O Corpo (2012)

Primeira Fila segunda-feira, 24 de outubro de 2016

All work no fun makes Nelly a dull girl. Minha ausência do cinema, nos últimos tempos, é vergonhosa. Tem explicação mas, ainda assim, é quase criminosa. Trabalhando com filmes, lidando com o universo todos os dias, o mínimo seria conferir uma novidade por semana nas telonas. Mas meio que essa rotina louca de gente grande não permite.

Tenho me esforçado para tirar o atraso na Netflix. E, é bem verdade, acompanho muito mais livros do que séries. E séries do que filmes. Mas, graças a monamur, descobri O Corpo. Longa espanhol de 2012, conta a história de um corpo que some horas depois de dar entrada no necrotério. A falecida era linda, bem sucedida, nojenta, carente e casada. O que foi considerado um infarto antes da autópsia, passa a virar uma suspeita de crime, afinal, qual seria o objetivo de sumir com um defunto? Poderia ser necrofilia mas, em um filme desse nível, ninguém cogita perversão. “É assassinato, até que se prove o contrário”.

Sério, isso é quote do filme.

No centro do furacão, está o marido. Qualquer um que assiste aos programas do Investigação Discovery sabe que o cônjuge é sempre o principal suspeito. Então, a polícia faz o seu trabalho e chama Álex (Hugo Silva) para dar as más notícias sobre o sumiço da esposa e ele começa a agir de forma esquisita porque, de fato, matou a mulher para viver um amor intenso com a amante, interpretada pela belíssima Aura Garrido. E eu não estraguei a festa de ninguém, porque o ponto principal não é quem matou, mas sim quem sumiu com o cadáver. E por que.

El Cuerpo se passa praticamente todo no necrotério, ao longo da madrugada em que o corpo some, salvo os flashbacks que contam um pouco do histórico dos personagens principais, especialmente o marido e o policial que conduz a investigação. Mas não de forma cansativa. O recurso é bem utilizado, para pontuar como e quando o amor desandou e Álex se tornou tão desesperado, sufocado – pelo novo amor ou por ódio da esposa, a ponto de cometer o pior dos crimes. Na hora certa, contribuindo para a imersão do espectador nas duas linhas do tempo: Acompanhando o presente, compreendendo que todos os envolvidos possuem um background que os liga, emocionalmente, ao caso.

Como grande parte dos filmes europeus, diria até não-americanos, tem um pacing mais lento, mas não demais. O suficiente para conseguir acompanhar a trama sem atropelar a história como um rolo compressor. Há a expectativa para decifrar o enigma, a cabeça não para um segundo sequer mas, principalmente, a história foi feita para ser degustada, sem pressa para o plot twist se revelar. Afinal, para desvendar o sumiço misterioso, é importante prestar atenção em todas as peças. E esse é o principal pecado de El Cuerpo.

O final é bom, bastante surpreendente, mindblowing e muito bem explicado. Mas, ao longo da trama, você não tem os indícios necessários para completar o quebra-cabeças sozinho e é frustrante, porque ninguém assiste a um suspense sem pretensões. É como se a verdade estivesse por trás de uma cortina de fumaça e alguém te conduzisse pelo caminho, de mãos dadas, como se você não tivesse competência para seguir só. Tudo que leva ao ato final é muito sutil e quase imperceptível se o espectador se joga de cabeça sem informações privilegiada. Não me sentia tão enganada, ou estúpida, desde os dez anos de idade, quando li Assassinato no Expresso do Oriente. Mas, apesar dessa pegada freestyle dos últimos minutos de filme, está acima da média. É um thriller envolvente, com boas atuações e um cenário tão claustrofóbico que chega a causar desconforto físico do lado de cá da tela. Talvez o efeito seja diferente assistindo acompanhado, tendo alguém pra trocar ideia sobre as teorias. Juntinho é sempre melhor. Chamem seus crushes e depois me contem.

Entendedores entenderão. Apenas assistam Black Mirror, meus caros.

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