O Vício da Leitura

Livros sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Certa vez, li uma crônica de certo escritor famoso que agora me foge o nome, mas que sem dúvida deve estar guardado em algum canto dentro desse campo minado que é meu quarto. Nesta crônica, ele descreve sua paixão por letras impressas e alguns fatos um tanto quanto bizarros que já aconteceram devido o seu vício pela leitura, como por exemplo ler as etiquetas “quente” e “fria” das torneiras do banheiro do hotel. Inspirada em parte por essa crônica deste ilustre autor esquecido, vim dedilhar algumas linhas sobre este adorável vício da leitura e de como me tornei uma viciada em letras aos meus ternos 4 anos de idade…

Todo vício começa com pequenas coisas, uma pequena dose diária basta para aqueles que já possuem alguma inclinação para tal. E minha inclinação tem fundo genético. Meu pai que me iniciou neste mundo, quando eu ainda nem usava óculos ou conseguia enxergar decentemente as ilustrações. Quando ainda tinha míseros 4 anos de idade, inaugurou perto de minha residência uma biblioteca pública, a salvação danação dos viciados que não conseguem bancar seu vício. Toda semana, essa então inocente criança que agora vos escreve ia com seu progenitor até tal recinto e ali escolhia o livro que seria lido para ela. Eram sempre dois livros para meu pai e um livro para mim. Bons tempos aqueles…

Lembro com saudade de uma coleção que possuía um livro para cada mês e uma história para cada dia do ano. Eram histórias de príncipes e princesas, animais falantes, índios, lendas, poemas, histórias diversas que me fisgaram completamente. Depois que aprendi a ler, o vicio se tornou maior. Agora não precisava mais esperar que alguém lesse, agora só precisava pegar um livro e sentar-me em um canto. Pronto. Ficava ali perdida em meio a tantas aventuras.

Com o tempo, o vicio foi aumentando. Os livros ficando cada vez mais grossos e quase sem ilustrações. Eu ia de Irmãos Grimm até as histórias da Barbie durante a infância. Lembro em particular de livros que amei como O Senhor da Escuridão de Lorenço Cazarré, que contava a história de um garoto que se transformou em rato e quando acordou, não sabia se foi apenas um sonho ou realidade. Algo parecido com Kafka, ou quase. Lembro de que, no começo de cada ano letivo, ao pegar o livro de português, não parava até ler todos os textos que lá havia. Foi num desses livros que descobri que o que Serafina escondia em seu diário secreto em O Diário Escondido de Serafina de Cristina Porto, os problemas da rua do Ziza e da Clarabel em Nossa Rua tem um Problema de Ricardo Azevedo, o que Guga e Ritinha pensavam um do outro e o que eles tinham a ver com anjos e jardins em Um anjo no jardim de Lino de Albergaria, e claro, descobri também, Marina Colasanti, com suas idéias todas azuis.

É tanta nostalgia que até dá vontade de chorar… Mas vamos em frente!

Aos poucos, fui deixando esses livros mais infantis e indo para os juvenis. A coleção Vagalume me fez grande companhia nas tardes de preguiça, seja com o mistério que cercava as pessoas ruivas de uma pequena cidade e os escaravelhos em O Escaravelho do Diabo ou as histórias de um motoboy em Pega Ladrão. O que dizer também de Stella Carr? É tão saudoso lembrar-se de seus livros e mistérios, como O Segredo do Museu Imperial, A Morte tem 7 Herdeiros e O Esqueleto Atrás do Armário. Foi por causa de Stella que conheci Agatha e me apaixonei.

Quanta saudade! Com tanta coisa boa na literatura brasileira, esses adolescentes se perdem com embustes e figurantes de livros. Duvido que esses fãs dos livros de Meg Cabot, Sthephenie Meyer, J. K. Rowling e companhia conheçam alguns dos autores infanto-juvenis do Brasil.

Continuemos então… Depois disso me aventurei a novos mares, com Artemis Fowl e sua genialidade ou então com as biografias dos Mortos de Fama, sim, ambos internacionais, porém não me esqueci dos frutos de nosso Brasil. Foi nessa época também que passei a conhecer Alencar, Machado, entre outros. Me surpreendi com as damas de Alencar, tão ricas e decididas, querendo criar seus próprios caminhos. Nessa fase de ensino médio, descobri Paulo Rangel e seu personagem Ivo Cotoxó, que além de boas histórias, conseguia descrever também problemas sociais e levava seus leitores a pensar.

Com o tempo, cheguei aos clássicos da literatura mundial, como O morro dos ventos uivantes, Orgulho e Preconceito, O Senhor dos Anéis, entre tantos outros que me divertem, me ensinam, me fazem cair cada vez mais apaixonada e viciada por letrinhas impressas no papel e vindas de alguma mente criativa que soube delinear uma idéia e a deu de presente a esses ávidos leitores que todos somos.

Hoje em dia estou lendo três livros simultaneamente, tamanha é minha paixão por eles. Me despeço aqui, tenho Truman Capote, James Joyce e Massimo Grillandi para me fazer companhia.

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  • João pedro

    a crônica é de luis fernando verissimo. também estou lendo joyce por agora, e teu texto remeteu á muitas coisas de minha propria vida.

  • Ághata

    Me vi nesse texto, como esquecer os clássicos da Coleção Vagalume? Stella Carr, Marcos Rey e Pedro Bandeira foram meus preferidos por muito tempo.

  • MauHumorCrônico

    Garota de sorte você. Nasceu em berço de ouro por ter alguém na família que já tinha o hábito.

    No meu caso foi bem diferente: com 18 anos e uma burrice incomum, de corar qualquer Tiririca ou Carla Perez, eu resolvi que precisa me tornar culto.

    Pesquisei na internet o que era ser culto e encontrei um artigo do Paulo Francis sobre os livros que eu precisaria ler para me tornar culto. O mais fácil de ler era a Íliada, e foi por ai que comecei. A esse seguiram exatos 367 livros até o momento, isso tudo em 5 anos.

    No começo foi bem difícil e pensei em desistir várias vezes, mas continuei na medida em que as coisas ficavam mais fáceis e eu não precisa consultar tanto o dicionário.

    Ainda não me considero culto e estou longe de escrever do jeito que gostaria (corretamente principalmente…) Mas a leitura me fez uma pessoa muito, muito melhor.

    Abraço!

  • Carolyne

    Eu tenho 14 anos e adoro pegar livros na bilioteca do colégio. Realmente, não conheço muitos nomes de escritores brasileiros que rendem boas histórias e me interessei por alguns livros citados.
    Os livros me levam pra um outro mundo, adoro aventuras como As Crônicas de Nárnia, eles me ajudam a refletir e relaxam =D
    Muito obrigado pelas dicas de livros que poderei gostar :)

  • Paulo

    Após rápida consulta no dicionário, todos hão de concordar que “hábito da leitura” aplica-se melhor como título do que “vício da leitura”.
    Vício tem conotação negativa, o que, indubitavelmente, não é o caso da paixão pela leitura.

  • Santhyago

    belo texto, me fez sentir saudade de escrever por aqui.

  • @Paulo
    Seguinte… Não acho que “hábito da leitura” se encaixaria em um texto cujo objetivo era exatamente colocar uma contraposição entre os argumentos e o título.

    @Carolyne
    Isso acontece pq não há muita divulgação dos autores juvenis, principalmente nas escolas, onde deveria haver essa apresentação ao mundo da literatura infanto-juvenil brasileira.

  • Karol

    Puxa, me vi nas suas letrinhas, B. Cristina!

    Considero-me “gutembergomaníaca”, maníaca pela palavra escrita XD

    A única coisa que não concordo é jogar Harry Potter no mesmo saquinho que Crepúsculo e Melancia… ahh o bruxinho até que é legal, vai! E ele foi lançado beeem antes dos vampiros que brilham. Eu cresci com ele, tinha 11 anos quando li o primeiro livro, agora tenho 22, então… hehehe :P

    Mas gosto é gosto, né?

    Muito bom seu texto :)

  • Vinícius Naves Castanheira

    Série Vagalume era clássica, na minha escola tinha várias edições.
    Já leu Xisto no Espaço?

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