Posso dar o troco em livros?

Livros quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Vocês já viram aqueles expositores de livros? Cês sabem do que eu tô falando: Aquelas “prateleiras”, normalmente giratórias, que sempre ficam em algum canto onde não tinha mais nada para pôr, num local que na real sequer vende realmente livros. Vamos falar delas um pouco.

Quando eu era criança, ou para ser menos babaca, uns anos atrás, quando a maioria das pessoas não ligava para tentar fazer outras pessoas adquirirem cultura, essa ideia de vender livros fora dos lugares que comumente vendem livros praticamente não existia. Quer dizer, até existia, mas apenas em lugares que não tem mais nada para fazer, e ler um livro é uma forma de passar o tempo: Postos de beira de estrada e aeroportos. Esses lugares sempre tiveram aqueles livros “próprios”, como mapas das estradas, guias de hotéis, dicionários de outros idioma, manuais de como pedir comida chinesa na China e outros livros-utilidade, prontos para auxiliar pessoas esquecidas ou que esperam descobrir como se virar em lugares desconhecidos em vinte páginas de um livro de bolso.

Mas tirando os livros-utilidade, nada feito. Nos últimos dez anos, entretanto, a coisa mudou: Passamos pela inclusão digital, pelo apoio ao cinema, pelo Vale Cultura, por mudanças sociais e até mesmo pela decepção nos mais diversos pães e circos eu juro que não faço humanas, gente que tínhamos. Em suma, passamos por todas as manobras que deveríamos passar para chegar à uma “qualidade de vida” maior e também vimos falhar quase todas as estratégias de manutenção possíveis, e agora estamos meio que à deriva, e é aí que entram os expositores de livros.

Não sou do tipo que liga pra teorias conspiratórias, e nem estou falando que vender livros em supermercados sejam um recurso do governo para tentar controlar a população, não, essa de vender livros em tudo que é lugar é apenas o reflexo: As pessoas leem mais hoje porque todo o resto com a qual costumavam gastar seu tempo está na merda, mas ainda não ligam o suficiente para tratar a leitura como uma atividade que não seja “de passagem”.

Não que tenha diferença entre o livro comprado numa farmácia e o mesmo livro comprado numa livraria, a diferença é a oferta. Esses livros encontrados nos expositores largados num canto qualquer seguem padrões: Autoajuda, livros que geraram adaptações para filmes, livros que não venderam o suficiente e ficaram sobressalentes, coleções que “trazem cultura para o grande público” e os livros-utilidade. São sempre aqueles livros pra quem lê o que outras pessoas estão lendo, livros indicados por um jornal ou revista qualquer, livros que tiveram tiragens grandes demais e agora sempre são vendidos em promoção, ou ainda livros relevantes (Ou supostamente relevantes) para o local onde se está e para onde se vai. Um livro num lugar desses, qualquer um deles, não vai estar alí porque é um livro, mas porque pode oferecer uma distração por algumas horas ou te ajudar em alguma tarefa próxima.

Qualquer um que diga que comprou um livro numa estação de trem, o leu durante o percurso, e que isto mudou suas vidas no mínimo nunca pegou em nenhum outro livro… Além de ter uma vida tão merda que qualquer coisa a teria melhorado. Não é preconceito, é só a real: Absolutamente nenhum desses livros está alí por ser uma obra literária, mas sim pra ocupar um espaço que do contrário estaria vazio e gerar uns trocados pra alguém.

É meu papel aqui no Bacon defender a literatura e blá blá blá, e eu sei que este texto está soando crítico à coisa toda, mas juro que não é: Já comprei livros nesses lugares. Livros de praticamente todos os tipos, contanto que estes observem duas regras básicas: Não ser autoajuda e não ter capa do filme para o qual ele foi adaptado, ambas por respeito próprio. Já me aconteceu de esquecer de levar um livro prum lugar qualquer e pegar um pra passar o tempo, ou de comprar um mapa de estradas, guias de pontos turísticos, manual rápido dos pontos de interesse de uma cidade, obras de autores famosos, livros clássicos que ainda não tinha e até alguns de coleções pra melhorar minha cultura (Eu só não me iludo com essa promessa). É útil poder comprar um livro num local que não se esperaria o fazer, e também é legal saber que essa oferta só existe porque lê-se mais, ainda que não da forma que se poderia chamar de ideal.

Qual o grande problema aqui então? Eu não sei. Só sei que cada vez que vejo um desses expositores me aborrece. Não gosto de ver os atores do filme na capa dos livros, não gosto de livros de bolso com capas genéricas sobre qualquer coisa, não gosto de ver alguém me dizendo o quanto sou especial enquanto como meu misto quente antes de voltar pro carro e, sério, quem compra mapas e guias de viagem atualmente? Tem GPS e internet até em celular, véi!

Não tenho nada contra a maioria daqueles livros, nem contra o objeto que é o expositor também, e nem contra a presença de livros em carrinhos de cachorro quente, mas ao ver a porcaria do expositor cheio de livros, eu não gosto. Eu vou até o troço e checo todos os livros que tem alí, só pra confirmar o que já sei: Um livro que está alí não está alí pelo que está escrito nele.

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  • Vitor Piovezam

    Pensei que era só eu que me incomodova com esses expositores de livros em lugares que não vendem livros e nem tem cliente pra isso, ótimo texto, buguei um pouco na frase final ali, mas de resto, agradavel leitura.

  • Loney

    É, meio paradoxal… mas nem tanto

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