competente como Dean, a Kristen Stewart se esforçando, pra variar (O que não é surpresa pra quem viu o Na Natureza Selvagem), e principalmente o Viggo Mortensen como Old Bull Lee. Além de capturar os trejeitos e a fala do William Burroughs, ele ainda acrescentou algum conteúdo de verdade pro filme, como nos poucos segundos em que reclama da tradução do Viagem ao Fim da Noite. Mas a retratação do Carlo Marx também tá surpreendentemente legal, passando do rapaz inseguro pro autor profético que viria a escrever O Uivo. Assim como a participação da Alice Braga mexicana, num segmento à la Tristessa, outro livro do Kerouac. A trilha sonora também é muito bem colocada, com um bebop característico ressoando no fundo durante todas as transições.

Só que isso não é o suficiente. Ao optar por uma aproximação objetiva, o filme consegue englobar a história e o período. Só que com uma um certo distanciamento, uma frieza melancólica. Por isso, os momentos finais no México não são tão impactantes quanto deveriam ser. A sensação de “o sonho acabou” já estava lá desde o início. Talvez um dia nós vejamos algo parecido com o que o Jack Kerouac propôs ao Marlon Brando há uns 50 anos. Porque é um tanto quanto desanimador que, na conclusão da única adaptação do On the Road, quando Sal declama, Eu penso em Dean Moriarty, a frase não represente a nostalgia que marca o fim de uma viagem, e que deixa o espectador pronto pra iniciar a sua própria. Mas sim como um chamado a realidade, um alerta. De que a liberdade não compensa.

Na Estrada

On the Road (137 minutos – Drama)
Lançamento: Estados Unidos, 2012
Direção: Walter Salles
Roteiro: Jose Rivera, baseado no livro de Jack Kerouac
Elenco: Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Viggo Mortensen, Tom Sturridge, Sam Riley, Kirsten Dunst

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  • denise

    Sua crítica é meio difícil de ler. Precisa melhorar o texto, cara. Ao contrário do que vc tenta dizer, o final é o momento máxio do filme, com uma atuação magistral e inesquecível de Garrett Hedlund. É melancólico sim, Dean está pagando pela liberdade com que sempre viveu porque o mundo, queira ele ou não, muda, e com ele, as pessoas. Sal amadureceu, ao contrário de Dean. Esse é o fim da estrada para a amizade deles. Essa é a verdadeira leitura do filme. Triste, mas verdadeira e tremendamente tocante.

  • lucas

    Hm, pode ser… Mas pô, “atuação magistral e inesquecível” não, né. E sim, o final deveria ser tudo isso aí, mas não funciona porque o filme antecipa a conclusão o tempo todo, reafirmando como o Dean tá errado, como ele é egoísta e etc. No livro dá certo justamente por ser um rompimento com o resto da história, um “choque de realidade”, digamos assim.

  • Pedro

    Achei o review bom, vc provavelmente só está discordando da opinião dele e descontou no texto. Já sobre a história, ler aquele livro é um empurrão na direção da vida. Algo que com certeza o mataria é lentidão e ultra-melancolia. Vou ver pra conferir.

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