Como Caçar Ursos Polares (E escrever sem inspiração)

Livros sexta-feira, 04 de abril de 2014

E aí está você, encarando a página em branco. É, é foda. Uma das partes mais irritantes da “síndrome da página em branco” (Ou qualquer outro nome que você der), pelo menos pra mim, são as tentativas que acabam logo depois de começarem. Vocês sabem, aquelas frases ou linhas randômicas, que pareceram legais quando você pensou nelas mas ficaram uma porcaria quando você as escreveu.

 Tipo isso.

Não, não vou dar dicas, ideias ou técnicas de como driblar a falta de inspiração. A internet está cheia de coisas assim, todo mundo que escreve tem um jeito de conseguir escrever e há até livros sobre o assunto, o que pra mim é uma baita ironia. Não, vamos apenas conversar. Aqui no Bacon há vários tipos de post diferentes: Os nonsense, os somos-fodas-pra-caralho-e-manjamos-até-o-cu-da-sua-mãe, as confissões ligeiramente vergonhosas e o padrão, ligeiramente babaca mas de boa, do jeito que você conta alguma coisa prum amigo legal mas meio burro. Mas hoje, hoje eu não tenho nada.

É interessante pensar como ainda nos acontece hoje o que acontecia mais de dois mil anos atrás. Ok, não era com um computador mas o problema é o mesmo: Não conseguir escrever, mesmo que, na prática, não tenha nada lhe impedindo. E não é algo que rola só com a escrita, há vários e vários atletas que falam sobre bloqueios de vários tipos, e, sejamos sinceros, esporte não tem relação alguma com exercício criativo e inspiração. Ainda não é um fator físico, mas incapacita da mesma forma.

Na antiguidade grega e, mais tarde, no começo da idade moderna, era comum (Se não altamente aconselhável e praticamente obrigatório) recorrer à inspiração de musas e deuses, implorar para receber inspiração sobrenatural e assim poder escrever… Deu certo, acho, pelo menos para Camões… Se bem que ele tinha bastante tempo livre. Com o passar do tempo, o que antes era apenas inspiração passou a ser um trabalho conjunto entre um momento de iluminação e trabalho árduo e assim chegamos à coisa de “se condicionar a ser criativo”.

 Altas piadas.

E isso é algo que me irrita um pouco. Independente de inspiração, a criatividade não é algo que se possa ligar e desligar, muito menos aprender. Quero dizer, ou você é criativo ou não é. Claro que há um condicionamento no sentido de rotina, e não precisa muito: Eu, por exemplo, deixo a maioria dos meus textos aqui prontos no domingo, pra serem revisados e publicados durante a semana. É muito mais fácil eu escrever algo sem ter ideia alguma no domingo que em outro dia, por mera questão de costume. E essa é a palavra-chave, “costume”. A inspiração pode vir em qualquer momento, qualquer dia, e vai funcionar, mas, na falta de inspiração, se não for domingo, vai demorar mais para eu conseguir escrever algo: Não é impossível, só mais difícil e trabalhoso. E rotina é algo que pode-se mudar ao bel-prazer.

Então estas são as três instâncias: Inspiração, criatividade e costume. Inspiração é uma questão de momento, uma ideia, uma revelação. É aquele milésimo de segundo em que todas as infinitas variáveis conspiraram à seu favor e você, “do nada” (E isso é um grande debate… Talvez eu faça outro texto sobre o assunto), já sabe o que fazer. Criatividade é a constante, o imutável. Se você tem, vai passar horas e mais horas da sua vida imaginando coisas irrelevantes, desnecessárias e sem importância, e vai achar o máximo perder tempo com elas, mas se não tem, se fodeu, você vai ter aquela ideia genial sobre um duende que recebe a missão de destruir um brinco mágico num vulcão submarino, mas não vai adiantar nada. Se você estudar e se dedicar pode até escrever melhor que muita gente com dom, criatividade e talento, mas vai ser sempre a raspa do tacho. E o costume, que é sobre o que você pode definir: Dia e horário que vai escrever, sua rotina, os materiais que vai usar, o ambiente onde vai estar… Costume é conforto, e conforto é ter a tranquilidade de poder escrever sem que algo “externo” te atrapalhe.

No parágrafo anterior surge uma parte importante disso tudo: A técnica dando conta do que é responsabilidade da inspiração e/ou de uma habilidade natural. Isso é outra coisa que não se aplica somente à escrita, e que basicamente todo mundo sabe: De nada adianta um talento sem esforço. Alguém que tenha o conhecimento e a técnica pode muito bem ser (E muitas vezes é) muito melhor do que o talentoso vagabundo, mas a diferença se dá quando a disparidade não existe mais: Com o mesmo estudo e dedicação, quem tem o tal “algo a mais” vai levar a vantagem. Tem gente que encara isso como uma vantagem, uma arma que desestabiliza o jogo, mas pra mim é justamente o contrário: Você pode ser foda pra caralho, mas ainda vai fazer merda se não levar a coisa à sério.

Voltando então à falta de inspiração, ainda há o condicionamento e o conhecimento: É quando O Segredo falhou você está sem ideias que o “comum” exerce sua função. É burrice pensar que você pode aprender a ter ideias, mas também é burrice achar que uma ideia genial, algo inédito, uma nova abordagem e/ou uma desconstrução sejam necessários. É a velha história do clichê bem usado perfazer uma boa obra. Nem todas as obras podem, e muito menos devem, mudar o mundo; não é assim que funciona.

Algo que fica claro para mim é que (Em tudo quanto é coisa) as pessoas deixam de fazer algo simplesmente por não conseguirem atingir um objetivo “elevado”… Nem todo texto é bom. Simples assim. Há sim textos ruins, mas isso não quer dizer que um texto sem inspiração seja, automaticamente, uma merda. Às vezes nos acostumamos demais em seguir grandes exemplos, ler grandes obras e ver grandes demonstrações de habilidade (Natural ou não) e nos esquecemos que estes são as exceções. Vai aqui uma frase de autoajuda pra vocês: Grandes coisas mudam o mundo, mas as que fazem a diferença mesmo são as pequenas, do dia-a-dia. Então a mensagem é fazer, tentando sempre fazer o melhor, mas não esperar que, toda vez, saia o extraordinário.

 Por que as pessoas eram dividas se todo mundo era preto e branco?

E, eventualmente, é assim que as coisas são criadas: Indo contra as expectativas. Aceitação é um troço importante, seja porque a sua namorada te traiu com seu primo mais rico e gente fina e terminou contigo seja ao entender que, no fim, fazer textos medianos, comuns, também é necessário. Naquele velho estilo apelativo, “se eu tivesse que escolher, preferiria saber a teoria a ter talento”, e é algo babaca mesmo já que é, de certa forma, lutar contra a natureza. Não há porque mentir pra vocês (Até porque muitos de vocês escrevem também): É difícil. E cansativo, demorado… Estou neste texto há quase quatro horas, e é algo que eu sei que faria em menos de uma hora “num bom dia”.

Grande parte do problema é a frustração de não conseguir se satisfazer com o pouco que se consegue fazer… Frase estranha pra algo fácil de entender. O que mais cansa, o que mais exaure é o “anda-para-anda-para”, assim como, por exemplo, no trânsito (Sim, Pizurk, eu sei que moto al0pr@ oS otário). É um trabalho truncado, e é e exatamente a fatídica incapacidade de “enfileirar duas palavras” que torna a coisa toda ainda pior. Algumas vezes você precisa buzinar, esperar, fechar os vidros e ligar o ar condicionado, abaixar os vidros e xingar a tia avó do taxista na sua frente… Às vezes é preciso desligar o motor, mas é um último recurso: Se começar a andar, você, que terá que ligar o carro, é quem estará atrapalhando a si mesmo e a todo mundo atrás de você.

 Vai de transporte público, eles disseram. É melhor, eles disseram.

Tipo quando você faz piada defendendo a mulher mas acha a bunda dela uma delícia.

Escrever é um exercício chato na maior parte do tempo… O resultado é legal e muitas vezes gratificante, mas o processo é uma merda. Vou admitir uma coisa para vocês: Sempre que estou sem inspiração para escrever alguma coisa acabou escrevendo sobre falta de inspiração pra escrever… É a minha técnica, funciona pra mim. Começa difícil, mas vai melhorando no decorrer do texto… É quando o conhecimento assume. Não que eu tenha talento, aliás, mas todos estamos à mercê da inspiração… Poderia ser bem mais fácil mas o resultado não me desagrada. Às vezes tudo que você precisa fazer para escrever é escrever.

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