UFC 165: Jones vs. Gustafsson, a luta em que todos venceram

Televisão quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Sou fã de artes marciais desde criancinha. Desde a época em que ficava na turma de apoio da educação física (Pedagogia: A gente vê por aqui), percebia que era diferente das demais meninas. Nunca tive aptidão para esportes, mas as outras crianças se divertiam jogando o funny vôlei que a professora mandava a gente jogar. Eu achava extremamente entediante. Via pugilistas, lutadores de judô e imaginava que deveria ser do caralho saber fazer aquelas coisas.

Meu primeiro contato, de fato, como praticante, foi aos 16 anos lutando boxe. E apesar de ser baixinha, gordinha e completamente ineficiente, me divertia tomando umas porradas na cara e chegando roxa no colégio. Sigo praticando, por prazer, do jeito que dá. E foi assim que comecei a acompanhar eventos de luta em geral, já que na época o MMA não tinha o peso que tem hoje e nem a mesma acessibilidade.

Para mim, arte marcial – seja ela qual for – é puro sentimento. A mesma emoção que a maioria de vocês sente vendo um bando de homens correndo atrás de uma bola, eu sinto assistindo dois homens ensaguentados se agarrando no chão. Então, esse texto não é uma resenha, até porque não tenho o menor gabarito para tal. É um desabafo apaixonado sobre a melhor luta de 2013.

 Quanto mais sangue, melhor.

Jon Jones é a menina dos olhos do UFC, com 26 anos e um cartel impressionante de 19 vitórias e 1 derrota, sendo esta por desclassificação. Desde que tirou o cinturão das mãos do Shogun, só lutou com grandes nomes do esporte, todos ex-campeões da organização. Menos o Chael Sonnen, que ganhou direito a fazer essa luta no grito, mesmo sabendo que ia apanhar como um saco de areia. Sua defesa de cinturão de maior dificuldade foi contra o brasileiro Lyoto Machida, que terminou a luta tão apagado que eu comecei a gritar no bar, enquanto derrubava meu copinho de vodca, achando que ele tinha morrido.

Alexander Gustafsson, por outro lado, não tem o mesmo prestígio e reconhecimento do campeão. Com apenas duas derrotas em seu cartel, o sueco de 26 anos não teve oponentes tão estelares quanto os de Jon Jones. A notoriedade do main event do UFC 165 se deu porque era impossível não questionar se Jon Bonecão de Posto Jones teria o aproveitamento de costume lutando contra outro gigante, tendo em vista que ambos estão acima da média de altura em uma categoria, em comparação com eles, de baixinhos.

 Light Heavyweight Champion of the World!

Eu esperava uma luta curta e óbvia, com uma saraivada de cotoveladas dolorosas e apenas os ossos do Gustafsson no octagon depois que Jon Jones terminasse seu banquete. Mas quando o sueco entrou, dava pra ver aquele brilho diferente no olhar. Ao longo da luta, o brilho foi aumentando. Ele não se intimidou com o nome e nem com o mito de invencível da grande revelação do MMA. Gustafsson, na realidade, estava lá para perder. Era o que todos esperavam. Todos, menos ele. Durante cinco rounds, difíceis de julgar, ele frustrou a estratégia do campeão, inclusive surpreendendo-o com uma queda. Levou os espectadores ao delírio, tornando impossível tirar um olho do cronometro e o outro da luta. Luta não, guerra. Jon Jones, que geralmente reina absoluto, ficou pequeno perto de seu oponente. Parecia mais uma criança perdida no shopping. Mas ele não é campeão por acaso. Sua qualidade técnica e seu gás são incontestáveis. Portanto, ele se recompôs e fez o que tinha que fazer: Manteve o cinturão sob sua tutela, apesar dos pontos disputadíssimos, por decisão unânime.

O público chiou, mas a decisão – analisando friamente – foi a mais acertada. Apesar da raça admirável do underdog e da comoção do público, por pouco, Jon Jones foi mais efetivo. Mas esse combate foi muito além de uma disputa de cinturão. Como eu disse, foi uma luta de vitórias para todos. Gustafsson está com mais uma derrota no seu cartel, é verdade, mas conseguiu o que até hoje ninguém havia feito: Desmitificar o campeão. Hoje sabemos que ele não é invencível, ele está invencível. Que a máxima da nossa infância, “quero ver bater em alguém do seu tamanho”, serve também para os profissionais. A partir de agora, Alexander Gustafsson adquiriu um peso ainda maior como um dos grandes nomes do esporte. E tenho certeza que o momento dele vai chegar.

Jon Jones, que ficou com um bico de Pato Donald depois das porradas que tomou, manteve seu cinturão de estimação e levou, de gorjeta, um choque de realidade. Acredito que podemos esperar por um lutador mais maduro e consciente em suas próximas defesas. Dana White ganhou, e ainda vai ganhar, muito dinheiro com esse combate. E, mais importante de tudo, o público presenciou uma luta de de categoria, sem um pingo de burocracia. Uma verdadeira batalha feita de garra, sangue e suor, como há tempos não se via.

Mas eu menti quando eu disse que todos foram vitoriosos. Glover Teixeira, coitado, deve perder a chance de ser o próximo a disputar o cinturão, já que o Big Boss quer uma revanche pra ontem. Nessa história toda, alguém tinha que se foder.

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  • Luiz Carlos Santos

    Ótimo artigo Nelly. De algum tempo para cá venho acompanhando uma técnica de defesa (não é considerada arte marcial) chamada Krav Magá. Ela foi criada por um israelense e hoje é usada pelo exército daquele país, e por exércitos e forças especiais de todo o mundo, além de civis, por ser considerada o que há de mais próximo de uma luta em uma situação real de violência que uma pessoa comum pode passar. Essa técnica de defesa estimula ataques a áreas sensíveis dos agressores, como genitais, olhos, pescoço, etc, ao contrário do MMA, que por mais que seja completo em termos de combate, coloca várias restrições, visando a integridade dos atletas, preocupação que alguém que está sendo atacado por algum maníaco no meio da rua nunca teria. Pretendo iniciar meu aprendizado dentro de alguns meses, dá uma olhadinha e veja se acha legal. Sobre a luta, foi muito legal, mas acho que para que o MMA seja um evento que realmente deixe de ser “modinha” e atinja um novo patamar, semelhante ao que o Boxe teve nos anos 80/90 teriam que haver as “superlutas”. Muhammad Ali x Joe Frazier, ou Mike Tyson x Evander Hollifield, traziam consigo uma comoção entre os espectadores que o MMA ainda não traz, restando assim o embate entre dois supercampeões para que o público menos fiel dê ao MMA o destaque que ele já merece faz tempo.

  • Aline

    Nem curto assistir MMA nem essas porradarias todas, mas adorei ver uma molier escrevendo sobre isso com tanta paixão. Li sem entender bulhufas mas me identifiquei super com o fator ser menina e gostar de coisas que meninas normalmente não gostam.

  • Nelly Kruczan

    Tenho alguns amigos que praticam Krav Magá. Eu acho bem bacana. Recentemente passou um episódio daquele programa do Discovery, Os 10 Trabalhos de Arman, sobre o Krav Magá aplicado no exército. Tadinho, apanhou muito.

    E já que o boexe foi mencionado, a luta do Floyd Mayweather foi de arrepiar. O bom e velho boxe ainda tem seu charme.

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