A cura para dor: Morphine!

Música quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

From Boston, Massachusetts; we are Morphine, at your service. Era assim que Mark Sandman sempre abria os shows de sua banda, que de convencional tinha muito pouco, quase nada mesmo.

 Dana Colley, Sandman e Billy Conway!

Era julho de 1999. Uma pequena banda americana de status cult subia num palco na Itália, ainda desconhecendo a surpresa que o destino lhes reservava. A incomum formação (Batera, duplo sax e baixão-slide de duas cordas) despejava sobre o público seu costumeiro jorro de música madrugadeira quando o compositor, letrista e frontman da banda, Mark Sandman resolveu contar uma piada. Não mais que de repente, Sandman cai no palco, nocauteado por um ataque cardíaco, aos 47 anos. Saiu do palco direto pro necrotério. Coisas da vida. E o pior: Nem terminou a piada.

Foi somente após a morte de Sandman que a heróica Trama resolveu realizar os esforços necessários para presentear o defunto com um tratamento digno de seu legado. Todos os álbuns do Morphine caíram juntos nas prateleiras brasileiras: Além dos 4 álbuns de estúdio (Good, Cure For Pain, Yes e Like Swimming), foram lançados também o póstumo The Night e o ao vivo Bootleg Detroit, possibilitando ao público brasileiro um conhecimento aprofundado da obra do finado trio.

 Sandman (Não aquele da revistinha, porra!)

Eu, que já ouvia a banda, achei ótimo, pois eram anos difíceis para nós, pobres mortais ouvintes de música e sem grana pra importar bons discos. Antes de escutar Morphine, jazz pra mim era palavrão. Música de velho. Blues pelo menos tinha bons solos, aquele clima nostálgico e melancólico. O jazz não. Era modorrento, sem nexo (Free jazz = freegellys). E então um primo (Sabe aquele metido a vanguardista?) me mostrou uns discos da coleção indie dele. E no meio deles descobri o Morphine. Minha expectativa de encontrar um grupo tranquilão e sonolento, provável escolha preferencial para curar insônias, foi rapidamente desvanecida quando a galopante linha de baixo de Buena, a primeira faixa do Cure for Pain, estremeceu o ar. O vocalzão grave de Sandman, semelhante a Nick Cave, entrou declamando uma letra sobre um demônio feminino, e o sax, de início discreto e envergonhado, se encorpou depois num solo de arrepiar… Mesmo não sendo exatamente um disco de jazz, era um ampliador de horizontes: Serviu como uma ponte conduzindo meus interesses para além do indie, do punk, do grunge, do metal, do rock em geral, e creio que provavelmente teria continuado por muito tempo a achar que Miles Davis, John Coltrane, Ornette Coleman, Dizzy Gillespie, Charles Mingus, Tom Waits e Peter Brotzman eram uns chatões que não mereciam atenção, sem nunca ter ouvido deles uma nota sequer.

http://www.youtube.com/watch?v=6mE0MLB1X5Y

Os grandes destaques do grupo eram o baixo de Sandman, um slide de apenas duas cordas, feito por ele mesmo e usando apenas as cordas mais graves, a bateria bem cadenciada de Jerome Deupree (Posteriormente substituído pelo melhor ainda Billy Conway) e a sonoridade dos saxes de Dana Colley. Jazzista inveterado, Dana tocava com competência sax barítono e tenor, que formavam uma bela combinação com as letras reflexivas e livres de Mark. E Dana, assim como Mark, inovaria mais ainda, tocando um sax duplo, instrumento em que tocava com as duas mãos e com apenas uma boquilha em um dos saxofones que era ligado ao outro por um tubo. Fora isso, é realmente muita moral um cara colocar ainda um pedal wah-wah num saxofone.

 Dana Colley e seu duplo sax!

Mark também trabalhava em sua casa em Cambridge, naquele que seria o disco mais ousado e bem acabado do grupo, The Night. Durante dois anos, Mark planejou criteriosamente o disco. Mark tocou uma infinidade de instrumentos, entre eles piano, órgão, guitarra acústica e trombone. Dana inovou com seu sax baixo e contribuiu com seus arranjos para que o disco fosse ainda mais minimalista do que os trabalhos anteriores. A idéia era que o conceito rock intimista fosse levado às últimas conseqüências. Terminadas as gravações, o grupo seguiu para a Europa. Mark nunca ouviria o resultado final.

A dupla restante, Dana Colley e Billy Conway, juntou-se com uma nova vocalista (Laurie Sargent, uma ex namorada do Sandman) e fundaram uma nova banda, o Twinemen, que lançou seu álbum de estréia em 2003, após um ótimo disco-tributo ao velho amigo (Orquestra Morphine).

Não é à toa que ele chamou sua banda de Morfina: Essa música é extremamente recomendada às veias de todos, lícita e socialmente aprovada, como um entorpecente musical que abre espaço para altos vôos mentais aliviantes. Morphine. Injete e ascenda.

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  • Climber

    Qdo o K “atacou” o baixo certa vez, lembrei na hora desta banda.

    Ela é sensacional, e a notícia ótima.

  • Eu já tinha ouvido falar do Sandman na MTV, pra ser mais exata no Top Top que estava falando dos momentos mais bizarros do rock, acho que era isso e, comentava a morte dele em cima do palco. Mas nunca tinha ouvido o Morphine de fato. É bom, gostei. Vou baixar os CDs pra ver se gosto mesmo!
    =1

  • Banda muito boa, pouco conhecida. É o fato dela ser tão incomum que atrai – sem guitarra, um baixo de duas cordas, saxofone(s), enfim…é uma banda pra poucos, mas os que escutam e gostam são pessoas de bom gosto.

  • Penny

    banda ducaralho, adoro ouvir na cama com meu namorado, quase um portishead masculino…

  • Angelo Dias

    AH! Até que enfim uma banda boa…

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