Rapa de Tacho (Apparicio da Silva Rillo)

Livros terça-feira, 24 de março de 2009

Se tem uma coisa que eu realmente aprecio no mundo é os causos gaúchos e a forma como são contados. Não adianta sentar numa roda de chimarrão e contar aquele causo engraçado como se tivesse numa consulta com um urologista. Tem que ser com emoção, com vontade e, principalmente, tem que saber fazer um suspense. Se o desfecho da história vai ser realmente engraçado é sempre bom ter aquelas pausas dramáticas ou então aumentar um pouco mais o conto pra fazer valer a pena o tempo investido em ouví-lo.

Os únicos livros de contos que eu li, até hoje, foram apenas de causos gaúchos. Não consigo ler aqueles que são mais melosos ou que parecem cópias baratas de Shakespeare. Eu acho que, quando se vai ler um livro desse tipo, é necessário primar pela originalidade e pela riqueza das histórias. Quanto mais cheias de regionalismo, de figuras típicas e de churrasco, tanto melhor para os nossos olhos. É muito bom poder ler uma história e conseguir imaginar perfeitamente o cenário onde ela se passa, os personagens e a roda de chimarrão ouvindo atenta o peão contando, cheio de pompa.

 Ah, o minuano…

Como eu sei que nem todo mundo é gaúcho e também nem todos conhecem o Rio Grande do Sul, vou citar um dos contos do livro:

“ O grupo de amigos que se reunia, após o almoço, no Clube Rio
Branco, de Cachoeira do Sul, falava em doenças. Todo um corso de
males desfilava. Até que alguém comentou que um parente seu estava
por morrer, de diabete.

O então vereador Geny Trindade, despachado e falastrão,
comentou que diabete era com ele mesmo:

– Tirei carta de doutor cuidando de diabético. Minha santa
avó – que Deus levou – tinha tanto açúcar no sangue, que eu e meus
irmãos colocávamos arandelas de lã de pelego nos pés da cama da
velha…

– Pra que, Geny?

– Pras formigas não comerem a pobre da velha que, mal
comparando, era uma rapadura que falava.”

Todos os causos do livro remetem à este tom de humor. Em alguns tem que se esforçar mais para entender, pois devido aos regionalismos, fica um pouco complicado poder se situar na história e captar o contexto de onde o causo se originou. Fora isso, a leitura é bastante leve e muito engraçada.

O autor, Apparicio da Silva Rillo, nasceu em Porto Alegre, mas viveu a vida toda em São Borja. Para escrever esse livro, ele saiu viajando pelas estâncias do Rio Grande do Sul afora, de rancho em rancho, perguntando pra gauderiada quais eram as histórias mais famosas da região. Também escreveu um livro só com frases encontradas em banheiros, que se chama Literatura de Latrina. Este eu pretendo comprar em breve e resenhá-lo por aqui.

Vai lá, esquenta a água, prepara a cuia e lê esta obra que vale cada pataca gasta.

Rapa de Tacho


Rapa de Tacho – Causos Gauchescos
Ano de Edição: 1982
Autor: Apparicio da Silva Rillo
Número de Páginas: 242
Editora:Artes e Ofícios

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