Prazeres Rurais

Música sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Me vejo hoje numa posição que eu jamais pensaria que me acharia: Passei o dia baixando comprando e ouvindo músicas de…

Moda de viola, ou Modão, pros mais chegados.

Agora que passamos dessa safadeza enorme só pra ter uma page view a mais, sim, é isso mesmo: Moda de Viola. Não sertanejo, não sertanejo universitário, não violão, não pagode, não samba. Viola. Do único tipo que merece respeito: Moda de viola de raiz. Do tipo que canta sobre o sertão e essa vida de merda do povo brasileiro, e não da fatídica dor de corno que assola o estilo musical nas últimas décadas.

Aliás, eis a diferença entre a moda de viola e o sertanejo atual: A moda de viola é como o cara pega uma garota porque tem jeito, o sertanejo é como o cara levou o pé na bunda por ser capacho.

Mas voltando ao assunto, eu jamais me imaginaria nesta situação até uns anos atrás… Porram, se me perguntassem segunda-feira sobre isso eu diria que a pessoa tinha perdido a noção da realidade… E ainda assim, cá estou.

 Quem lê o Bacon há anos tem tanta coisa pra jogar na minha cara…

A verdade mesmo é que nos últimos anos eu tenho abdicado mais e mais das minhas pré concepções musicais e procurado coisas diferentes. Já falei disso algumas vezes inclusive, e a moda de viola é o capítulo mais recente nesta novela horrível que é a minha playlist.

À bem da verdade, moda de viola nunca me incomodou. Nunca foi meu estilo favorito, mas vira e mexe tocava uma ou outra música e eu estava bem com isso, e de algumas eu gostava… Não é o que eu vou atrás para ouvir, mas, por exemplo, se me convidarem prum show de música pop e um de moda de viola, eu escolho o segundo. Eu gosto da parte da estética bruta, sem grande produção, artesanal. Gosto que, em grande parte (E por uma série de motivos que não cabem aqui), a moda de viola é feita (Atualmente) de forma não-tão-comercial. Gosto que é um estilo típico do Brasil que não fala de seca e gado morrendo, do mesmo modo que não fala sobre favela e pobreza. Gosto que é um estilo tão nacional que se permite cantar o dia a dia de uma parte da população do país, mesmo numa época em que o treco não é nem popular nem dá dinheiro.

Aliás, gosto bastante também que, tal qual o repente (Só pra citar um exemplo), a moda de viola não é um produto de exportação: Não que não tenha gente fazendo show pra gringo metido à cultural por aí, mas porra, cê não vai ver um norueguês falando de arriar cavalo em Goiás. A moda de viola é um treco tão legitimamente brasileiro (Apesar da própria viola ter origens portuguesas e árabes) que ninguém quer chegar perto, e isso é ótimo!

Então eis-me aqui, indo atrás de moda de viola em pleno 2017. Porque me perguntaram se eu tinha, e eu disse que é claro que eu tinha, mas o que eu tinha era pouco, então fui pesquisar a parada… E eu já tenho 230 novas faixas (“Nova” é jeito de falar, não duvido que a coisa mais recente aqui é de 2013). E cara, não posso dizer que me fez querer ir pra Barretos, nem aprender a tocar o instrumento ou qualquer coisa do tipo: Ainda não é o que eu vou botar no meu celular pra ouvir no ônibus e nem o que vou pedir no lugar de Toca Raul Nirvana, mas porram, que bagulho legal.

Sério mesmo, tem uma pá de música que é divertido ouvir. Claro, os nomes da galera ainda são estupidamente bregas e de mal gosto, ainda tem uma cantoria desafinada que dói até na alma, ainda tem uns sotaques tão estranhos que te fazem jurar que não é em português, mas no meio disso tudo tem música legal pra caralho. E por definição você, que tá ouvindo, sabe que não tem playback, autotune e qualquer outra firula: O que você ouve é o que os artistas cantam e tocam. Inclusive, se você tiver batido a cabeça e for no show dessa galera vai se dar conta de que o que está no álbum é extremamente próximo do que você vai ouvir na vida real, sem enganação nenhuma.

Pode ser um tanto absurdo poder dizer isto, mas é refrescante. O bagulho é feito no Brasil, sobre o Brasil, para o Brasil, sem nenhum recurso que não seja o próprio talento de quem faz a música… É tão cru, tão genuíno, que não tem como não gostar… Aliás, vou além: Moda de viola é muito rock. Sim, é isso mesmo, é muito rock. Porque tem que ter muito peito pra mandar o sistema ir tomar no cu com uma sanfona e um chapelão. E se você não acredita em mim, saca só esse acordeão:

Johnny Cash é o caralho.


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