Tommy Wiseau e a capacidade de transformar coisas ruins em boas

Cinema terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Se você não é como eu, ávido por coisas toscas e conhecimentos inúteis, provavelmente está se perguntando quem caralhos é Tommy Wiseau. O que esse homem, até então desconhecido, fez para merecer um texto? Eu te digo, meu caro: Ele é um ser multifuncional. Escreveu, dirigiu, produziu e protagonizou The Room, considerado pela crítica o Cidadão Kane dos filmes ruins, apesar de ter custado 6 milhões de dólares.

\Prazer, mito!

The Room, de 2003, conta a história de Johnny (Tommy Wiseau), um cara que trabalha em um banco e – até onde o roteiro possibilita compreender – não é devidamente reconhecido. Apaixonado pela namorada Lisa (Juliette Danielle), sua vida desmorona quando ele se dá conta de que ela não o ama mais. E pior, que sua amada está transando loucamente com seu melhor amigo Mark (Greg Sestero). A sinopse poderia pertencer a um filme completamente normal, mas os diálogos surreais, as atuações pobres e as substituições de atores sem que cenas antigas fossem regravadas transformaram o filme em algo tão inacreditavelmente ruim, que… Passou a ser bom.

Descobri Wiseau depois que fiquei amiga de um rapaz canadense em um casamento. Ao contrário do Brasil, onde o filme não chegou, lá fora é um hit. Percebendo meu senso de humor atípico e o gosto genuíno por coisas ruins, ele me indicou The Room como um filme que eu precisava ver. Mas não sozinha, ele especificou, porque ter alguém para comentar é fundamental. Então, convenci minha cobaia meu namorado de que seria divertido. E foi. São 99 minutos de risos e incredulidade. Durante meses foi uma espécie de piada interna, porque ninguém mais conhece. Não é um filme bom, edificante; ou uma comédia declarada, mas é impossível não amar. É um punhado de cenas bizarramente ruins de um cara que, apesar de dizer que não, se leva muito a sério.

As críticas foram todas terríveis, especialmente as direcionadas ao diretor/produtor/escritor/protagonista. Porque, verdade seja dita, ele é o pior possível em todas as funções que desempenha. Mesmo sendo abaixo do medíocre, Tommy não renegou o filme, nem tampouco se deixou abater. Porque, ao mesmo tempo que é um fracasso em qualidade, virou hype. São comuns screenings nos Estados Unidos, com a presença de parte do elenco, participações em programas de humor, lançamentos de produtos relacionados ao filme, etc. Algum ser iluminado criou um soundboard com as melhores frases. Ou seja, apesar de ter feito um filme patético, Tommy Wiseau, com sua aparência bizarra e personalidade teatral, atraiu um público voltado para o cinema alternativo e que posso garantir, é bastante fiel. Com The Room, ele virou ícone do humor involuntário. E se hoje tem o que comer e onde morar, é porque nasceu em berço de ouro aproveitou todas as oportunidades sem medo de ser ridículo.

Apesar de 10 anos terem se passado desde a estreia de The Room, os louros ainda são colhidos. O ator Greg Sestero recentemente escreveu o livro The Disaster Artist sobre os bastidores e historias que marcaram a produção. Ao contrário do filme, as reviews da obra são genuinamente positivas e as vendas estão bombando. Tommy Wiseau, pra variar, produziu, dirigiu, atuou e escreveu duas webseries e um documentário que eu nem quero imaginar como deve ser. Foi convidado para protagonizar um curta, The House That Drips Blood On Alex, que só seria mais genial se tivesse sido uma produção da Wiseau Films. Vale a pena assistir, você ri pra caralho.


Nota do editor: Como eu sou legal, você nem precisa sair do Bacon pra se arrepender de assistir.

Nunca pensei que poderia aprender algo com um ser humano tão peculiar, mas o fato é que ele é o exemplo de que não podemos abandonar nossa essência, nem sentir vergonha do que somos. Se The Room pode ser revertido em algo positivo como – por exemplo – fama e dinheiro, qualquer outra coisa pode. Confie em você, talvez seu trunfo seja seu maior defeito.

Sério, tô na torcida.

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  • Daniel dos Santos

    Despertou minha curiosidade. Vou lá na locadora baixar essa tosqueira pra ver se é bom mesmo.

  • Lucas Martins Saraiva

    É tão ruim que chega a ser bom

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