Os Fumetti Italianos : Julia Kendall

HQs sexta-feira, 04 de novembro de 2011

Encerrando esse breve ciclo Bonilliano, apresentando alguns dos personagens da Sergio Bonelli Editora, e que ganharam o mundo após tornarem-se Fumetti de sucesso no país da bota, vou abordar a personagem que vive em tempos mais atuais e próximos da realidade: A criminalista Julia Kendall.

Já cheguei a citar a personagem em um dos meus primeiros artigos aqui no Bacon. Mas acho que ela merece um aprofundamento, já que é um dos títulos italianos mais vendidos na atualidade, chegando a rivalizar com Tex.

Nascidas pelas mãos do roterista Giancarlo Berardi, o mesmo criador de Ken Parker, em outubro de 1998, a revista retrata o dia-a-dia da criminóloga Julia Kendall, que se divide em ministrar aulas na faculdade de criminologia e auxiliar a polícia de Nova York na resolução de intricados crimes.

Em suas histórias, é perceptível a atenção e dedicação com que Berardi escreve seus roteiros. É claro que como o autor é um fã declarado de romances policiais, ele busca criar a ambientação adequada para que cada crime se tornam ainda mais verossímeis, com as descrições técnicas apresentadas por Berardi. E tal realismo não é sem fundamento, já que o autor, antes de criar a personagem, frequentou o Instituto de Medicina Legal de Gênova como observador para aprender como trabalha um verdadeiro criminólogo.

Assim, com uma boa carga de conhecimento técnico ele passou a elaborar o roteiro que ganhou vida nos desenhos de Luca Vannini e deu vida a Julia Kendall que se equipara a grandes séries do gênero como CSI, Cold Case (Traduzido pelo SBT como Arquivo Morto) e Criminal Minds.

Um fato curioso é que a maioria dos personagens da série tem sua “descrição física” baseada em atores norte-americanos. As feições da protagonista Julia, por exemplo, foram baseadas na atriz Audrey Hepburn. Já a governanta de Julia, Emily Jones é inspirada em Whoopi Goldberg, o sargento Ben Irving é a cara de John Goodman, enquanto o tenente Alan Webb retrata John Malkovich e, por fim temos o detetive Leo Baxter que teve como “forma” Nick Nolte ainda jovem, sendo esses os personagens recorrentes da série.

Julia é solteira e vive em Garden City, uma cidade imaginária próxima de Nova York, num sobrado da periferia que foi herdado de sua avó. Suas companheiras de casa inseparáveis são a governanta/amiga Emily e a gata persa Toni. Logo nas primeiras edições, na qual ela ajuda a polícia de Nova York na caçada de um serial killer, descobrimos sobre sua carreira de professora e consultora, além de ficarmos cientes de que ela acabara de sair de um doloroso e não explicado evento traumático que deixou marcas profundas em sua psiquê, tanto que ela é atormentada por frequentes pesadelos.

Em seu trabalho como consultora, Julia coloca seus conhecimentos de psicologia humana a disposição da polícia de forma a procurar compreender os motivos que levam os criminosos a agir e, com base nos meticulosos cuidados da investigação psicológica, traçar um perfil do criminoso.

O problema é que seu cuidado para fazer as análises acaba se chocando com a necessidade de resultados imediatos da polícia, os quais, por vezes, esperam apenas aparecer o primeiro suspeito para considerar o caso resolvido. E como todo bom romance policial, Berardi narra as conclusões de forma que descobrimos que muitas vezes os crimes não aconteceram do jeito que se acreditava.

O mais interessante é que Julia não usa apenas a psicologia para traçar o perfil dos criminosos, ela também se baseia na antropologia e na sociologia.

No Brasil, a personagem só estreou em 2004 pela Mythos Editora e em sua primeira edição os leitores se deliciaram com o editorial escrito pelo próprio Berardi, no qual ele se declara apaixonado pelo Brasil, que inclusive foi homenageado em sua série Tiki, o Menino Guerreiro, que retrata as aventuras de um índio Carajá. O Editorial pode ser visto a seguir:

Viva! Júlia está viajando ao Brasil. E vai chegar antes de mim. Há quanto tempo eu me prometo umas férias nessa terra tão única, tão especial… Dez, quinze anos? Não, muito mais. No mínimo uns trinta e quatro. Eu ainda era estudante universitário quando li que, ao construir a estrada Transamazônica, o governo teve que usar bombas de napalm para abrir passagem na floresta fechada. A partir deste fato eu escrevi uma série, “Tiki, o menino guerreiro”, cujo personagem principal era um índio Carajá. Como é meu costume, comecei a me documentar, devorando livros e mais livros e, em poucos meses, eu me apaixonei por esse país – fascinante e terrível – da mesma forma que se pode desejar uma bela mulher de quem sempre se ouviu falar e que só se viu em fotografias. Depois, a Editora Vecchi, no Rio de Janeiro, começou a publicar Ken Parker e chegaram à Itália as primeiras cartas dos leitores do além-mar. Eu fiquei impressionado ao ver como aquelas pessoas, muito distantes de mim por nascimento, história, cultura… Estavam em perfeita sintonia com minhas pequenas histórias, geralmente inspiradas na realizada da minha nação, para não falar da minha cidade e até do meu bairro. Às palavras se seguiram os fatos. Porque os brasileiros são sonhadores, sim, mas sabem agir. Começaram a chagar à Itália pessoas que queriam me conhecer, me entrevistar, me cumprimentar. Todos tinham no sorriso o calor de sua terra e no coração a emoção de quem privilegia os sentimentos. Assim conheci Laerte – um grande cartunista – Merli, Wagner, Rosana, Olaia e os colegas como Mauricio de Souza, Ziraldo, Angeli… Hoje eu escuto muita música brasileira, e mais de uma história de Júlia nasceu sob as notas de Caetano Veloso. Mas eu nunca imaginei que a minha criação chegaria ao Brasil antes de mim. E sei que estará em boa companhia. A começar por Júlio Schneider, que vai cuidar da tradução, e pelo competente pessoal da Mythos Editora. Alem de todos os amigos, conhecidos ou não, que a farão se sentir em sua própria casa. Pode ser que logo eu vá encontra – lá. Boa viagem minha querida. E boa estada.

Atualmente, Julia já passou da centésima edição na Itália e no Brasil também se aproxima desta marca, já que está na edição 81, e certamente continuará por muito mais, já que é leitura obrigatória para quem gosta de quadrinhos e histórias policiais.

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