Quem trouxe esse filme á minha atenção e finalmente me fez assisti-lo foi o Paulo Jr., na sua coluna sobre a diversidade do cinema oriental. Mesmo quem já está acostumado com a estética e cultura “um pouco” diferentes dos asiáticos, sempre fica com o pé atrás ao começar a assistir um desses filmes que não pertencem ao agora conhecido gênero de horror oriental. Mas aqui temos uma grata surpresa.
Oldboy (2003)
O roteiro não deve ser detalhado aqui, pois é parte fundamental da experiência de Oldboy. É um desses filmes em que o entretenimento depende muito da confusão inicial do telespectador, como Memento (“Amnésia” aqui no Brasil). O que você precisa saber é: Oh Dae-Su é um bebum que foi raptado e ficou preso por 15 anos. Depois desse período ele é solto, e agora vai tentar se vingar de quem fez isso com ele.
Eu sei que parece enredo de filme ruim, tipo “Hora do Rush”. Mas, por favor, ignore as sinopses que viu por aí. O que menos interessa no filme é esse resumo do enredo. O que mais interessa é: QUEM raptou Dae-su, POR QUE soltá-lo depois de 15 anos e POR QUE raptá-lo em primeiro lugar. Essas perguntas são respondidas através de uma narrativa surpreendente, que não é confusa como em “Amnésia”, mas se desenrola de forma muito natural e com um final bem amarrado. Os 15 minutos finais do filme realmente me surpreenderam, com muita coisa acontecendo em cenas com alto conteúdo dramático.
Isso me lembra Manhunt. (Playstation 2)
Todos os atores do filme são absolutamente geniais. Fica difícil para nós ocidentais avaliarmos o desempenho de atores orientais, já que a cultura deles normalmente pede uma atuação que ás vezes nos parece exagerada, com muitas caras e bocas. Mas mesmo com essa nossa ignorância, é impossível não se admirar com a riqueza e originalidade dos personagens. O filme não tem heróis, todos que aparecem em cena têm algum pecado ou transtorno sério de personalidade. E conforme a história vai se desenvolvendo, vemos como esses personagens são realmente muito humanos e lesados, o que faz com que a gente se aproxime ainda mais da história e aumente o interesse pelo filme.
Até mesmo as cenas de ação fogem aos clichês. Dae-su passou anos treinando luta em seu cubículo, como todo bom cativo que não tem porra nenhuma pra fazer. Quando é solto, ele sabe lutar e se virar, mas não significa que virou o Batman. Em uma das melhores seqüências do filme vemos Dae-su derrubando, sei lá, uns 20 caras, SOZINHO e só com um martelo na mão. Mas a cena foi montada e filmada de tal maneira que não ofende o telespectador e nem faz a gente pensar “Até parece que alguém consegue fazer isso”, tipo aquelas cenas de “Triplo X”. Dae-su leva muita porrada, se arrasta pelo chão, pára pra recuperar o fôlego, usa golpes baixos, e no final está todo quebrado. Como deveria ficar QUALQUER UM que briga com uma dezena de caras ao mesmo tempo. Definitivamente um filme fora dos padrões.
Esse é o vilão de Oldboy. Você vai ficar confuso. De um jeito bom.
Oldboy, em minha opinião, é um desses filmes que transcendem o seu contexto cultural; Sem contar com orçamento bilionário e nem efeitos especiais estrambólicos, consegue contar uma história inteligente, com validade universal. Coisa quente, cara.
Recomendação final: Oldboy é um dos exemplos do que existe de melhor no cinema oriental. Se você não gostar de Oldboy, então fique só com o cinema americano mesmo.
Ah, vai. Vocês sabiam que eu ia falar de 28 Weeks Later, depois de falar de 28 Days Later. Tava na cara. Muita gente torce o nariz pra continuações de filmes, inclusive eu. Mas felizmente existem algumas exceções á regra de que toda continuação é uma bosta. Sem falar que filmes de zumbis nunca são demais. É como pizza, e mulher pelada: você nunca cansa de ver e comer (não necessariamente nesta ordem).
28 Weeks Later (2007)
O roteiro segue os rastros sanguinolentos do primeiro filme: os militares conseguem retomar o controle do território, passando fogo em todos os zumbis e mandando a população pra fora do Reino Unido. Agora tentam repovoar a Inglaterra, trazendo de volta a população para morar em áreas de segurança. Mas alguma coisa restou. Woooooo!!
Claro que 28 Days Later precisava de uma continuação. E aqui temos exatamente tudo o que uma continuação tem que ser: maior, melhor e com mais zumbis. Também é evidente que pra ter uma continuação o vírus precisava sobreviver em algum lugar. E a história de como o vírus sobreviveu é contada no início de 28 Weeks Later.
A explicação não é genial ou surpreendente, mas ela não importa muito. O que importa é o modo com a história é contada: mostrando um pai de familia que ninguém hesitaria em classificar como motherfucker, mas que é pego em uma situação onde ou ele foge ou ele morre. Ele escolhe sobreviver, e isso é essencial para que o vírus se espalhe novamente. Veja o filme pra saber como aconteceu, porque eu não sou de ficar dando spoilers sobre a história. Mas o momento da escolha do cara é muito bem montado, é impossível você não se perguntar o que faria no lugar dele. E claro, tudo em meio a um ataque nervoso de zumbis.
Depois dos momentos de escolhas morais, onde sua namorada vai xingar o coitado do protagonista, o filme corta para as 28 semanas depois, propriamente ditas. Londres tranqüila, sendo reconstruída aos poucos. Tudo sob a tutela dos militares, que controlam a parada. Essa parte é só pra ir criando o clima para a nova infestação que vem daqui a pouco, então vai curtindo o sossego e se preparando.
Aí, começa o que todos querem ver: o pau comendo, o bicho pegando, a casa caindo. Embora o diretor não seja mais o Danny Boyle, as cenas de ação do segundo não ficam devendo em nada ao primeiro. O cara captou o espírito do “filme de zumbi moderno” e dá mais do que a gente gosta de ver, com filmagem crua dos ataques e câmera na mão, pra dar aquela sensação de documentário, ao invés daquela artificialidade de super-produção hollywoodiana.
É isso aí malandragem: quem corre mais, chora menos.
Mas enfim, uma alegria do começo ao fim. O tipo de filme que te tira do ar por mais ou menos uma hora e meia e te deixa sorrindo depois, por ter sido tão divertido.
Recomendação final: Cara. Só não assista se você for TANGA e não gostar de sangue, e violência, e… ah meu, tudo essas coisas que tanga não gosta.
Tá bom, esse filme nem passou batido. Acho que chamaram de “Extermínio” aqui no Brasil. Mas estou me dignando a fazer uma rápida apresentação dele mesmo assim, porque existem motherfuckers que ainda não viram 28 Days Later e nem sabem do que eu tô falando. Isso é um desabsurdo. Precisamos preencher essa lacuna cultural na formação de vocês.
28 Days Later (2002)
Como todo filme mega-bom de zumbis, o enredo é muito simples: vírus criado em laboratório escapa, contamina a população e 28 dias depois todo mundo vai pra fita. Quem não vai pra fita virou zumbi.
Como assim? Zumbizismo é uma doença? Claro que é. Assim que é legal. Nego dá uma mordida no outro e o outro vira zumbi. É uma mistura de zumbi com vampiro, o que é uma idéia muito boa. Por que raios não fazem logo um filme onde PIRATAS viram zumbis? Ah é, já tem o “Piratas do Caribe”. Mas os piratas-zumbis não são vampiros ainda. Então falta isso: Piratas Zumbis do Caribe vs. Dracula, o Lobisomem da Transylvania. Orra, ia ficar do caraleo, hein?
“Agradeça por tudo que você tem, porque logo não vai sobrar mais nada.”
Mas voltando ao 28 Days Later; o que poderia ser só mais um filme sofrível sobre mortos-vivos, sofre uma virada graças á direção de Danny Boyle (“Cova Rasa”, Trainspotting) e ao roteiro muito louco de Alex Garland (“A Praia”, e também fazendo o roteiro de HALO, o jogo que vai virar filme). Aqui os zumbis não são aquelas coisas rastejantes que chegam a dar raiva, de tão lerdas. Em 28 Days Later os caras levam uma mordida e ficam PIRADOS, eles simplesmente atacam e COMEM quem tiver por perto, parece um bando de cão raivoso. Imagine um MONTE de zumbi, tudo cheirado, correndo de um lado pro outro, parecendo uma nuvem de gafanhotos esfomeados. Dá gosto de ver.
Aí temos um magrão que acorda sozinho no meio de um hospital. Depois que Londres já foi varrida pela praga, e os zumbis que sobraram já vazaram da cidade pra ir procurar comida em outro lugar. Cara, é um dos pontos altos do filme. Ver o cara vagando por uma Londres completamente vazia. Não “completamente”, lógico. Mas veja o filme pra saber. A desolação e a tranqüilidade da cidade contrastando com a correria que acontece nas outras partes do filme. Isso que é cinema de arte.
Me sinto só.
Aí ele encontra mais gente depois. Porque senão não ia ter muito filme pra assistir e tals. E eles têm que fugir dos zumbis que tão por aí, tocando o horror. E acabam achando uma base militar. Entram lá, arranjam umas tretas, mas terminam o filme CHUTANDO BUNDAS de zumbis. Todo mundo gosta de final feliz.
É aquele tipo de filme que fica tão bom, e traz idéias tão novas para o gênero, que estabelece parâmetros para os filmes que virão depois. Lógico que nunca mais vamos ver filmes com zumbis rastejantes depois de 28 Days Later. Zumbis rastejantes são muito anos 70. Muito século passado.
Recomendação final: Curte zumbis? Nem pense duas vezes antes de alugar, então. Não curte zumbis? Qual é o seu problema?.
Em tempos de internet e oferta enorme de filmes, fica difícil separar o joio do trigo, e saber se você come o trigo ou assiste o joio.
Ok, isso não fez sentido.
Mas, enfim, quero apresentar pra vocês alguns filmes que descubro por aí, assisto e penso “porra, esse filme é legal, pena que ninguém assistiu pra discutir ele comigo”. É importante ver algumas coisas fora do esquemão, para saber o que assistir enquanto não lançam Sin City 2 e Silvia Saint Sex Explosion Monkeys Part 6.
Ælá em casa.
O esquema é aquele: screenshots do filme, comentário e recomendação final. Tire suas próprias conclusões mais aprofundadas depois de assistir ao filme, que é o que interessa.
Sunshine (2007)
O enredo é simples: em um futuro próximo, o Sol está se apagando, e uma missão espacial é lançada pra jogar uma bomba de nêutrons (suponho) pra dar um reboot no Sol.
É, eu também achei que ia ser uma merda. Como aquele filme que os caras tentam ir até o centro da Terra e tals. Mas dê uma chance. Sabe quem dirigiu Sunshine? Danny Boyle, mano. O mesmo de 28 Days Later e Trainspotting. Dá pra sentir a mão do cara no filme, com tensão do começo ao fim, que é o filé mignon dessa película.
Começa pela tensão entre os tripulantes, que claramente têm visões diferentes sobre quais são as prioridades na nave. Muito cedo você nota os problemas de negociação de interesses que acontecem ao confinar pessoas em um espaço limitado. Escolheram atores muito bons e razoavelmente desconhecidos do grande público, o que ajuda você a se identificar com eles, e gostar mais de uns do que outros.
Olha QUANTA gente pra morrer nesse filme.
Depois tem a tensão própria da missão, que ninguém sabe se vai dar certo ou não. Porra, jogar uma bomba no Sol pra ver se ele dá uma animada? Tá parecendo churrasco de domingo, quando você vê que acabou o álcool e precisa acender o fogo. Mas a incerteza da missão passa para o telespectador e, embora não seja central no filme, você fica torcendo pela porra do final feliz, pra ver se salvam a Terra.
Adicione ao enredo o fato de que no meio do caminho eles acham a nave da missão anterior, que não deu certo. É lógico que eles vão até a nave, né? E é lógico que tem alguma coisa lá, né? Pois é, assista.
Lembre-se, esse filme não é um blockbuster. O filme é muito refinado, coloca uma ênfase imensa nas imagens, fotografia, efeitos sonoros e psicologia dos personagens. Filminho pra se ver com calma, que vai te conquistando devagar, sem montanha-russa emocional. Lembra os melhores momentos de 2001: Uma Odisséia no Espaço. Não aqueles momentos finais, que são muito loucos. Aqueles momentos onde você vê o homem lidando com forças maiores do que ele, exilado de seu planeta natal e metido em uma situação potencialmente enlouquecedora. Aliás, Sunshine tem uma versão feminina do HAL, o computador pirata de 2001. Danny Boyle deve ser fã do Kubryck.
Recomendação final: Gosta de filmes de sci-fi, mas não agüenta mais as porras de Armageddon que tem por aí? Legal, Sunshine é pra você mesmo.
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