O melhor instrumento musical do mundo

Música sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Tava eu naquele fatídico limbo do “ter coisa pra fazer mas não fazer nenhuma delas” quando me deparei, nessa internet de meu deus, com o argumento de que instrumento de luthier não é caro. Meuzovo que não é caro.

Pra quem não sabe, luthier é a pessoa que constrói (Ou restaura, conserta, mantém…) instrumentos musicais. Nos dias de hoje (E já há muito tempo), um instrumento feito por um luthier significa um instrumento personalizado, muitas vezes sob medida e sob encomenda, o que, considerando que o profissional seja bom no seu trabalho, implica em duas coisas: Um instrumento de excelente qualidade e um instrumento muito, muito caro, afinal, é literalmente um processo artesanal, desde os materiais até a mão de obra extremamente especializada.

Isso não é problema algum, já que se você tem as condições de bancar um treco desse, por que não? O problema é esse discursinho de “não é gasto, é investimento”.

Porra, instrumento de qualidade é maneiro pra caralho, mas não é investimento. Vai ver quanta gente comprou, lá na época, um Stradivarius por querer investir, e olha que o cara já era um luthier famoso na época. Instrumento não dá gasto como um carro ou moto, mas na gigantesca maioria das vezes, é só uma parada muito cara que cê compra. Um instrumento desse vai ser de grande qualidade, ter bom som e tudo mais? Claro, mas à bem da verdade cê poderia muito bem comprar um instrumento feito em massa, também de qualidade, e ter excelentes resultados com ele. Diga-se de passagem, a variação de qualidade é infinitamente menor em instrumentos produzidos em massa, então as chances de cê ter um instrumento bom e com toda a disponibilidade de garantia, peças e tudo mais, é muito maior.

 Não vou nem entrar nos méritos da reciclagem e outras gambiarras.

E aí entra o meu ponto nessa questão: Instrumento barato é foda.

Instrumento barato tende a ser porcaria? Claro, afinal há limites na redução de gastos pra ter um bom produto final, mas porra, quanta gente vai usar o bagulho pro resto da vida? Quem só quer comprar a parada e fazer um barulho não quer (E nem vai) gastar horrores num instrumento que só vai ser usado ocasionalmente. Quem quer começar a aprender o treco pra ver se gosta, também não. E quem decidir levar a coisa adiante tem um mundo de escolhas em instrumentos mais caros, mas ainda feitos em massa, com boa qualidade… Aliás, tem instrumento que é literalmente melhor se for feito de forma industrializada, já que máquinas e computadores são muito mais precisos que seres humanos.

Longe de mim dizer que um instrumento de luthier é ruim: Simplesmente é um instrumento pra um público diferente. Um público que já toca o tal instrumento, já conhece, já pesquisou… Instrumento assim é o último passo na ascensão musical de alguém. Passo que a gigantesca maioria das pessoas que tocam um instrumento, por melhor que toquem e por mais que se interessem, jamais darão. Não por preço e acesso, mas porque não é justificado dentro do que a pessoa toca: É um salto gigantesco em preço e qualidade que, de forma muito prática, faz-se pouco por notar.

Agora, um instrumento musical barato é (Quase) sempre justificado justamente por ser acessível pro maior número de pessoas possível. Claro que um instrumento barato demais provavelmente não valerá sequer a compra, já que não terá qualidade pra fazer um som minimamente aproveitável, mas um instrumento bom e barato, com todos os seus poréns e concessões, significa que mais uma pessoa no mundo terá a chance de aprender a tocar alguma coisa. Que mais alguém terá a chance de entrar no mundo da música. E que há mais chances de termos, no futuro, mais bons músicos no mundo. Isso soa como uma aposta mas não é: Música não é um recurso finito, dá pra fazer o quanto você quiser.

Instrumento não é um treco barato de uma forma geral: Tamos falando aí de valores que variam de 300 a 4000 reais em modelos básicos entre diferentes instrumentos. Um violão simples é relativamente acessível, mas um trombone simples é bem mais caro, mesmo sendo seu equivalente. Um instrumento já é um gasto não essencial, já requer um interesse inicial e um investimento inicial maior que, digamos, aprender a jogar basquete. Quanto mais a gente facilitar esse começo, melhor.

Eu não suporto esse papinho de escola de música de que “aprender um instrumento muda a vida da criança”, mas de certo modo, é uma verdade. Essa história de que instrumento bom ou é versão topo de linha de marca famosa ou é encomendado em luthier pode ir pra casa do caralho. Instrumento bom é instrumento que dá pra pessoa tocar. Do mesmo jeito que cê não pode pagar 100 pila numa bateria e esperar um som foda, cê não pode entrar na primeira loja de instrumentos aí e comprar aquele série especial signature da vitrine por 50 mil reais. Há mais do que espaço necessário entre instrumento de entrada bom e instrumento profissional pra satisfazer as necessidades de cada um.

Que nem muitas outras coisas na vida, ter instrumento é uma caminhada, ou melhor, uma escada: Cê começa pelo primeiro degrau (E não no degrau zero, seu mão de vaca do caralho) e sobe até onde conseguir ou quiser ou se interessar. Se esse degrau for logo no segundo, beleza; se for no fim da escada, melhor ainda. Só não dá pra esperar que todo mundo comece subindo a escada logo pelo último degrau, até porque é inútil e um desperdício: Quem faz música boa é o músico, não o instrumento. Dar uma viola caipira personalizada pra alguém que começou a fazer aula semana passada é tão babaca quanto dar uma viola de plástico e corda de alumínio pra um profissional de orquestra.

Ou quase…

O grande ponto é que cê não precisa de um instrumento de luthier pra fazer música. Ninguém precisa. Essas porras são caras pra caralho. Dão um trabalho enorme pra manter. E, pra grande maioria do que cê vai tocar, não faz diferença nenhuma. Quer ter um instrumento desses? Ótimo mesmo. Deve ser legal pra caralho ter um instrumento que você sabe exatamente quem fez e que tem uma (Certa) garantia de que será de extrema qualidade. Eu tenho meia dúzia de instrumentos em casa e, se pudesse, com certeza só teria instrumento de luthier… Mas eu não preciso deles. Você não precisa também. E chances são de que nem eu nem você teríamos nenhum instrumento em casa se dependêssemos única e exclusivamente de luthiers pra isso. E é muito melhor tocar num instrumento barato que não tocar nada.

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