Se você deixar, o cinema te fode

Cinema terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Chega um momento na vida de um homem em que chega um momento na vida de uma mulher, e é nesse ponto em que você, macho, dono do próprio cu e senhor do seu sofá, deve fazer uma escolha: Continuar a ser o exemplar de gente de bem que sempre (Ou quase sempre) foi ou se curvar como um verme à tal da buceta e, portanto, à sociedade, deixando para trás a gloriosa época da sua vida em que ver comédia romântica não era uma opção.

 Acho que essa é a mais safadamente manufaturada imagem que já usei.

Aproveitando que o Beico só tem marmanjo agora, posso enfim escrever linhas de pura verdade, que ofenderão olhos sensíveis e hipócritas: Comédia romântica é a tal da “sociedade machista” condicionando pessoas no mundo todo a adotarem uma postura “feminista” rasa baseada quase que unicamente em sentimentos antropocêntricos hiper-pretensionistas estúpidos. Ou, de forma mais simples, é o (Fatídico) Sistema fazendo gente acreditar no direito de fazer merda em nome do amor. “Amor”.

É assim no cinema americano, no cinema brasileiro, no cinema indiano, no cinema japonês e até no cinema iraniano. Por ordem: Amor vence tudo porque é amor; amor vence tudo contanto que você tenha realmente procurado antes e falhado; amor vence tudo contanto que seja amor “proibido”; amor vence tudo porque para quebrar as regras sociais é preciso muito amor; e amor vence tudo porque sacrifício é o maior ato de amor possível. Todo o resto é carenagem, pra fazer volume e enganar as novinhas os incautos.

 Ó o processo.

Há de se argumentar entretanto que muita coisa no cinema não é comédia, e é bem verdade, mas aqui é comédia sim. E não é comédia porque “esse filme é uma piada” mas porque a função é a mesma: Apresentar de forma simplificada o mundo real. Pode parecer que tem algo errado no meio desse pensamento aí, mas a verdade é que não se faz piada com o mundo real, apenas com uma parte pequena, menor, uma fração, e se não é o todo, é simplificado. Ou é o todo, completo e complexo, ou é simples. Não se faz piada com o mundo todo porque é impossível sintetizar em poucas linhas o mundo, não dá, e então há o início: Comédia é o que simplifica o mundo para apresentar algum ponto de vista sobre qualquer coisa. Pode ser engraçado ou não, pode ser sobre amor ou não. Um filme de ação, um drama, uma biografia, tudo isso se passa no mundo real (Ou num mundo ficcional, mas aí é outra história), ainda que a situação apresentada seja específica, a comédia é a parcela, e vice-versa.

E então temos o seguinte cenário: Um mundo simplificado, menor, e portanto irreal, em que se aceita tudo, e tudo é perdoável e esquecível, desde que haja amor. Amor que, na grande maioria das vezes, se resume à interesse físico e intelectual, respeito e sexo satisfatório. Vou dizer o óbvio só para preencher espaço aqui: Você pode ter tudo isso sem chamar de amor, e sem se sujeitar e sujeitar outros à situações ridículas por isso. Favor me pouparem de “se você não tem coragem para passar ridículo pelo que ama…”, o Orkut já morreu e meu saco não dá mais conta desse tipo de coisa.

O amor é um troço à parte. Claro, engloba interesse, respeito e sexo, mas não é jogar os três na panela e pronto. Um exemplo que se encaixa perfeitamente aqui: Amigos com benefícios (Ou qualquer variação de nome). Quando o cinema te diz que esse tipo de relacionamento acaba inevitavelmente na perda da amizade inicial ou num relacionamento sério, pode esquecer, é burrice, é parcial. Dizer que o amor, tido por muitos como o mais alto dos sentimentos, pode prover de uma (Ou mais) fórmula predeterminada em que os três ingredientes estejam presentes é tipo dizer que você pode ser feliz se trabalhar muito, não dever dinheiro para ninguém e tiver boas noites de sono. Pode ser que dê certo, mas não é uma equação, não tem sinal de igual ao fim das variáveis.

 Eu podia encerrar este texto aqui.

Pegue as comédias românticas que conhece, aquelas padrões mesmo, com a Ingrid Guimarães, Julia Roberts, Richard Gere, Carol Castro, Hugh Grant, Cauã Reymond, Selton Mello, Jennifer Lopes, Luana Piovani e, pros um pouco mais velhos, o Tom Hanks e a Meg Ryan. E agora é aquela parte em que se une tudo: Uma comédia romântica é uma obra que simplifica o mundo, dizendo que o amor pode tudo. Não pode, o mundo real não é assim, “fuga da realidade” não é uma opção fora da sala do cinema, tente encarar o mundo como se fosse o Ma-Ti e você vai ver a chulapada que a vida te dá.

Sabe aquela clássica reclamação de que “ele está brincando com meus sentimentos”? Pois é, é por aí. No mundo real não é uma opção deixar seus colegas de trabalho na mão, desistir do resto da família, cruzar o país de carro, deixar uma crise de meia idade comandar sua vida, aceitar se transformar num mártir… Você pode fazer tudo isso, a questão é o porquê não as fazermos à torto e à direito: Afeta mais do que as nossas vidas. Mudar como pessoa, de emprego, religião, estilo de vida, de dieta, ter novas relações (Familiares, fraternais, amizades, românticas, et.c) e deixar o “velho” de lado: Tudo isso é válido, pode ser bom, pode ser melhor do que antes, é de boa. Não quer dizer que todo mundo vai gostar, entender e apoiar, mas isso é uma constante independente de qualquer coisa: O que não pode é mudar sua vida de modo que isso foda a vida de quem está ao seu redor e, ao ser questionado, esperar o perdão incondicional porque você fez o que fez “por amor”.

Acreditem ou não, este post não é dor de cotovelo, de corno, frustração com o tamanho do meu junior e nem tristeza por uma friendzone qualquer.

 Achei por acaso, mas gostei.

Não quero entrar no mérito de utopias, representações de desejos, exemplos de vida e nada disso: Não se vive a vida real como os personagens vivem no cinema, e ainda que tenha quem não entenda isso, gosto de pensar que se você está lendo o Bacon, isto está claro. Entretanto, há de se considerar a questão da influência. Eu acredito na liberdade de expressão, apoio a coisa toda e nem por um segundo diria que algo não pode ser dito ou mostrado por receio das consequências: Não quero a censura, quero filmes melhores. E, neste caso, menos simplistas e rasos.

Sabe aquele filme do Michael Bay cheio de explosões em que a garota que se meteu por acidente no meio da parada toda e fica com o agente aposentado que voltou à ativa? Aquilo é real: Você daria para alguém que te arrasta por meio mundo te salvando de árabes terroristas, mesmo que após os créditos cada um siga sua vida separadamente. Você não dá pro cara que corajosamente desistiu de uma carreira de sucesso no mercado de ações para viver com você plantando girassóis em algum lugar dos Países Baixos. Primeiro porque esportivos são mais legais que bicicletas e segundo porque suas vidas vendendo girassol seria uma merda comparada com a vida de investidor da bolsa. Não é dinheiro pelo dinheiro, mas o dinheiro te compra a casa e a plantação de girassol sem você se preocupar com uma chuva que vai estragar a colheita e te deixar na merda pelo próximo ano inteiro.

Mudar sua vida é de boa, mudar a vida de pessoas ao seu redor é de boa e mudar as pessoas ao seu redor é de boa também. Estragar a vida de quem está ao seu redor enquanto estraga a sua vida (Porque inevitavelmente o roteiro passa por um período “negro” racismo) para aí ter uma vida boa para você não é de boa. O ser humano não é generoso e altruísta pelo motivo simples de que, após você acertar sua vida maravilhosa ao lado da sua alma gêmea as consequências do seus atos não resetam e todos vivem felizes para sempre. Olha só que incrível: Pessoas não ficam felizes porque tem outras pessoas felizes, ainda mais se a felicidade alheia as comeu à seco.

 Se você riu vai para o inferno junto comigo.

E ainda assim, está nos filmes, está no cinema: Amor através de sites de encontros, amor com o tio rico da amiga da filha mais velha, amor entre um casal que após anos enfim fez uma viagem para sei lá onde e se reconciliou, amor por insistência, amor por preferir morrer ao ver o outro morrendo. Temos grandes histórias de amor na vida real, mas não é inofensivo como um trem vindo em sua direção… Há custos. Se você vai pagar estes você mesmo, sozinho, tudo bem, mas você não tem o direito de deixar suas contas para os outros. Não precisa dar gorjeta, mas pedir pra rachar a conta quando só você comeu é sacanagem. Ou nem rachar, “ir ao banheiro” e vazar: No fim, ninguém te convida pra mais nada. Quero um cinema que jante comigo, e não me importo de pagar metade, desde que ele me faça querer comer a pipoca, e eu coma mesmo.

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