Sexo em Quadrinhos II

HQs sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Depois de um rápido apanhado histórico do sexo nos quadrinhos, ou catecismos, como ficou conhecida essa modalidade no Brasil, chegou a hora de abordar os autores nacionais e internacionais, e logo de início vamos abordar o principal representante deste estilo em nosso país: Carlos Zéfiro.

Zéfiro escreveu, desenhou e publicou cerca de 500 histórias de cunho erótico entre as décadas de 50 e 70, ou pelo menos esse é o numero atribuído a ele. Suas obras são quase todas no tamanho de 1/4 de folha de ofício com um quadro/imagem por página, contendo em média 24 páginas, apesar de algumas obras suas serem em tamanho diferenciado (14x21cm, aproximadamente 1/2 folha A4) e com histórias de até 32 páginas, sempre em preto e branco com traços singelos, mas que retratavam perfeitamente a anatomia humana.

Suas obras eram comercializadas de forma clandestinas em bancas de jornais, em virtude do seu conteúdo pornô-erótico que feria a “moral e bom costume familiar”, já que o sexo na época era considerada tabu. Um fato curioso é que cada história tinha uma tiragem até que significativa, atingindo até 30 mil exemplares comercializados. Ou seja, um numero alto para algo que era vendido “na moita”, pois para adquirir um exemplar catequético era preciso ser, antes de tudo, amigo íntimo do jornaleiro.

Além disso, após o golpe militar de 1964 e a implantação da censura, o cerco aos catecismo aumentou ainda mais, dificultando a distribuição deste trabalho artístico quase manual. Inclusive, os militares até tentaram descobrir a identidade real de Carlos Zéfiro, porém no jogo de esconde-esconde com as autoridades o autor conseguiu ser campeão, pois somente na década de 90, pouco antes de sua morte, é que sua identidade foi revelada.

O verdadeiro criador dos catecismos brasileiros era na realidade o funcionário público Alcides Aguiar Caminha, que apresentava dons artísticos também em outras áreas como a música, como por exemplo em A Flor e o Espinho, composta em parceria com Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

Além disso, suas obras quadrinísticas não passavam de um “biscate” para ganhar uma grana extra e feito meio que na brincadeira. Porém, conforme mostram os historiadores, após ser incentivado por um amigo, Helio Brandão, que era dono de um sebo na Praça Tiradentes no Rio de Janeiro, Zéfiro passou a trabalhar com mais afinco em suas obras de arte erótica.

Brandão ficou responsável por providenciar a impressão e distribuição clandestinas dos catecismos, que chegaram a ter mais de 2 mil edições diferentes (Contando com reimpressões). E assim, aos poucos o catecismo passou a ser um segredo popular, atraindo inclusive muitos desenhistas de quadrinhos profissionais, que também disfarçaram seus traços e produziram catecismos, publicados no mesmo esquema por outras “editoras” clandestinas, entre esses desenhistas está Eugênio Colonnese, um dos artistas de destaque da Editora Ebal e criador de Mirza, a Mulher Vampiro.

Basicamente os roteiros de Zéfiro apresentavam certo padrão já que, nas primeiras páginas, o personagem conhecia uma moça, seduzindo-a mais ou menos até a página 15, e daí até a página 32 era sacanagem pura.

O traço simples dos desenhos do autor se deve ao fato dele não ser desenhista profissional, mas sim um conhecedor da manipulação de materiais para desenho. Ele era capaz de fazer uma história de quadrinhos decalcando, em papel vegetal, posições de revistas de fotonovelas e de revistas tradicionais comercializadas em bancas, além de fotos eróticas fornecidas por Hélio. Por isso, a irregularidade entre os desenhos de uma mesma história é muito grande, pois quando não havia referências para decalcar os desenhos ficavam toscos. Mas mesmo assim se tornaram uma verdadeira febre entre adolescentes e adultos daquela época.

É claro que o fato de não ter internet naquela época colaborou e muito para o sucesso deste tipo de literatura. Mesmo porque durante quase toda a década de 60 essa era praticamente a única literatura erótico-pornográfica disponível, já que ainda não havia revistas de mulher nua (Sim, a Playboy existia mas somente na versão americana e por ser importada tinha um alto valor comercial). Neste período nem mesmo vídeos-pornô existiam.

As revistas de Carlos Zéfiros e os catecismos em geral diminuíram seu volume de circulação na década de 70, com o surgimento de fotonovelas pornográficas de origem suecas e dinamarquesas que eram impressa em cores, atraindo o interesse do público, e principalmente, por causa da ditadura. O amigo e incentivador de Zéfiro, Hélio Brandão, inclusive chegou a ser preso em meados da década de 70 e passou alguns dias na cadeia, mas nunca entregou a verdadeira identidade de Zéfiro. Após ser libertado, ele abandonou as atividades de sua editora clandestina; uma vez que por causa do cerco militar se tornava difícil arranjar os esquemas de impressão e distribuição.

E mesmo com a forte pressão da censura os catecismo sobreviveram em menor escala, com reimpressões piratas que continuaram a ser feitas por pessoas que tinham as edições originais e davam um jeito de reproduzi-las, portanto, a pirataria de obras intelectuais também não é um problema que surgiu com a internet, apenas se popularizou.

A fama e a lenda de Zéfiro era tão grande que no começo da década de 80, em 1984 pra ser mais exato, Otacílio d’Assunção, conhecido popularmente como o cartunista Ota, publicou o livro O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro na qual fez um estudo, analise e compilação do “papa dos quadrinhos eróticos brasileiro”.

Mesmo com a publicação deste livro, o mistério sobre a identidade de Zéfiro durou por mais alguns anos, já que Alcides tinha medo de ser demitido do serviço público por justa causa devido a sua atividade extracurricular. Sua verdadeira identidade foi revelada apenas em 1991, e mesmo assim a revelação ocorreu de forma não-espontânea, já que ele se entregou para desmascarar uma farsa em relação ao alter-ego de Carlos Zéfiro.

A verdade só veio a tona depois que Alcides ficou sabendo que outro desenhista brasileiro, Eduardo Barbosa, que também desenhou vários catecismos, iria conceder uma entrevista para a Playboy na qual ele afirmava ser o verdadeiro Zéfiro. Então, para não deixar que outro levasse a fama que ele conquistou em mais de 30 anos de carreira, Alcides “saiu do armário” e entregou sua verdadeira identidade para Juca Kfouri.

Também é curioso o fato dessa revelação ter coincidiu com a I Bienal de Quadrinhos, que foi realizada em novembro de 1991, e na qual estava planejada uma homenagem a Carlos Zéfiro. E por pouco o mistério da identidade real de Zéfiro não permanece oculta para sempre, já que ele veio a falecer de derrame em 03 de julho 1992, um dia após de ter sido homenageado com banda de música e tudo numa solenidade onde recebeu um troféu HQ-MIX em reconhecimento de seu trabalho.

Carlos Zéfiro nunca foi esquecido e volta e meia seu nome vem à tona. Uma lona cultural em Anchieta (Subúrbio do Rio de Janeiro/RJ) tem o seu nome, e a cantora Marisa Monte, em seu CD Barulhinho Bom, usou desenhos de Zéfiro para ilustrar a capa e o folder do CD. Recentemente, as histórias de Zéfiro têm sido reeditadas em edições fac-similares no mesmo formato original. Além de ser possível encontrar sua obra em vários sites na internet, inclusive no www.carloszefiro.com.

É claro que muito mais pode ser dito sobre Zéfiro, inclusive de sua obra narrada sempre pelo ponto de vista masculino, contendo inclusive, em algumas histórias, uma certa dose de humor, mas isso deixaria esse texto ainda mais longo, então encerremos, momentaneamente esse assunto por aqui, pois no próximo artigo será a vez de outro mestre brasileiro do gênero: Gilvan Lira.

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