Ardil-22 (Joseph Heller)

Livros segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Existem livros bons. Existem livros médios, livros ruins e livros do Paulo Coelho. Mas também existem aqueles que possuem algo de especial. Os quais você começa por acaso e deixa o livro que estava lendo antes de lado até acabar, seja ele bom, médio ou ruim. E continua não lendo o do Paulo Coelho. O Ardil-22 é uma dessas obras. E ele se sobressai por vários motivos. Mas principalmente, por ser absurdamente engraçado. Na verdade, eu não lembro de já ter lido um livro tão engraçado. Ah, sim, tem o Pulp, do Bukowski. Sério, leiam lá também. Mas antes, falemos do único ardil que havia, o Ardil-22.

Então, não é que o livro seja só absurdamente engraçado, mas ele consegue ser absurdamente engraçado enquanto critica a sociedade moderna de forma espetacular. Aliás, os dois aspectos mais incompreensíveis da sociedade, a guerra e a burocracia. Que coincidentemente andam lado a lado. E o retrato do exército americano é tão fantástico que só pode estar muito próximo da realidade. Pelo menos é o que dá pra imaginar, tendo passado um único dia no exército. Do Brasil. Mas é só voltar ao dia do alistamento militar, com toda aquela desorganização e lógica próprias, impostas por um tipo de gente que só sobreviveria ali, e multiplicar esses fatores algumas vezes que o resultado é bem parecido com o que vemos no livro.

E voltando ao tipo de humor em questão, parece uma especie de Guia do Mochileiro das Galáxias misturado com Monty Python. Na verdade, é até surpreendente que o autor seja americano. Talvez por isso mesmo o livro inicialmente tenha feito mais sucesso na Inglaterra, quando foi publicado em 1961. Mas uns anos depois, quando a Guerra do Vietnã havia se tornado insana demais até pra os padrões norte americanos, ele se tornou um clássico instantâneo. Não que isso fosse muito difícil pra um manifesto antibelicista, na época.

Mas vamos ver do que a obra trata, afinal. O livro meio autobiográfico se passa em Pianosa, uma ilha no Mar Mediterrâneo, durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa ilha minúscula está estacionado um batalhão da aeronáutica dos Estados Unidos. Inicialmente acompanhamos a história de Yossarian, um bombardeiro cada vez mais cansado de voar o crescente número de missões imposto por seus superiores. Por algum motivo, ele acha inconcebível estar numa situação onde todos estão querendo matá-lo, e então começa a fazer todo o possível para se afastar do combate. Como pedir baixa para o médico do esquadrão, Dr. Daneeka. E é aí que entra o Ardil-22, representação dos regulamentos do exército que mantém os soldados encurralados, sem ferir a liberdade individual de ninguém. Mas que pode ser representado mais facilmente pela seguinte situação: Todo o soldado pode ser mandado para casa, basta ser declarado insano por um médico. Para isso, basta solicitar uma avaliação com o bom doutor. Só que ao fazer isso, ele demonstra preocupação com a própria segurança. Logo, não está louco. E precisa continuar voando missões de combate.

 Pianosa é esse pequeno “A” ali na imagem, cortesia do Google Maps.

O livro é cheio dessas situações circulares e repetitivas, que funcionam em uma lógica particular. E passam a funcionar cada vez melhor por causa do estilo da narrativa. Cada capitulo é centrado num personagem ou evento. Dessa forma, a história vai sendo construída por diferentes pontos de vista e constantes indas e vindas temporais. Perfeito pra reforçar o absurdo das situações. Mas esse estilo só da certo porque a guerra não é brincadeira não, maluco. Todas as ações descritas no livro, por mais inconcebíveis, tem consequências bem reais. Vamos tentar explicar com uma situação mais específica e incompreensível ainda: Esses tempos eu estava vendo os extras do A Invenção de Hugo Cabret. Mais precisamente uma entrevista em particular, na qual o Scorsese ria descontroladamente enquanto explicava as peculiaridades do personagem do Sacha Baron Cohen, o inspetor da estação. O diretor falava algo sobre o fato de que a autoridade ser engraçada (Um juiz e um policial, no caso), não modificava a situação de se estar na cadeia. Inicialmente, eu conclui apenas que ele estava sob o efeito de diversas substâncias ilegais. Mas lendo o livro, deu pra compreender a melhor onde o Scorsese queria chegar, e porque ele achava aquilo tão genial.

É que no Ardil-22, quanto mais alta a patente militar, mais inaptos e idiossincráticos são os seus representantes. Inicialmente isso pode parecer apenas uma boa sacada, que proporciona algumas situações inusitadas. Como quando Yossarian desloca a linha de bombardeio em um mapa sem que ninguém perceba. O que faz com que um sargento avise o tenente que a cidade de Bolonha foi tomada. Este repassa a informação para o capitão e assim por diante, até o fato chegar aos ouvidos do major _____ de Coverley (Ninguém nunca soube o primeiro nome dele), que deduz que Milão deve ter sido recapturada também e voa para lá com a intenção de alugar alguns apartamentos para os oficiais e acaba se perdendo atrás das linhas inimigas. Simultaneamente, o general no comando ganha uma medalha pelo feito, já que o oficial responsável pela conquista da cidade não pode ser encontrado.

Só que, longe de amenizar a situação, o fato de indivíduos com quem não se é possível argumentar estejam no controle só torna tudo mais desesperador no decorrer do livro. Porque os soldados continuam lutando e morrendo, quase sempre por motivos irrelevantes. E em meio a isso, o autor consegue encaixar algumas críticas geniais, como o papel da iniciativa privada nos conflitos armados. Encarnada por Milo, um oficial responsável por comprar comida para o esquadrão que monta uma cooperativa multimilionária e começa a privatizar as batalhas, contratando tanto atacantes quanto defensores. E é esse predomínio do absurdo que faz com que as semelhanças inquietantemente frequentes com a realidade causem tanto impacto. Aliás, o predomínio do humor faz com que essa seja uma das poucas obras que em raros, mas impactantes momentos, realmente chegue perto de definir o horror da guerra.

Cada morte é sentida pelo protagonista e consequentemente, pelo leitor. E não é só isso. Eu não posso deixar de destacar o que, pra mim, é o momento mais alto do livro. Depois de uma missão particularmente devastadora, com mais baixas que o normal, o general Dreedle finalmente perde o comando do esquadrão. E uma série de fatores coloca o general Scheisskopf no lugar dele. O general Scheisskopf é o mesmo comandante que treinou Yossarian no início da guerra e costumava ser obcecado por paradas. E em meio a total resignação dos soldados depois da missão e uma série de reviravoltas, chegam as primeiras ordens do general: Ele exige que todos desfilem em paradas semanais. Pronto. Em um momento, o cômico se transforma em trágico. As circunstâncias com que o autor fecha a situação são tão apropriadas que o ato representa perfeitamente toda a extensão da imoralidade do conflito e as instituições responsáveis por ele. É quase poético.

Mas vocês deviam ver por vocês mesmos, juntamente com outros tantos momentos geniais do livro. Pode facilitar a tarefa, talvez tão difícil quanto há 50 anos atrás, de tentar se manter são num mundo que claramente não preza pela sanidade. Ah, e o livro também teve uma adaptação cinematográfica dirigida pelo Mike Nichols, em 1970, que eu ainda não vi. E inspirou o M.A.S.H, que eu tentei ver tempos atrás e achei insuportavelmente chato, mas que provavelmente merece uma nova chance.

Ardil-22


Catch-22
Ano de Edição: 2010
Autor: Joseph Heller
Número de Páginas: 560
Editora: Bestbolso

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  • pedro mendes

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