Perguntas para um leitor

Analfabetismo Funcional segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Em todo o meu tempo de leitor, eu sempre me deparo com pessoas que se impressionam de alguém estar com um livro na mão ao invés de… sei lá, um cortador de unhas. A cara que elas fazem ao ver isso é muito boa, principalmente quando consigo ver a tempo. É um misto de surpresa com vergonha de falar algo. “Será que vai atrapalhar?”, “que livro será que ele tá lendo?” e muitas outras coisas que, logo depois que eu olho que estão fazendo isso, digo um “opa”, para tirar a atenção da capa que insistem em olhar sem parar.
Já que dali em diante eles tem a minha atenção, eles começam a tentar falar algo sobre livros, começando por perguntas que são sempre ridículas. As principais, irei enumerar abaixo:
– Nossa, que livro você está lendo? / Que autor é esse?; Como se adiantasse dizer o nome dele. A chance de ele reconhecer quem é Guy de Maupassant é quase zero, mas digo mesmo assim a resposta. Normalmente é respondido com um: “Ãhn, que interessante…” que aliás, é a resposta padrão de qualquer uma dessas respostas do leitor.
-Sabe, eu li duas apostilas / folhetos / revistas / há umas semanas atrás – Essa pergunta é só pra rolar uma identificação com quem está lendo, esperando receber a mesma resposta que a dele, ou se for o caso, receber alguma recomendação, sugestão ou elogio pela leitura. Nessa hora, prefiro ficar quieto, é melhor nem dar corda pra essa pessoa, pode ser que ela comece a falar sobre O Segredo. O que leva a terceira resposta, caso o cara seja um daqueles que não se importam com a leitura de nada, nem mesmo saquinho de chá:
– Pois é, ler é bom, mas só pra quem gosta! – Vamos analisar essa última frase, que ela é daquelas que tem um sentido escondido. Ler é bom, mas ele não faz isso, logo, ele não gosta de ler, justificando a segunda parte da frase, certo? Mas aí fica o sentido secundário da frase, vejam só. Ele sabe que é bom, mas não o faz por não gostar. Entre começar uma discussão com ele sobre gostar ou não de livros e olhar pra ele, dizer “pff” e voltar a ler, prefiro a segunda opção. Discutir com quem diz uma frase dessas é tempo perdido.
Ah sim, não estou falando que conversar com leitores é chato, mas atrapalhar o momento de concentração de um leitor pode ser algo desagradável às vezes. Se ele é daqueles que consegue voltar a ler sem problemas, não há mal nenhum nisso. Mas, e se o leitor é daqueles que custam a se entreter com o volume e depois de serem atrapalhados abandonam a leitura para sempre? Acontece muito disso, posso garantir. Meu irmão é um desses, porque ele até hoje não terminou o O restaurante do fim do universo pelo motivo de que ser perguntado todo momento por seus conhecidos sobre sua leitura não o deixava se concentrar bem.
E ser incomodado por pessoas que querem saber o motivo de sua leitura nunca tem seus locais preferidos. No trabalho, em sua própria casa ou até quando se está sentado debaixo de uma árvore, a chance de aparecer uma pessoa pra te perguntar o que está lendo é proporcional a sua concentração naquele momento. Até falaria pra fazerem um teste, mas duvido que ele desse certo. Em todo caso, a paciência é a melhor maneira de contornar esse fato. Ou então faça como um cara na biblioteca, ao ser incomodado por um amigo que se aproximava, perguntando a primeira frase logo acima. Jogue o livro na cara dele e saia o xingando. Se não resolver, pelo menos você fará uma cena que será lembrada por algumas pessoas. Eu lembro.

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