O muro de Roger Waters

Música quinta-feira, 29 de março de 2012

Ah, o que falar do show do Roger Waters? Parece grandioso demais pra colocar em palavras. Mas vamos ver como as coisas chegaram a esse ponto, enquanto eu tento reorganizar tudo na minha cabeça. Uns anos atrás, quando foi anunciado que o Waters começaria uma nova turnê do The Wall, reeditando os lendários shows que o Pink Floyd fazia há 30, 40 anos, eu costumava dizer: Pô, como seria foda se ele viesse pra cá, né?. Mas na época, essa era uma possibilidade tão longínqua que essas reflexões se perdiam em distantes devaneios. Tanto que eu só acreditei que realmente presenciaria tudo isso no fatídico 25 de março de 2012, na fila pra entrar no estádio. E benditos sejam os atrasos na reforma do Beira Rio, que fizeram com que eu e 999 felizardos, que poderiam ter a vista das cadeiras prejudicada pelas estruturas da construção, pudessem ser relocados pra pista prime sem custo adicional. Momentos depois desse milagre, eu dou uns passos pra frente e acho a espantosa quantia de 5 reais caída no chão. Era o universo dando sinais de que seria um dia iluminado.

 Não, eu não sei tirar foto. MAS VÉI OLHA ESSA DISTÂNCIA VÉI

Sim, a gente passa a vida captando depoimentos erráticos de como o The Wall ao vivo é grandioso e tudo o mais. Mas ao adentrar no recinto e ver o muro apenas parcialmente construído, percebe-se que na verdade a coisa é muito maior, maior do que a limitada mente humana poderia conceber em seus sonhos mais selvagens. Horas esperando o show começar podem até enfraquecer essa sensação. Mas quando o Roger Waters entra no palco, é tudo de uma magnificência tão inacreditável que é impossível não se emocionar só por estar presenciando esse espetáculo. Desde o primeiro acorde de In the Flesh?, até a segunda parte de Another Brick in the Wall, passando por todo o sentimento de The Thin Ice, cada novo recurso utilizado pra aumentar a imersão, os fogos de artificio, as projeções no muro, o avião caindo, o boneco gigante do professor opressivo, é mais incrível que o anterior. E o melhor de tudo, cada um tem seu significado. Nada é em vão.

Tudo isso pode ser apreciado até por quem nunca ouviu falar do Pink Floyd. Mas é a partir da performance de Mother que se revela a verdadeira essência da apresentação. Que o Waters é um gênio, não dá pra negar. Nem que o The Wall seja totalmente autobiográfico. E nem que ele seja uma das pessoas mais egocêntricas que já passaram por esse planeta. Mas parafraseemos o próprio, em certa altura do show:

Quando eu compus o The Wall, eu achava que o muro era sobre mim. Agora eu sei que é sobre o Jean Charles de Menezes. E todas essas outras pessoas.

Esse amadurecimento é perfeitamente simbolizado quando o ex-lider do PinK Floyd convida a plateia a se juntar a ele e ajudar um jovem e fodido Roger a executar a canção no telão, numa apresentação de 1980. Tanto que a música apresenta toda uma nova abordagem, transformando a superproteção e a manipulação materna numa relação entre governo e população, reforçando a já presente conexão com o Big Brother do George Orwell, enquanto mensagens de obediência e desenhos à la Banksy ocupam o muro. Além de reconhecer o quão babaca ele foi nos últimos 20 anos (Vide as recentes tentativas de reunir os membros restantes do Pink Floyd) ele deve ter se reconciliado com a mãe também, heh.

E falando no Jean Charles (O brasileiro morto pela polícia inglesa por engano, pra quem o Waters dedicou o show), a partir da menção do nome dele, a coisa poderia facilmente descambar pra um sentimentalismo barato. Mas o Roger Waters é inteligente demais pra deixar isso acontecer. Ao contrário de certos artistas que apoiam a chamada Guerra ao Terror (Ou até a criticam, de forma um tanto quanto vazia) e cumprimentam presidentes por aí, ele escolheu um caminho muito mais acertado, denunciando o terrorismo de Estado. E a crítica se mantém pertinente e inteligente até o fim. O que não é de se estranhar, conhecendo o disco e o filme. Ou quer analogia mais genial do que o clássico exercito de martelos marchando? Que se une à novas aquisições, como o bombardeio de símbolos políticos, econômicos e religiosos durante Goodbye Blue Sky.

Enquanto isso, o protagonista da opera rock Pink/Waters segue erguendo o muro, com a ajuda da mãe, dos educadores, da esposa. Coisa representada por outro momento fenomenal, quando a animação do acasalamento/disputa das flores, também utilizada no filme, é maximizada. Assim, a obra mantém o caráter intimista, ao mesmo tempo que as críticas e questões levantadas se tornam universais, característica que define toda grande obra de arte. Depois de Goodbye Cruel World, tem fim a primeira parte. O muro está totalmente construído e é preenchido com uma homenagem às diversas vítimas das numerosas guerras e conflitos dos últimos 100 anos.

Na volta, tudo segue com a mesma emoção e excelência. Mesmo assim, não dá pra deixar de sentir uma ponta de desapontamento quando começa o refrão de Comfortably Numb e não é o David Gilmour que aparece pra cantar em cima do muro. Mas tudo bem, o show tem que continuar, enquanto Waters personifica tudo o que sempre odiou, noutra sátira genial. De novo, com uma grandiosidade inacreditável, que tem seu ápice em Run Like Hell e termina com o julgamento de Pink por aqueles que o tornaram o que ele é. Tudo devidamente representado na surreal animação e interpretado pelo Waters, culminando com a derrubada do muro e uma versão de Outside the Wall que consegue levar qualquer um às lágrimas.

Mas o mais incrível é como tudo, TUDO alcança a perfeição. A execução das músicas, a montagem do muro, às projeções, a performance do Waters. Tudo está no lugar certo, na hora certa. E maximiza o significado da música. É a junção perfeita entre arte e tecnologia. Toda a capacidade humana utilizada na direção certa, transformando o show na maior experiencia audiovisual que se pode presenciar. Sério, compatriotas que não compraram ingresso: Corrijam esse erro o mais rápido possível, pois certamente não encontrarão em vida um espetáculo de tal magnitude e significado.

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