Clarice e a Cama

Contos segunda-feira, 22 de julho de 2019

Qual a história mais ridícula que vocês já contaram em 45 43 minutos?

Tudo começou no inverno de 1937. Estava frio, mas não aquele frio de botar casaco: Estava mais aquele frio que te faz desejar passar a sua vida inteira na sua cama, vestindo treze pares de meia, dois casacos, três pares de luvas, dois cachecóis e uma bermuda. Então estava bem frio… E era 1937, o que significa que, pra esquentar a casa, você não podia contar com ar condicionado, aquecedor elétrico e nem nada disso. Não, das duas uma: Ou você aquecia o máximo de coisas que podia ou você fazia a tua casa em cima do celeiro. Como ficar esquentando água pra botar em aquecedor de cama inclui sair da cama, você topava viver no andar de cima do seu jumento, das suas cabras, do seu cachorro e, com sorte, da sua vaca.

Por que precisa de sorte pra ter uma vaca?

Porque sua mãe já pode ter morrido.

EEEEY OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOHHHHH

Mas voltando à história: Era 1937 e estava frio pra porra. E isso é importante já que, no frio, Clarice não tava nem um pouco afim de sair da cama, independente do motivo… Mas ela tinha um bom motivo: A casa tava pegando fogo.

Aí você pode perguntar:

Como caralhos tava frio se a casa tava pegando fogo?

E a resposta disso é que o fogo já tinha consumido as janelas e o teto da casa. Não que isso fosse motivo algum de preocupação para Clarice: A casa era velha, a madeira estava se desfazendo, as paredes estavam perto de desabar (E isso antes mesmo do fogo) e as janelas já não fechavam direito… A verdade mesmo é que Clarice estava perfeitamente bem com sua casa ser destruída, porque isso seria uma desculpa pra reformar a coisa toda ou até mesmo construir uma nova, um pouco pra baixo no morro, mais perto do lago.

Aliás, o lago também é importante nesta história: Era justamente pra lá que o marido de Clarice, Osvaldo, estava correndo de baldes em mão pra pegar água e tentar apagar o fogo. Diferentemente de Clarice, Osvaldo gostava da casa como ela estava: Era a casa em que ele tinha nascido, crescido e até mesmo conhecido Clarice, numa festa da paróquia há quatro anos atrás. Mais que isso, Osvaldo gostava do frio; Clarice, não. Então quando a casa começou a pegar fogo e acordou o casal, Osvaldo imediatamente pulou da cama, desceu correndo as escadas, desviou dos marrecos, pegou os baldes e saiu correndo, só de ceroulas, até o lago. Clarice, à princípio não ficou muito contente ao ser acordada às cinco da matina de domingo, mas ver as cortinas levando o fogo até o forro da casa botaram um sorriso em sua cara.

Enquanto Osvaldo fazia a primeira viagem até o lago, voltava, fazia a segunda, voltava, percebia que o fogo tinha alastrado, soltava os animais, gritava pra Clarice sair da cama e começava a correr em direção ao vizinho pra pedir ajuda, Clarice virou pro lado, ainda sorrindo e pegou no criado mudo seu diário. Clarice gostava de manter um diário porque dava pra reclamar de Osvaldo, reclamar da sogra, reclamar da paróquia e contar os dias até que ela finalmente tivesse uma casa nova. Uma casa que não precisasse tapar as frestas das janelas com lençóis, espanar os móveis todos porque caiu pó do teto e nem ouvir as galinhas cacarejando o dia (E a noite) todo.

Clarice fez um coração bem grande na folha de seu diário, escreveu “finalmente a casa já era” no meio dele, e, em volta, começou a detalhar pela quinquagésima vez tudo que queria na casa nova: Novas portas, novas janelas, novas cortinas, novo fogão, novas panelas, novo espelho e, principalmente, manter a mesma cama. Porque só tinha uma única coisa que Clarice realmente gostava naquela casa, e era a cama em que ela estava deitada naquele mesmo instante: Era macia, confortável, fresca no verão e quente no inverto. Clarice só não tinha voltado para a casa da mãe quando a cristaleira quebrou porque a sua antiga cama não se comparava à cama de Osvaldo.

Inclusive este é um bom momento para dizer que Clarice estava grávida do primeiro filho.

Não que seja tão importante assim, mas é bem verdade que já havia dois anos que ela e Osvaldo estavam tentando ter um filho, então quando enfim Clarice ficou grávida, foi um baita acontecimento na vida dos dois. Primeiro porque ambos juravam que a criança fora concebida em cima da cristaleira, e depois porque, quando enfim a gravidez foi confirmada, eles fizeram uma festa com a paróquia toda. As beatas comentaram, os fiéis debateram, as crianças zombaram e o padre ficou com inveja, mas o filho era de Osvaldo mesmo. E, ao que tudo indicava, o filho (Se é que era menino mesmo) puxaria ao pai: Desde que ficara frio na casa porque a janela e o teto já não existiam mais por causa do fogo, o bebê começara a se mexer e chutar na barriga de Clarice, e foi isso que fez, finalmente, Clarice levantar da cama, emburrada e de saco cheio de ser mulher, de ser casada e de estar grávida.

Clarice andou com calma até as escadas, e a desceu com mais calma ainda, as costas a matando de dor e o frio piorando tudo. Pois Clarice não correu pro vizinho atrás de Osvaldo, ela correu atrás do cavalo. Por sorte o fogo ainda não tinha chego na parte de baixo da casa, o que significou que foi fácil pra ela arranjar uma corda e pegar a sela. Pois acreditem ou não, às cinco da manhã de domingo, no escuro e no frio, do lado da casa em chamas, CLarice montou no cavalo de primeira. Clarice nunca tinha montado no cavalo de primeira, mas é bom não duvidar de uma mulher que, se pudesse, botaria fogo no resto do mundo também. E de cima da sela do cavalo, Clarice laçou a cama no segundo andar. Isso Clarice já tinha feito antes (Mas é pessoal, então não vou dar detalhes).

E passo a passo (Do cavalo), Clarice puxou a cama através da sala, da cozinha e da parede destruída entre elas. Puxar a cama escadas abaixo foi fácil também, e em alguns minutos de serviço, a cama de Clarice estava não só fora da casa, como longe do fogo. Clarice desmontou, prendeu a rédea do cavalo no cabeceira da cama e deitou pra dormir. E foi exatamente alí que Osvaldo e os vizinhos a encontraram: No meio do gramado, deitada na cama, dormindo. Desnecessário dizer, mas Osvaldo não entendeu absolutamente nada.

E desde então Osvaldo nunca mais construiu uma casa.

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