Toda narrativa deve evoluir

Cinema terça-feira, 07 de junho de 2016

É interessante como volta e meia chegamos aos mesmos assuntos, ou ao menos às mesmas estruturas básicas para algumas coisas. É algo que se aplica tão facilmente à vida quanto aos diversos formatos da arte: Clichês e estereótipos, por mais exagerados que sejam, tem suas raízes em algo palpável, real. Isso significa que, de um modo ou de outro, encontraremos os mesmos recursos artísticos várias e várias vezes, à exaustão, seja no cinema, na literatura, nos quadrinhos… A monotonia da rotina, do conhecido, do previsível.

 Não, isso é só uma provocação barata.

Não, eu não tenho problema nenhum com o Capitão América, eu tenho um problema com autores. E diretores, roteiristas e, às vezes, diretores de arte, fotografia, atores… Nenhuma novidade até aqui, e o resto do texto muito provavelmente não terá nenhuma também. Vamos acabar logo com isso.

Eu não aguento mais ver personagem principal à beira da morte. Não aguento mais o “suspense” em volta de algo tão absurdamente óbvio quanto isso. Claro que não se limita à “fulano morreu”, mas porra, nego continua usando essa mesma historinha há o que? Quatro mil anos? É o tipo de recurso que parou de fazer sentido dentro de uma narrativa. Não tem mais valor. É tinta gasta num livro, é tempo de tela gasto, é uma página de HQ gasto. É que nem gente que diz que chorou assistindo esta cena:

Meu deus, sério? Sério mesmo? Vinte anos de franquia, a maior franquia de animação 3D inclusive, com mais de meia hora de filme ainda, em uma cena em que não um mas todos os personagens principais estão fazendo discursinho e cê acha que vai dar ruim?! “Ah, mas é uma cena emocionante” O MEU PAU É EMOCIONANTE, FILHÃO. Puta armadilha barata isso é: Não tem absolutamente valor nenhum pra história, pros personagens e muito menos pro público assistindo, só tá lá pra pegar meia dúzia de otários.

Eu não aguento mais esse tipo vazio de recurso. Não funciona e só enche espaço. É avião sumindo no meio de nuvem pra subir depois:

O velho “ele tá do meu lado mas eu não vi”:

É o tipo de coisa que está em livros há milênios. Que está em quase todas as séries, em milhares de filmes, em tudo que é quadrinho. E só piora quando a obra em questão é contínua, seja semanal, quinzenal, mensal: Com o maior ritmo de produção as ideias se desgastam mais rápido, é preciso mais conteúdo para preencher o espaço disponível. E isso leva, na maioria das vezes, ao sucateamento da produção como um todo. E outras palavras, o que é produzido em grande quantidade e/ou rotatividade tende a ser pior. E tem gente que usa as mesmas coisas por séries inteiras, temporadas, arcos… O pessoal da reciclagem tem até inveja.

Claro que não é uma regra, e mesmo na produção “pontual” o problema existe. E isso nos leva de volta ao ponto principal: Recursos de narrativa irrelevantes. Gastar espaço é simplesmente ridículo: Seja num livro, quadrinho, série, filme, o que for, o importante é contar a história, e a história simplesmente é deixada de lado em favor de dois minutos de alguma gag manjadíssima. É uma piada não porque seja algo mal feito ou que o tal recurso não tenha valor, mas porque ninguém mais cai nele. Tem um motivo porque o mordomo não é mais o assassino: Todo mundo já sabe. O personagem principal não vai morrer, a pessoa que está falando sem parar vai prestar atenção com quem está falando, a cena vai mudar e alcançar o áudio antecipado. Imagina que bagulho loco seria se os terroristas tivessem bombas como a do cinema que explodem mas só atingem o vilão?

Eu não tenho problemas com cliffhangers mas aí entra-se naquele perigoso espaço que é o “se usar certo”. Construir um momento de tensão, um clímax, é parte integral de uma história, é um momento decisivo, e há diversos jeitos de se fazer isso, utilizando desde os elementos da própria cena até mesmo misturando mídias (Trilhas sonoras, iluminação, efeitos especiais, etc.), mas nego trata cliffhanger como trata plot twist: Feito farofa em churrasco de gato. E, claro, fica uma merda.

Porque seja o recurso que for, se for usado mais do que deveria, fica chato e repetitivo, e se for usado errado, no momento errado, executado errado, perde o sentido. Plot twist que sofre plot twist, voltando pro estado original, é estúpido. Cliffhanger de uma cena que não vai ser interrompida, mas sim continuar em seguida, é estúpido. Tratar a inteligência de um personagem como se fosse uma competência num jogo, levando aquela barra de pontos prum lado e pro outro quando for conveniente, é estúpido. Esse tipo de coisa é um atestado prático e incontestável de que quem quer que tenha tido a ideia é um incompetente.

É um retrocesso em termos de narrativa, ou melhor, uma falta de avanço. Não funciona mais; é só um anzol sem isca. Não tem porque entrar nos méritos do público, mas o resumo é fácil: Mesmo o mais ignorante público já conhece cada um desses recursos. É a piada do pavê. A piada do pavê não pega peixe, quanto mais melhora a qualidade geral de uma obra. Então qual o ponto? E pior ainda, usar à sério. Porque é o tipo de coisa que pode facilmente estar em paródias e em obras over the top. Se for usado como piada funciona, se for levado à sério é simplesmente cansativo. Te faz revirar os olhos.

Eu sinceramente não sei o que fazer nesta situação… Claro que qualquer um que continue a usar esses subterfúgios tem culpa mas há aquela pequena questão do “depois”: Há de se achar novas maneiras de ter os mesmos resultados que esses recursos geravam. Tensão, clima, mistério, qualquer coisa: O problema não é, de forma alguma, o conceito ou a função de recurso nenhum, só a execução. É preciso seguir em frente (Frase babaca, eu sei), criar novas ferramentas, achar jeitos novos de transmitir tais ideias, e, assim, ter-se-á uma filmes melhores, séries melhores, HQs, jogos, até novelas melhores. Imagina só que legal um mundo que tem novelas boas?

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