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baconfrito quarta-feira, 29 de junho de 2016

Vamos fazer um levantamento: A política nacional tá uma bagunça; a política internacional tá uma bagunça; desde o começo do ano ataques terroristas tem sido constantes – diários até – em todo o mundo; o mercado financeiro está o mais instável que já esteve desde 2009 (E, considerando no Brasil, pior que em 2009); tem países aqui na América do Sul que estão à beira de um colapso político-econômico; metade da Europa oriental tá em guerra enquanto a outra metade tá em crise; o mesmo tipo de crise que o resto do continente americano; a Ásia está inchando pra explodir; a Oceania está praticamente numa recessão (Pra não falar em ditadura); e pra quem acha que tudo é desgraça, o Oriente Médio está na mesma muvuca que está há quase sete décadas, então eles estão bem.

Isso tudo pra dizer o que todo mundo já sabe: Não é hora pra produção cultural nessa nossa bolinha azul.

Deixando, por um momento, o cinismo habitual de lado, vejamos o principal argumento à favor da exuberância do entretenimento: Rir pra não chorar. Ou ainda “ver o lado bom da coisa”. Acontece que essa história de rir da própria desgraça é só um tapinha no ombro, e de um jeito ou outro deve-se lidar com o problema, seja este qual for. Falando especificamente da produção de conteúdo, é o argumento de que, em “tempos difíceis” é necessário o entretenimento para manter as pessoas calmas e ocupadas, dando-as “um tempo” para pensar, se acalmar e se organizar, ou ainda como forma de prevenir ataques generalizados de pânico, histeria e/ou, em última instância, um agravamento da situação como um todo não por conta da falta de controle do “ânimo” geral, mas sim de esforços ativos por parte desta para irem contra o processo de estabilização (Independente de como este seja alcançado); um exemplo seria, durante uma guerra entre dois países, um deles passar por uma guerra civil, iniciada pela população não envolvida diretamente na guerra internacional.

Não que não funcione, mas como qualquer outra coisa, há limites. E esses limites são mais claros e mais fáceis de serem ultrapassados não apenas pela facilidade de acesso à informação, mas pelo simples fato de que tem gente pra caramba nesse planeta.

Não que o ser humano tenha evoluído grandes coisas como espécie e muito menos como sociedade, mas é uma questão de fatos: Temos, mais do que nunca, uma gigantesca capacidade para diversos fatores-chave nessa brincadeira. Registro de eventos, documentação, troca de informações, rotas de comércio, sistema de trocas internacionais. Temos conferências, convenções, bienais, conselhos, clubes, sindicatos, centros, instituições, alianças, uniões, palestras, circuitos, congregações, mesas redondas, congressos, colóquios, fóruns, feiras, simpósios e workshops sobre absolutamente tudo. Comunicação, hoje mais do que nunca, é um Rule 34 do caralho.

E, como não pode deixar de ser, quanto mais perto se chega de um limite, mais óbvio este é. E o que antes parecia “espaço” suficiente para se fazer o que quiser, agora parece mais e mais com uma jaula que está ficando apertada. Agora, mais e mais, está ficando óbvio que ocupar a mente com outra coisa não facilita nada, e que rir não melhora situação alguma. Junte essa realização com os fatos de que as bases do nosso sistema social (Política, economia, sociologia, etc.) estão enfrentando problemas graves há muito tempo, tem-se o resultado que vemos hoje: Uma maior preocupação com o “mundo real” e os “problemas de verdade”, o que leva à uma crise no entretenimento ocupacional. Quando mais gente preocupada com o destino do país, menos gente ligando pras estreias da semana que tá uma disgraçera só, vô te dizê.

E isso é muito bom.

 Sim.

Não vou enveredar por um discurso de engajamento social, afinal é pra isso que serve o Feissebusque, mas sim pro lado contrário, ou seja, da produção de entretenimento.

Como em qualquer época em que ocorre a desvalorização do dinheiro, agora é um bom momento para fazer grandes compras e investimentos. Claro, pra isso precisa-se de dinheiro pra início de conversa, mas considerando que esta etapa já foi, todo o resto é muito mais fácil e muito mais barato: Quanto menos dinheiro circulando, maior oferta. Esta balança significa que, para quem tem capital e quer iniciar um projeto qualquer, o mercado está a ponto de bala. Por outro lado, para quem não tem capital, está tudo uma merda. A maior parte do público está na merda, mas isso não significa que os produtores de conteúdo estejam. Isso significa que a produção cultural está num bom momento: Se cria bastante porque há matéria prima, há oportunidade de negócios, há abertura no mercado e há, ainda que de força capenga e reduzida, procura por parte do público. Em outras palavras, se você tem uns 15 mil reais de bobeira aí e sempre sonhou em fazer uma série em quadrinhos sobre o cangaço, a hora é tua. Porém também significa que se você sempre sonhou em fazer uma série em quadrinhos sobre o cangaço e está esperando levantar 15 mil reais por financiamento coletivo, você se fodeu.

Mas como já diria a tua vó, “não é porque você pode que você deve” fazer alguma coisa. E pular no mercado do entretenimento não é exatamente uma boa ideia agora. É verdade que é um bom momento do ponto de vista financeiro para você, criador, mas além de não ser um bom momento para você, consumidor, tem coisas mais importantes que o cangaço em nanquim rolando por aí. Tem de balde, diga-se de passagem, seja a fome na África (Um clássico) ou o Reino Unido em treta geral; pra todos os gostos, religiões, orientações políticas e sexuais, nacionalidades e, se você curte essas paradas, todos os tipos de troca de favores.

 Eu não queria dizer nada mas procurar por “teste do sofá” no Google só retorna foto de famosa.

As grandes produções, com lançamentos internacionais, produção multimilionária, grandes campanhas promocionais e todo esse auê que a gente já conhece estão minguando. Hollywood tá em crise, as séries de TV tão em crise, as novelas tão em crise, Bollywood tá em crise, o mercado de quadrinhos tá em crise… Até o mercado nacional de RPG, que apesar de não ser tão grande, vinha tendo um bom crescimento nos últimos anos, retrocedeu, e olha que não só é um nicho carente de oferta como também é um que conta com um público alvo fiel. A bem da verdade, apesar de ser um bom período pare quem quer criar conteúdo e novos produtos, pouca gente realmente tem o capital para isso. O mercado de automóveis aprendeu com 2009, o mercado do entretenimento não.

E quando se trata do público, obviamente este prefere apostar no que é garantido: Indie é um luxo, tanto quanto o financiamento coletivo ou objetos de decoração de jardim. É por isso que, por pior que seja, tem um novo Transformers chegando em 2017: É ruim, ninguém liga muito e não vai realmente “fazer sucesso”, mas vai arrecadar, garantindo uma nova continuação. É por isso que há mais e mais continuações de franquias já conhecidas e remakes desnecessários que novos lançamentos. Por isso que o de cima sobe e o de baixo desce há a necessidade de colocar as fichas no que agrada à um público grande e variado, deixando de lado a especialização em prol do meio termo. E isso requer, indiscutivelmente, nivelar por baixo.

Personalização requer estabilidade. Se você tem um produto generalista, ótimo, caso contrário nem todo incentivo propiciado pela ampla oferta pode te ajudar. Não se você preza pelo seu trabalho. E sejamos sinceros, a chance de qualquer um sobreviver à uma perda financeira de grande porte é ridiculamente baixa, seja uma corporação bilionária ou não. E as grandes empresas têm o luxo de não terem cara e nem sentimentos para serem feridos. É um tanto cruel, na verdade, porque a cobrança continua sendo a mesma, em crise ou não, com altas ou baixas apostas, e nada mais justo, afinal é um produto de consumo com preço a ser pago e tempo a ser gasto para usufruí-lo, mas atingir esse nível de satisfação do cliente fica cada vez mais difícil.

Então, tipo assim, pelo bem todos e a felicidade geral da nação, espera um pouco. Preste atenção ao planeta ou às baleias beluga ou ao STF, mas não gasta tempo, dinheiro e esforço agora. Porque ainda que você supere todos os obstáculos do mercado atual, você vai ter que lidar com o fato de que o público que normalmente te daria suporte não prestando atenção em você. E o público está muito certo nisso, mas não quer dizer que seja melhor pra quem cria entretenimento.

Com isso eu não quero dizer que tudo que é feito atualmente é lixo, nem que precisa da rios de dinheiro pra fazer algo e nem que a sua obra não é o boa o suficientemente para se destacar, mas sim que em nível artístico você vai se frustrar, em nível pessoal vai entrar em falência e em nível civil vai ser taxado de alienado e alienador. Porque independente do que você faça neste momento em que estamos vivendo, não importa. Simplesmente não é o mais importante rolando por aí. E antes que alguém fique muito feliz consigo mesmo por fazer tirinhas de boneco palito dizendo pro Temer ser mais bonito, recatado e do lar, esse seu militantismo safado é só uma massagem no seu ego.

Eu não tenho como prometer que, daqui uns meses, tudo vai estar muito melhor e será então uma nova época de ouro da produção cultural, e pode ser sim que você não viva para isso, ou que, quando tal período chegar, sua época e oportunidades já tenham acabado: É um risco a se correr. E dando uma chance ao otimismo pode ser que a sua obra seja exatamente o que o mundo precisa pra resolver todos os grandes problemas que tanto nos afligem… Só não há garantia que o público se dará a oportunidade de perceber isso.

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