Falando sobre My Generation

Música sexta-feira, 15 de março de 2013

Em 1965, a banda britânica The Who lança seu disco de debut, My Generation. A música homônima, um dos maiores sucessos do grupo, fala sobre como a geração que eles faziam parte não era entendida pelos outros. Hoje eu botei um disco deles na vitrola, uma coletânea, e a primeira música foi justamente a referida e me levou àquele momento de epifania que a gente só vê nos filmes. Parafraseando a música, irei falar sobre a minha geração.

A banda, no começo de sua carreira, foi fortemente identificada com o grupo urbano mod, contração de modernista. Os mods não eram nada além que jovens que tomavam anfetaminas e badernavam, utilizando ternos bem cortados. Um bando de hedonistas, mas que tiveram lá sua glória, pois tiveram grandes expoentes musicais. Grande parte das bandas britânicas surgidas nessa época e que tinham um The como primeira palavra do título eram identificadas com o movimento, como The Animals, The Kinks, The Yardbirds. A preocupação do Who em marcar seu território, e o território dos seus iguais era nítida e foi bem sucedida. Mas e a nossa geração? Essa que nasceu no final dos oitenta, começo dos noventa. Qual é o nosso território?

Na música, nas literatura, nas artes plásticas, o que é domínio de nossa época? Esta geração dos anos 60 ainda ouvia os ecos dos beats, e a pop art estava atingindo seu auge. Existiam ídolos vivos e mortos. E hoje? Cazuza, já nos anos oitenta, clamava por ideologia. A crise de identidade que começava a se desenhar pode ter se tornado realidade?

Não existe um cantor ou banda, escritor ou artista plástico que sintetize as emoções, as apreensões e os desejos, não há alguém que dê o grito de nossa geração. Não que eu ache que isso se dá pela falta de qualidade humana, provavelmente não é esse o problema. Mais provável é que estejamos olhando para uma época, e é quase certo, que não existem inimigos que unam nós, os jovens. Não há nada que nos leve a refletir conjuntamente. No Brasil, houveram várias revoluções culturais, como a Tropicália e o Cinema Novo, que foram “preparados” para um público que tinha (Pode-se discutir a validade disto hoje) apreensões revolucionárias. Ouvi de uma pessoa esta semana tal frase: “Obras revolucionárias precisam de público revolucionário.” Nada mais verdadeiro.

Revoluções que não mais existem, muita coisa não nos interessa mais. O que interessa é pontual. Os interesses são tão difusos quanto fugazes. Luta pelo direito de extrair o pelo do mamilo esquerdo, luta pelo fim dos controles de televisão em formato fálico. Adeus às grandes questões. As pessoas pensam o controle, mas não pensam a TV mais. Não tem jeito de se criar um movimento social ou artístico que seja homogêneo, por conta da transitoriedade e grande quantidades de questões que são levantas hoje em dia.

Como grande parte dos direitos estão conquistados, a maioria da população não passa mais fome e a indústria, claro, nos enxágua com muitos produtos que facilitam nossa vida, a juventude sobre a qual escrevo se assentou. Acalmou. Ou pior, acomodou-se. Ou o que pode ser pior duplamente: Começou a se “conservadorizar”. A vinte anos atrás seria impossível pensar, por exemplo, em uma juventude PSDBista, como hoje existem, e que pipocam nas universidades. Não vou entrar em discussões políticas aqui, não é esse o foco, mas o PSDB é um partido majoritariamente ligado às questões burguesas, tão caras como inimigas dos jovens.

Mas apesar disto tudo que falei, eu vejo um esforço interessante por parte dos artistas e dos grupos urbanos, as tais “tribos”. O retorno ao passado com uma pitada de moderno. O vintage, se preferir, é a moda mais poderosa e duradoura de nossa geração. As bandas fazem um resgate às músicas de quarenta anos atrás, no mundo todo. Livros de diversos poetas renomados são relançados, e de poetas contemporâneos são lançados. Os aparelhos ganham uma roupagem antiga. As roupas também. Até bigodes! Bigodes podem ser vistos por ai. Os pessimistas vão dizer que isso é o sintoma da falta de identidade. Eu direi que não, isto é o substrato de uma nova identidade antropofágica, onde se reúne o que se quer do novo e do antigo, e se cria uma coisa que não é nova, mas é diferente.

E ai a nossa geração se define, pelo mimetismo, pelo pastiche. A nossa geração é parecida com os filmes de um dos diretores mais cultuados da época, Quentin Tarantino: Um amontoado de referências e influências de um tipo de cinema que não se faz mais. É um processo de bricolagem.

Leia mais em: , , ,

Antes de comentar, tenha em mente que...

...os comentários são de responsabilidade de seus autores, e o Bacon Frito não se responsabiliza por nenhum deles. Se fode ae.

  • Julio Kirk

    “Questões burguesas” não são inimigas dos jovens. Nem é preciso tender pra esquerda pra ser “revolucionário”, como seu texto deixa implícito de vez em quando. Só falando, já que debater política aqui não é o ponto. Já sobre a nossa geração, é certo que nela há um vácuo intelectual, que todos os dias é preenchido pela idiotice do momento. As causas disso, suspeito eu, precisariam de um site inteiro para serem investigadas…

  • As questões burguesas são inimigas claras dos grandes movimentos de juventude. Apesar de não serem inimigas de todos os jovens. Por exemplo, movimentos conservadores na juventude não são exclusivos de nossa época. Hoje eles têm uma representatividade e aceitabilidade diferente. Agora quanto ao termo “revolucionário”, não posso concordar. É um campo de disputa tenso. Eu vou me posicionar à esquerda, então revoluções são transformadoras “positivas” da estrutura social.

    Quanto ao vácuo intelectual, não posso discordar mais de você, do que em qualquer ponto. Existe material intelectual e humano qualificado suficientemente para que isso não seja verdade. O que eu não sei é se eles atingem a maioria da população, como ao bem da verdade, nunca atingiram.

  • E eu estava extremamente bêbado quando escrevi isso.

  • Julio Kirk

    UHAUHAUHUHAUHAHUHUAUHAHUUHAHUAUHUHAUHAUHAUH

busca

confira

quem?

baconfrito