Michel Teló – Um gênio incompreendido

Música quarta-feira, 04 de janeiro de 2012

Não, você não leu errado. Michel Teló, o cantor dos hits grudentos que invadem os carros de sons rebaixados e que movimentam quadris formosos, é um gênio incompreendido. Arrisco até dizer que, assim com Alexandre Frota, é um gênio à frente do seu tempo, que passa despercebido em meio à baladas sertanejas e whiskys com energéticos. Curioso? Eu explico e defendo isso. Confira comigo no replay.

 Assim você me mata, cara!

Rei Michel Teló, cantor, compositor, sanfoneiro, gaitista, gênio. Sua carreira começou um pouco antes de seus sucessos marcantes, quando participava do Grupo Tradição, onde compôs grandes sucessos da banda. Partindo para a carreira solo, Teló lançou sucessos como Ei, psiu! Beijo me liga, Fugidinha e agora estoura no mundo todo com o sucesso Ai se eu te pego, cuja canção já ganhou uma versão em inglês.

O seu sucesso é diferente de sucessos temporários como Parangolé e Avassaladores: Michel Teló sempre inova com um novo hit, portanto, ele não é um artista de sorte aproveitando seus 15 minutos de fama, ele é um visionário que gruda suas melodias em nossas mentes, e quando estamos quase desgrudando elas, ele surge com algo novo e maior. Pra quem não se convenceu e acha que no Brasil qualquer porcaria faz sucesso, vale lembrar que a sua última música é sucesso mundial, sendo que seu hit desbancou artistas como Adele e Coldplay nas paradas européias. Sua canção ocupa o primeiro lugar de vendas no iTunes de vários países, e recentemente o cantor saiu na revista Forbes, sendo comparado com Carmem Miranda, Gisele Bündchen, Ronaldo e Ronaldinho, outros brasileiros que fizeram sucesso lá fora.

 Delicia, Delicia!

Delícia… Mas o que leva esse cara a ser tão genial? Simples, Michel Teló fala o que o povo quer ouvir. Mas a sua música é diferente de uma simplicidade óbvia como “o povo quer água? Então faz uma música sobre água mineral”. Ele sabe o que está acontecendo na sociedade, ele sabe com quem quer falar e sabe como falar. Suas letras falam da sociedade, de comportamento, de superação e conquistas. É importante lembrar que nem todas as letras foram compostas por esse cantor, mas foi sua visão e leitura sobre elas, junto com a sua interpretação, que as tornaram sucessos. Outra coisa deliciosa em suas letras é que elas se completam, pegando os 3 sucessos do músico, em ordem cronológica, cria-se uma história em 3 momentos diferentes, tendo assim uma narrativa completa e perfeita, sobre amor, inseguranças e lições de vida. Convido vocês a analisarem essas letras comigo e concluírem também a genialidade do autor.

Ei, Psiu! Beijo Me Liga

O nosso primeiro trabalho é analisar o primeiro sucesso do cantor, analisando trechos da letra para identificar os seus significados e construir uma história.

Chegou e me notou,
Fingiu que eu não sou nada pra você.
Meu coração pirou,
meu corpo balançou, louco pra te ter

Ligeiro, Michel já começa abordando um tema muito comum na sociedade: O amor não correspondido. Temos um jovem apaixonado e esperançoso de um lado e uma moça esnobe e fria de outro. A moça em questão esnoba o pobre rapaz, que é inseguro demais para tentar algum contato.

Agora você vem me procurar
Eu sei se tá querendo é já
Me esnobou e mudou de idéia
Me deixou olhando pra platéia

Portanto tenho que explicar outra visão fantástica de Michel sobre a balada. Teló não trata essas noitadas como uma mera diversão e tampouco canta seus versos como se fossem acontecimentos de 5 minutos. Para esse gênio, a balada é uma bela narrativa com início, meio e fim. O período dessas festas dura, em média, umas 6 horas. As músicas cantadas estão inseridas dentro desse tempo e seguem as mesmas estruturas narrativas do cinema. Voltando ao trecho, a moça, arrependida, volta atrás do rapaz. O erro comum é pensar que isso tudo aconteceu em minutos, quando na verdade foram horas. Nessas horas em que o rapaz esteve sozinho e trêmulo, ele pode aprender e conhecer gente nova, o personagem cresceu e agora ele possui novos valores. E isso nos leva ao refrão:

Ei, psiu. Beijo me liga eu to curtindo a noite
Te encontro na saída

Há assim o ponto alto da narrativa, é onde nosso herói está sendo testado. É hora dele lembrar tudo o que aprendeu e escolher entre o amor carnal e o amor próprio. A resposta não poderia ser melhor, ele dá o troco e esnoba a moça. Mais do que isso, ele faz isso usando um bordão famoso pela comunidade, o “beijo me liga”, conseguindo assim falar com o seu público, criando identificações. Essa música, que parece simples e fácil, é na realidade a adaptação dos besteiróis americanos para o sertanejo. É onde o rapaz tem um amor distante, mas durante a narrativa vai crescendo e se apaixona por outra pessoa, e no fim aquele amor distante, que sempre o esnobou, corre desesperadamente atrás do herói.

Fugidinha

Tô bem na parada
Ninguém consegue entender
Chego na balada
Todos param pra me ver
Tudo dando certo
Mas eu tô esperto
Não posso botar tudo a perder

O tema dessa música é a continuação da anterior. Se antes tínhamos um jovem inseguro que foi esnobado, agora tempos um herói esperto, que já sofreu nas baladas da vida e não é mais usado e esnobado como anteriormente. Ele sabe que agora é um rapaz diferente, que é desejado, e por isso toma cuidado, como o mesmo diz “Mas eu tô esperto”. O ele ainda diz “não posso botar tudo a perder”; o que ele quer dizer com isso é que ele sabe da sua condição atual, e ele gosta disso. Um novo amor poderia por tudo a perder, pois as pessoas iriam se desinteressar dele.

Sempre tem aquela
Pessoa especial
Que fica na dela
Sabe seu potencial
E mexe comigo
Isso é um perigo
Logo agora que eu fiquei legal

Contudo é impossível ficar longe do amor. Nosso herói, apesar de estar mais confiante, maduro e sexy, ainda guarda marcas do antigo amor, tal qual não deu certo. Esse novo amor mexe com ele, de uma forma talvez maior que a outra moça mexia, mas ele sente medo de amar de novo, ele acha que pode ser perigoso, logo agora que ele se recuperou e tá numa boa.

Tô morrendo de vontade de te agarrar
Não sei quanto tempo mais vou suportar
Mas pra gente se encontrar
Ninguém pode saber
já pensei e sei o que devo fazer

O desejo é mais forte. Ele não consegue se segurar e precisa ter a bela donzela em seus braços, para isso ele elabora um plano:

O jeito é dar uma fugidinha com você
O jeito é dar uma fugida com você
Se você quer
Saber o que vai acontecer
Primeiro a gente foge
Depois a gente vê.

Uma nota nesse refrão: Ele fala “fugidinha” e “fugida”, cada uma com um significado diferente. A primeira fugidinha se refere aos dois saírem desse ambiente onde estão, pois ele não quer ninguém vendo os dois juntos, ele não pode por tudo a perder. A segunda fugida significa ir para um local sozinho e privado, onde o amor e o desejo possam ser libertados. Nesse mesmo refrão ele se demonstra um rapaz guiado pelo coração e não pela razão. Pra que pensar sobre o que vai acontecer? Vamos nos entregar loucamente como se não houvesse amanhã, depois pensamos sobre. Michel nos daqui uma lição de vida, por que nos prendemos a razão e deixamos de nos entregar aos nossos amores? Quando iremos acabar com essa guerra razão x emoção? Pense sobre.

Tem também tem outra coisa muito importante essa música, ela é um tapa na cara de todos os professores de literatura e do próprio ensino das escolas. Como isso? Simples, ela é uma interpretação rápida e direta de Romeu e Julieta. Temos um casal se querendo, porém há conflitos e eles precisam se ver em segredo. Michel Teló conseguiu traduzir isso de uma forma tão direta e bela que as vezes essa história passa despercebida, mas ele fez o que seus professores não conseguiram (Ou fizeram de uma forma chata e cansativa): Ele introduziu Shakespeare e o amor usando uma linguagem falada por esses jovens.

Ai Se Eu Te Pego

Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego
Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego

Inteiramente diferente da primeira música, onde era um jovem inseguro e apaixonado, e da segunda música, onde havia um amor pondo tudo em conflito, aqui temos uma abordagem direta e segura, nosso herói já sabe exatamente o que quer. Michel usa aqui uma referencia bem curiosa; ao expressar “assim você me mata” ele faz referencia ao sofrimento dele, mas logo após isso ele diz “ai se eu te pego”, e esse o momento quando joga o seu charme e parte para a ação, conquistando seu objetivo. Isso é a adaptação da frase “No pain, no gain”, Teló nos ensina que esse “sofrimento” se justifica porque a moça em questão é bonita e sedutora demais, mexendo com o nosso herói. Se ela fosse feia e estranha ela não provocaria essas reações, logo, No pain, no gain. Essa mesma expressão é bastante usada por pessoas que malham e procuram um corpo definido, essas mesmas pessoas freqüentam essas baladas abusando de golas pólos e copos com destilados e energéticos. Novamente Teló consegue falar com o seu público.

Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar

Novamente nosso herói está na balada. Note a frase “a menina mais linda”, justificando o sofrimento do herói e indo ao encontro do que foi dito acima. Também é importante ressaltar que ele “tomei coragem”, bem diferente da atitude na primeira música. Assim fica clara a evolução do herói durante essas três músicas.

Hoje, esse gênio, ainda incompreendido por muitos, usa a balada e o ambiente para nos dar lições de vida, pois assim é mais fácil falar com o seu público. Nas três músicas temos lições sobre correr atrás do que quer, tratar bem os outros, paixões secretas e amor próprio.

O grande artista consegue ainda falar de uma forma divertida e alegre, conquistando milhares de pessoas ao redor do mundo. Michel conseguiu fazer uma trilogia perfeita com essas músicas, agora temos que esperar seus novos trabalhos e ver o que podemos aprender com esse grande gênio da música brasileira.

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  • Cinemarco Cineclube

    Caralho.. tu que és um visionário em escrever isso… Credo, tais alimentando o câncer.

  • yuri

    AHUHUAHUUAHHUAHU.. Imagina essa criatividade canalizada pra alguma coisa boa?

  • O pior é que ainda tem gente perdendo tempo com isso ‘-‘ [parabéns pelo texto, mas acredito que tanta ‘criatividade’ poderá ser melhor aproveitada] =D

  • Deks

    HAHAHAHAHA! Curti!

  • Filipe Pellegrino

    porra, voltei para as minhas aulas de literatura! hahahahaha

  • Vinicius C.

    Até que enfim alguem com bom gosto por aqui

  • you, sir, got my respect 
    muito bom auahuahuahaha

  • texto muito bom mas mesmo após ler não fez as musicas dele parecerem boas =X

  • Puff.

  • João Gabriel

    Depois de ler esse texto, o que eu posso dizer é que o único gênio incompreendido aqui é o ricardo.

  • Arthur Souza

    Concordo plenamente.

    Acho que você esqueceu apenas de mencionar o valor estético existente nas letras, que gozam de uma simplicidade drummondiana mesclada com a profundidade simbólica de Baudelaire. Mas acredito que devido a complexidade e da revolução poética existentes em tais músicas, seria leviano não escrever um texto apenas para tal.

  • Andre Forastieri

    Parabéns. Matou a pau.

  • N4gu4l

    Well done, sir.

  • Roberto B. R. Alvim

    talvez TELÓ, Michel seja o maior troll brasileiro, zuando da cara desse povo extremamente previsível que vai nas famosas ‘baladas’ sertanejo 

  • Rodolpho Coutinho de Souza

    nem perdi meu tempo lendo! meu filho, vai estudar música e um pouco de cultura popular, e para de escrever besteiras.

    ass: Rodolpho Coutinho

  • Ricardo G. Souza

    poxa Rodolfo, como assim?
    Eu estudei Michel Teló, o maior músico da atualidade, creio que não preciso ir mais a fundo quando minha fundamentação teórica é esse grande gênio. E sobre cultura popular, to direto nas baladas observando o povo, sei de tudo cara. Acho que você não leu meu referencial teórico.

  • Ricardo G. Souza

    Caro Arthur, creio que poderiamos construir um belo trabalho se compartilhamos nossos conhecimentos. Obrigado pelo comentário e pela sugestão.

  • Ricardo G. Souza

    Latino é outro grande troll da música brasileira HAHA

  • Ricardo G. Souza

    peidou?

  • Jade Zamarchi

    Eita, o negócio é começar a colocar *IRONIA* nos finais de texto. HAHAHAHA

  • Állan César

    Na minha opinião, ele deveria ser laureado como membro de honra na Academia Brasileira de Sertanejo Universitário, ao lado de gênios como Bruno & Marrone e Luan Santana. Absolutamente formidável.

  • Sarcasmo é uma dádiva.

  • Jose

    O problema é quando 2 músicas geniais mencionadas nem são de autoria dele… Michél Teló só é visionário em saber qual música kibar

  • Koori-dono

    Eca…

  • Mas “ai se eu te pego” não é uma letra dele, certo?

  • Ricardo G. Souza

    “É importante lembrar que nem todas as letras foram compostas por esse cantor, mas foi sua visão e leitura sobre elas, junto com a sua interpretação, que as tornaram sucessos.”

  • Ricardo G. Souza

    E quem não gosta de kibe? recheado com requeijão e um limão por cima hmmm

  • Matuhatin

    Rodolpho Coutinho de Souza estudou tanto música que esqueceu de deixar de ser tão burro. =P

  • Matuhatin

    Nem “Fugidinha”.

  • Eucledson

    É muito enraçado como o ódio ou a idolatria consegue cegar as pessoas, rs. Interpretar uma ironia ou sarcasmo fica tão difícil quanto ler “Ilíada” de tráspara frente bêbado.

    Observação importante: apesar da qualidade do texto, o mesmo já está desatualizado! O mais recente episódio da saga do nosso “herói-baladeiro”, o hit “Humilde residência” já está bombando! 

    Após viver toda a glória e esplendor de ser “o cara’ da balada, nosso heroi volta para o fundo do poço, feito Rocky Balboa em “RockyV”, mas assim como o lendário lutador, nosso baladeiro prova que o que importa não é o crédito em seu cartão, mas sim destreza de seu espírito!

  • Ricardo G. Souza

    Mas já tem um novo hit? Maldito Michel Teló, mal posso ver seus movimentos.

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