Conto: Realidade paralela

Analfabetismo Funcional terça-feira, 31 de agosto de 2010

O isqueiro falhou. As faíscas estalavam em vão. O fluído havia acabado e ele só poderia repô-lo quando voltasse para casa. “Não sei porque ainda insisto em usar Zippos” – pensou o Alex. Essa prometia ser mais uma longa e solitária noite na Penitenciária de Segurança Máxima em que ele trabalhava. Os cigarros eram a única companhia e distração durante a longa escuridão, cheia de sombras e sons fantasmagóricos naquele lugar fétido.

O tempo se arrastava como um soldado baleado na batalha tentando retornar para a trincheira. O relógio apontou a primeira hora da madrugada. “Vamos à ronda”. Alex verificava as celas, via se tudo estava em ordem, dava um ‘alô’ para o taciturno carcereiro do outro pavilhão, tomava café e voltava pelo mesmo caminho. A rotina era quase hipnotizante, e só era quebrada, eventualmente, por um algum incidente, como alguém gritando durante um pesadelo. A nicotina fazia falta. “Maldito vício”.

Ao menos aquela jornada parecia ser tranqüila, sem pesadelos, gritos ou brigas. Até que, subitamente, tudo escureceu. Um instante depois, Alex despertava com a mente um tanto confusa, como se sua cabeça fosse um céu nublado, numa escura tarde de ventania. Uma espécie de torpor que o impendia de entender o que havia acontecido, ou onde estava.

Alguns minutos passaram-se e alguém se aproximou, identificando-se como seu psiquiatra. Após algumas palavras, Alex situou-se e entendeu o que ocorrera. Em verdade, tudo não passara de mais um surto psicótico, durante uma noite no manicômio em que estava internado há 12 anos, desde que fora diagnosticado esquizofrênico. Durante os surtos ele imaginava-se como carcereiro de uma Penitenciária e passava a noite perambulando pelos corredores da ala de “pacientes de baixa agressividade” do manicômio. O surto só era interrompido, ou controlado, quando algum enfermeiro notava a movimentação e apicava-lhe um “sossega leão”. Quando o paciente acordava e o efeito da medicação diminuía, tudo lhe era explicado e a outra realidade retomada. Quem realmente é louco?

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  • luis otávio

    Parece com o filme “a ilha do medo”

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