Orwell: Keeping an Eye On You (PC)

Games quarta-feira, 04 de março de 2020

Sei lá porque raios eu tenho Orwell: Keeping an Eye On You na minha conta do Steam: Eu, definitivamente, não comprei este treco. Mas tendo um tempinho livre, resolvi baixar a parada e ver qualé que era, e cara… Ok. Mas não tão ok.

Nota do editor: Esteve de grátis em outubro de 2018 na própria loja do Steam.

Como o próprio nome já indica, Orwell é um jogo sobre autoritarismo, totalitarismo e, claro, vigilância: Graças à Lei de Segurança, você assume o papel de investigador numa agência ultra secreta de vigilância, e você vai ter que ir atrás do responsável por um ataque terrorista. Pra isso você vai utilizar o Sistema Orwell, que te permite vasculhar a vida de qualquer pessoa de forma remota, conseguindo informações, fazendo conexões, estudando relacionamentos, avaliando pistas.

O jogo foi lançado em 2016 e tem cinco capítulos, sendo que uma continuação, Orwell: Ignorance is Strength, foi lançada em 2018. Só pra contextualizar um pouco, em 2013 houve todo aquele caso do Snowden com a NSA, e em 2016 mesmo houve o grande vazamento de informações dos então candidatos à presidente dos Estados Unidos pela Wikileaks: Em outras palavras, o tópico de segurança pessoal, uso de informações e autoritarismo estava bem em voga.

O jogo em si é bem simples: Você interage com a interface do Orwell, tendo acesso à conversas das pessoas investigadas, seus computadores, suas redes sociais, etc. Você deve ir puxando informações e colocando-as na base de dados do Orwell para ir fazendo sua investigação e, daí, para poder prender pessoas, chamar a polícia, impedir novos atentados terroristas, etc.

Não há muito o que falar em termos técnicos de jogo: Os visuais são estilizados, os controles funcionam de forma previsível, não há grande trilha sonora… É um jogo bem simples, cujo ponto principal é realmente a história que ele conta. São cinco episódios no total, mas não precisa nem se preocupar com isso: Em três horas eu joguei a coisa toda, com calma, me dando o tempo de descobrir tudo que eu conseguia.

Orwell é um jogo que, por definição teria de ser jogado várias vezes para conseguir os diversos resultados e percorrer os possíveis caminhos, mas pra falar a real, depois de jogar a primeira vez, eu não tive a mínima vontade de voltar pra ele.

Dêem uma olhada com atenção nessas três imagens aí no texto: Elas exemplificam perfeitamente como Orwell (O jogo, não o sistema de vigiância) funciona. É um jogo sobre autoritarismo e há um atentado terrorista na… Freedom Plaza. Os personagens tem reações e comportamentos realistas… Fazendo exatamente o que você espera de gente culpada (E isso não é spoiler). Há, por diversas vezes, a abordagem direta de “AH, meu deus, estão nos vigiando!”. Orwell não tem refinamento algum.

Eu entendo que há um argumento à ser feito à favor disso: A vigilância e o autoritarismo são problemas para a sociedade, precisamos falar sobre eles. E eu concordo com este ponto, porém isso vale pra vida real. Num jogo que te bota no papel do vilão (E veja, o vilão é o Estado hipervigilante abusivo), isso torna a experiência de jogo extremamente rasa. É um jogo totalmente simplista, bobo, óbvio. Em ORWELL você usa o ORWELL pra VIGIAR as pessoas sem seu consentimento porque TERRORISTAS estão nos ameaçando… Eu sei que acontece de verdade na vida real, eu também sei que se fosse o roteiro de um filme eu não só não pagaria o ingresso como sequer baixaria por torrent.

O tempo inteiro o jogo esfrega na sua cara que você, o investigador do governo, está fazendo algo ruim. Em momento algum o jogo te puxa, te coloca realmente no papel de investigador: Orwell quer te fazer pensar acerma dos temas que ele apresenta, mas ele não se esforça por fazer mais do que simplesmente colocar esses temas, de forma escancarada, na sua frente… De novo, não é errado, mas torna o “jogar” um saco.

 Qualquer semelhança…

Agora vou mandar alguns spoilers: O jogo, como eu disse, tem diferentes possibilidades e caminhos que podem ser percorridos, e você faz isso, mecanicamente, escolhendo o que você vai colocar de informações no Sistema Orwell ou não… Exceto que, na gigantesca maioria dos casos, você tem que colocar TODAS as informações disponíveis simplesmente pro jogo progredir na história. Há momentos sim nos quais você escolhe, mas a real é que é uma parcela ínfima delas, e à bom e velho modo dos dating sims babacas, você tem que adivinhar que a decisão que você tomou vinte minutos atrás teria que ter sido diferente, mas que agora, pra você consertar, só começando o jogo de novo. Pra não falar nas vezes em que informações eu queria incluir no Sistema Orwell simplesmente não podiam ser incluidas: Algo particularmente frustrante nas vezes que eu percebia, antes do jogo me liberar, que a tal informação teria que ser colocada mais tarde. Eu entendo que há limitações técnicas aqui: Fazer um jogo maior, com mais opções, mais detalhamento, custaria mais dinheiro, demoraria mais tempo. A desenvolvedora, a Osmotic Studios, só tinha dois anos quando o jogo foi lançado (E até hoje só tem os dois Orwell em lançamentos…), mas porra, se pelo menos o resto ajudasse.

Orwell tem um problema gigantesco de railroad. O jogo te força a colocar informações que você não quer colocar simplesmente pra poder continuar jogando, não te deixa colocar o que você quer na parada, e ainda trava seu avanço na história… E aí ele te penaliza por isso tudo, através da história progredindo de um jeito que você não queria. Há momentos em que o jogo, com a desculpa de um ataque hacker no Sistema Orwell, simplesmente te tira do controle, de forma semelhante à uma cutscene… E é onde você vê o resultado destas ações que você não queria pra início de conversa. E o problema maior sequer é isso, é, novamente, a falta de refinamento do jogo: Olha só, seu sistema de vigilância malvado foi hackeado, agora você pode fazer o que é certo e não entregar os terroristas pra polícia, beleza? Mas ei, você, isso, você mesmo que tá jogando Orwell neste exato instante, você não acha que isso tudo é errado?

Eu entreguei geral pra se foder mesmo. Por que? Porque em momento algum o jogo se dá ao trabalho de te fazer empatizar com qualquer personagem. Eu sei que esse autoritarismo, na vida real, é ruim. Tanto que eu tomo várias precauções justamente para reduzir a quantidade de informações minhas geradas pelo meu computador, meu celular, minhas contas em sites e jogos… Em Orwell, no final, eu tava mais do que feliz em mandar todo mundo pra cadeia.

Então, vendo um jogo que aborda questões seríssima de forma totalmente simplificada, aliada com mecânicas que funcionam mas não tem nada de mais, e que ainda por cima termina querendo dar uma lição do He-Man em mim me fez tomar a decisão de não só não ver as demais partes do jogo como também não jogar a continuação. Porque na boa? Eu não preciso de um jogo me tratando de forma infantil… Se eu tivesse 12 anos e jamais tivesse estudado nada disso e sequer conhecesse as citações feitas ao longo do jogo, TALVEZ Orwell fosse interessante… Mas né, são muitos “e se” pra experiência ser legal.

Como dito, em algumas horas eu joguei a coisa toda, e não posso dizer que me arrependo, mas também não posso indicar um jogo tão simplório quanto este. Eu não tive problema nenhum rodando o jogo, tudo funcionou a contento, mas cara, esse contentamento começou sem expectativas logo no primeiro episódio e terminou SEM EXPECTATIVAS no último. Já que Orwell: Keeping an Eye On You me botou um monte de “e se” pra ser divertido, toma aqui mais alguns: SE estiver de graça, E SE você tiver tempo livre, E SE você se interessar pelo tema E SE você não tiver nada melhor pra jogar, vai fundo. Caso contrário, vai ler tio George que você ganha mais.

Orwell: Keeping an Eye On You


Plataformas: PC
Plataforma Avaliada: PC
Lançamento: 2016
Distribuído por: Fellow Traveller Games
Desenvolvido por: Osmotic Studios
Gênero: Simulação

Leia mais em: , , ,

Antes de comentar, tenha em mente que...

...os comentários são de responsabilidade de seus autores, e o Bacon Frito não se responsabiliza por nenhum deles. Se fode ae.

confira

quem?

baconfrito