Sobre o Chorão

Música quarta-feira, 13 de março de 2013

Eu nem era fã de Charlie Brown Jr, e pouco conhecia sobre a discografia do grupo. Eu não pregava o que os integrantes da banda batiam no peito e gritavam pra sociedade, e nem comprava as brigas deles. Sequer considerava suas letras de músicas poesias ou ideias de gênios e revolucionários capazes de mudar o mundo. Não, eu não. Eu nem sabia que várias músicas que estavam guardadas em algum lugar do meu cantinho de lembranças e que embalavam a minha adolescência eram de CBJR. Mas eram.

Eu não era fã, mas acordei semana passada com uma notícia que me fez ter vontade de não ter acordado. Morre Chorão, vocalista e alma de Charlie Brown Jr, aos recentes 42 anos de vida, anulando todos os outros 42 ou mais (Ou menos, ok) que ele poderia ter pela frente. Motivo? Sei lá, perde o sentido achar um motivo que para uma vida.

Mas, mais do que ver notícias sobre a morte do cantor, eu vi notícias, notas, comentários, posts, tuitadas, compartilhamentos de galera falando mal do cara. Por quê? Sei lá também. Em vida, ninguém apontava o dedo na cara e dizia que ele era um otário (Como vi em diversos comentários). E também ninguém idolatrava (Como também vi em determinados momentos).

Eu não acho que ninguém que morre vira santo. E nem que suas falhas são esquecidas e desqualificadas. Não acho mesmo. Mas uma vida foi interrompida. Ele não era poeta, apesar de ter escrito em suas músicas vários capítulos de tantos adolescentes. E pra época em que ele estava no auge e embalando o cotidiano dos jovens, ele era sim exaltado e uma espécie de ~poeta e ditador de comportamento e sentimento. Para seu público. E não to dizendo que os adolescentes que ouviam ele tocar a música de abertura da Malhação eram seres com capacidade limitada de entender poesia ou textos que fossem além de frases compartilhadas no Facebook de Clarice Lispector ou algum escritor a sua escolha. Ele não era um escritor pertencente à Academia Brasileira de Letras. Mas ele falava com seu público e com os adolescentes da época. Não com todos, obviamente, mas falava. De modo claro, direto, atrevido e até romântico, numa mistura do que passava na cabeça dos jovens adultos que ouviam alguma de suas estrofes e dizia “FOI FEITA PRA MIM” com críticas à sociedade ou simples reflexões.

Como qualquer outro artista, Chorão foi igualmente aplaudido e vaiado. Com letras fortes contendo críticas à sociedade e ao governo, o guri de Santos gritava pro mundo que calar não era a solução. Não pregava guerra, mas sim revolução. Não ficar parado, não se contentar com o óbvio. E também sobre o amor. Desses do cotidiano mesmo. Nada muito exaltado. Desses que a gente vive no dia-a-dia e busca algo pra se identificar. Isso faz dele um gênio? Não. Faz dele um ser humano. A diferença é que ele falava para muitos, enquanto muitos com a mesma posição falavam para poucos.

Não virei fã do trabalho dele porque ele morreu. Mas sua morte me fez pensar que talvez ele tivesse trabalhos que eu gostasse, e nunca tivesse dado a devida atenção. O tal “perder pra dar valor”, sabe? Mais ou menos por aí.

De alguma forma, várias pessoas da minha geração foram forçadas a olhar pra trás nos últimos dias e lembrar de suas adolescências, rebeldes ou não, poéticas ou não, vazias ou não. Mesmo sem ser fã ou acompanhar o trabalho da banda, Charlie Brown fez parte dos meus dias e tempos de colégio, faculdade e fragmentos dos dias de hoje. E hoje é só lembrança. Só passado, sem futuro. Sim, Chorão, me aproprio das tuas palavras pra dizer que “você deixou saudade”.

Ele teve os problemas dele com outros músicos, outras pessoas, outros sentimentos, e com ele mesmo. Mas o tempo acabou rápido pra ele consertar o que havia de errado dentro dele mesmo. Condenar? Jamais. Esquecer e achar que era correto ser vida loka e desconsiderar a fragilidade da vida, sua e de quem está a sua volta? Também não. Ele se desculpou, reviu conceitos, mas deixou falhas. Falhas que afetaram sua vida – e sua morte.

Chorão pode ter acabado com sua vida repentinamente. Não sei, não se sabe a causa que fez com que ele não estivesse por aqui amanhã pra nos contar o que aconteceu. A gente sabe que as drogas acabaram com ele. Mas o motivo pra ele se entregar a elas e permitir seu fim, a gente não sabe. É fácil condenar, sem passar pelo problema. É fácil julgar, e também é fácil colocá-lo num altar como um mártir, um coitado, uma vítima dele mesmo. Ele tinha sonhos, não era suicida. E o sonho dele certamente não era acabar num apartamento destruído, junto com sua vida destruída. Faltou controle. Faltou controle dele mesmo.

Mesmo que ele tenha encerrado seus trabalhos repentinamente, ele deixou seu recado. Em música, em atitude, em forma de “faça algo”.

Ele não virou um exemplo de vida repentino, ou um mártir, ou um santo ou um artista exímio. Mas ele trouxe a reflexão de que as coisas acabam, e mesmo você vivendo a vida a sua maneira, como ele tanto falou, nem sempre pode ser a melhor maneira. Chorão deu o seu recado. Deixou escrito e bem gravado. E sinto mesmo por tão cedo uma vida tão jovem se encerrar. Depois de tantos shows, fecham-se as cortinas e silenciam-se os aplausos. O músico das ruas deixa sua história em verso e melodia. A platéia fica com a memória e com a saudade.

A receita do sucesso de Charlie Brown Jr, sucesso inegável, goste você ou não do que a banda tinha a dizer/mostrar/compor/expor, não é plágio de outras músicas já existentes. É autenticidade. É irreverência. São as palavras, citadas, copiadas, ditas por tanta gente que agora se deu conta que muita coisa que ouvia por aí era da banda liderada pelo cara que morreu. Pelo cara que partiu cedo demais.

Ele não era um poeta. Ele era um skatista. Um skatista que fez música. Música que fez sucesso. Goste ou não, ela fez sucesso. Mas não, ele não foi um poeta. Não. Ele mesmo disse que não sabia fazer poesia, mas que se foda. Com todo o respeito, que se foda mesmo. Ele falou. Cantou. Falou por aí o que quis e espalhou sua verdade. Virou exemplo? Não. Não de comportamento, de assumir a postura inconsequente: Tudo tem consequência. Mas ele viveu, fez o que acreditou, e não foi somente sua verdade que ele espalhou: Foi alegria, música e ele mesmo.

Ele podia saber o preço a pagar por seus atos. Mas talvez não soubesse o valor de sua vida. Realmente, ele não era o senhor do tempo. Até porque, o tempo dele acabou, e isso fugiu do seu controle.

RIP, Chorão.

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