Conto: Um sonho de sonhador

Analfabetismo Funcional terça-feira, 19 de abril de 2011
 Não, não estou falando desse sonho

Essa noite eu tive um sonho. Como diria Raul Seixas, “um sonho de sonhador”. Pois é, maluco que sou, sonhei que os sonhos de todos indivíduos de um país se realizavam do dia para a noite. Bem ao menos, em tese, seriam realizados se não fossem as contradições surgidas nesse processo.

Como todo sonho, no momento que é sonhado tudo faz sentido, tudo se encaixa perfeitamente. Depois que acordamos notamos as bizarrices de um mosaico que não encaixa. Começamos a contar para alguém e percebemos que tudo aquilo, geralmente, não tem um mínimo de verossimilhança.

 Essa é minha reação quando me lembro de sonhos bizarros

Enfim, deixemos as divagações de lado e vamos meu “sonho de sonhador”. Eis que o país passou a ser administrado por diversos Presidentes da República, o “emprego dos sonhos” de muitos. Não havia conflito de egos, nem divergências, todos tomavam decisões por voto da maioria, numa espécie de órgão colegiado.

Quase não se via garis na ruas, pois os “empregos dos sonhos” de 99,999999% das pessoas envolvia algo supostamente mais “glamoroso”. Contraditoriamente, as ruas não eram sujas, pelo contrário, eram limpíssimas, afinal de contas muitos sonhavam com um cidade limpa e um meio ambiente livre de poluição.

Também não havia pobreza ou miséria. Muita gente ganhava na mega-sena ou loterias afins. Ocorre que o número de ganhadores era tamanho que o prêmio, de tão rateado, acabava sendo baixíssimo. Outros, mais espertos, simplesmente sonhavam em nascer ricos e nunca precisar trabalhar.

Além dos sonhos, digamos, profissionais, a aparência das pessoas mudou. Corpos “definidos e sarados” passaram a ser padrão. As mulheres, salvo raras exceções, eram todas belíssimas, se dividiam entre dois estilos: modelos magérrimas, com pernas quilométricas; e o tipo “cavala gostosona silicona e popozuda”.

Os carros que se viam nas ruas eram um verdadeiro desfile, digno de qualquer grande exposição de carros esportivos. Apartamentos e casas luxuosos eram habitados pela maioria da população. Doenças foram curadas e pessoas passaram a ter uma saúde de ferro.

Tudo parecia ir bem até que uma apatia passou a dominar a população. Sonhos realizados, não havia mais ganas para se viver. Não havia objetivos para se alcançar, obstáculos para se superar, nem adversários para se batalhar. Essa melancolia que abateu a todos devia-se, inquestionavelmente, ao esgotamento dos sonhos, que acarretou numa coletiva falta de vontade de viver o futuro.

Essa noite eu tive um sonho. Maluco que sou, acordei.

É, amigos, talvez eu tenha que ler menos Saramago

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