O Sol de Cada Manhã (The Weather Man)

Filmes bons que passam batidos quarta-feira, 15 de agosto de 2012

 David Spritz (Nicolas Cage) trabalha como apresentador da previsão do tempo em uma TV de Chicago, tendo um relativo sucesso. Ele tem a grande chance de sua vida quando a produtora de um programa nacional o convida para um teste. Porém, apesar do bom momento pelo qual passa no trabalho, seu lado pessoal não poderia ser pior. David acaba de sair de um divórcio e não ficou com a guarda dos filhos, problemas que precisa superar se deseja aproveitar a chance profissional que tem em mãos.

Talvez isso soe como uma especie de delírio momentâneo, mas houve uma época em que o Nicolas Cage fazia filmes legais. E eles nem eram tão ruins que ficavam bons, como o já antológico O Sacrifício, mas bons de verdade. Eu sei, é difícil de acreditar, depois de passarmos por dois Motoqueiros Fantasmas. Então vamos falar do que é provavelmente o último exemplar vindo desse tempo permeado de criaturas fantásticas e lendas heroicas, lá de 2005.

Então, O Sol de Cada Manhã conta a história de David Spritz, um homem do tempo, como o título original sugere. Ele trabalha cerca de duas horas por dia dando alguns palpites erráticos sobre a temperatura e ganha cerca de 240 mil dólares por ano. Mas isso não impede que ele se sinta um fracasso, porque que o pai dele, Robert Spritzel (Michael Caine) é um jornalista vencedor do prêmio Pulitzer. Além disso, a ex-mulher e os filhos (Problemáticos, regra num filme meio alternativo) acham ele um imbecil. E de vez em quando as pessoas atiram comida nele. Fast food, pra ser mais exato.

Mesmo com esse histórico, ele acha que vai dar a volta por cima se conseguir um emprego em Nova York, com o salário de um milhão por ano trabalhando como homem do tempo, num programa de entretenimento jornalístico. Tipo esses em que a Globo vem apostando nos últimos tempos. Me senti um comentarista das Olimpíadas dizendo que o sistema público de saúde da Inglaterra é tipo o SUS daqui com essa comparação, mas beleza. E enfim, o filme tem toda a cara de uma dessas comédias dramáticas genéricas, mas é surpreendentemente inteligente.

Primeiro pelo bom uso do humor negro, o que já é uma grande coisa. Até pouco tempo atrás, a menção dessas palavras já seria suficiente, mas até isso a sociedade já conseguiu estragar. Mas aqui ele funciona, eu juro. E depois, porque a jornada do protagonista é muito honesta, digamos assim. Dá pra se identificar com todas as questões centrais do enredo. Tipo a falta de identidade e o sentimento de vazio presente na sociedade contemporânea. Como se não importasse o que você faça, a comparação com alguém sempre vai fazer com que tudo pareça dolorosamente irrelevante. Ou talvez isso não aconteça com vocês, mas o filme consegue passar essa sensação.

Além disso, temos o relacionamento de David com o pai, que ganha uma sensibilidade extra graças a atuação do Michael Caine. Mas eu não preciso dizer isso, cês viram o Bátima. Apesar de aparentemente frio e distante, ele vai sutilmente demonstrando sua preocupação com o filho no decorrer da história. E o Nicolas Cage também ajuda muito, com uma atuação bastante contida, olha só (Mas não se preocupem, ele ainda tem seus momentos característicos). Com a ajuda de uma narração em off e uns flashbacks, ficamos ainda mais próximos do protagonista. O que além dos benefícios óbvios, traz o efeito colateral positivo de acabar com qualquer resquício de pretensão do filme. O maior exemplo disso acontece quando David começa a refletir sobre porquê afinal as pessoas jogam alimentos nele, e a relação com o que ele faz e representa, ou ao menos o que acha que faz e representa.

E as outras pequenas metáforas presentes aparecem de forma tão apropriadas quanto. Principalmente no que diz respeito a lição final. E tudo isso coexiste muito bem com os aspectos técnicos, como o contraste entre a paisagem gélida de Chicago e as cores quentes do antigo lar inalcançável. Ah, o “marketing inverso” das redes de fast food também é um tanto quanto sensacional. Esse caráter minimalista faz com que o espectador chegue a uma certa compreensão da história quase simultaneamente ao protagonista. De que é preciso deixar de lado as ilusões de controle e simplesmente aceitar a imprevisibilidade da vida. O filme não nos deixa com soluções mágicas, um final feliz ou infeliz. David não vence ou fracassa, apenas se encontra mais próximo de encontrar seu lugar no mundo. Ainda que esse lugar seja atrás dos bombeiros, mas na frente do Bob Esponja.

O Sol de Cada Manhã

The Weather Man (102 minutos – Drama)
Lançamento: Estados Unidos, 2005
Direção: Gore Verbinski
Roteiro: Steve Conrad
Elenco: Nicolas Cage, Michael Caine, Hope Davis, Nicholas Hoult

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